Выбрать главу

- Os olhos dele cintilaram ferozmente. - O señor disse que nunca esteve na Ásia antes?

- Não.

- Se nunca esteve na Ásia antes, então será como uma criança na escuridão. Sim, há tanta coisa para dizer! O señor sabe que os jesuítas são meramente comerciantes, mercadores de armas e usurários? Que controlam toda a seda que é comerciada aqui, todo o comércio com a China? Que o Navio Negro anual vale um milhão em ouro? Que forçaram Sua Santidade a conceder-lhes poder total sobre a Ásia - a eles e a seus cães, os portugueses? Que todas as outras religiões são proibidas aqui? Os jesuítas negociam ouro, comprando e vendendo por lucro - para eles e para os pagãos -, contra as ordens diretas de Sua Santidade o Papa Clemente, do Rei Filipe, e contra as leis desta terra? Que eles secretamente contrabandeiam armas para o Japão, para os reis cristãos aqui, incitando-os à rebelião? Que se imiscuem em política, são alcoviteiros dos reis, mentem, trapaceiam e prestam falso testemunho contra nós! Que o superior deles em pessoa enviou uma mensagem secreta ao nosso vice-rei espanhol em Luzón pedindo-lhe conquistadores para conquistar a terra - imploraram por uma invasão espanhola para ocultar mais erros dos portugueses. Todos os nossos problemas podem ser atribuídos a eles, señor. Foram os jesuítas que mentiram, trapacearam e espalharam veneno contra a Espanha e o nosso amado Rei Filipe! Suas mentiras me colocaram aqui e causaram o martírio de vinte e seis santos padres! Pensam que só porque fui camponês um dia, não compreendo... mas sei ler e escrever, señor, sei ler e escrever! Fui um dos secretários de Sua Excelência, o vice-rei. Pensam que nós, franciscanos, não compreendemos... - Neste ponto ele irrompeu noutra mistura de espanhol e latim.

O espírito de Blackthorne ressuscitou, sua curiosidade aguçada com o que o padre dissera. Que armas? Que ouro? Que comércio? Que Navio Negro? Um milhão? Que invasão? Que reis cristãos?

Você não está iludindo esse coitado doente? - perguntou si mesmo. Ele pensa que você é um amigo, não um inimigo.

Não menti para ele.

Mas não deixou implícito que era amigo?

Respondi-lhe diretamente.

Mas disse voluntariamente alguma coisa?

Não.

Isso é justo?

É a primeira regra de sobrevivência em águas inimigas: não dizer nada voluntariamente.

O furor do monge aumentou de intensidade. Os japoneses próximos mudaram de posição inquietos. Um deles se levantou, sacudiu o padre gentilmente e falou com ele. Frei Domingo gradualmente saiu do acesso de cólera, os olhos clarearam. Olhou para Blackthorne com reconhecimento, respondeu ao japonês, e acalmou o resto.

- Sinto muito, señor - disse, sem fôlego. - Eles... eles acharam que eu estava zangado com.., com o señor. Deus me perdoe minha raiva tola! Só estava... que vá, os jesuítas vêm do inferno, junto com os hereges e pagãos. Posso lhe contar muita coisa sobre eles. - O monge enxugou a baba do queixo e tentou se acalmar. Apertou o peito para aliviar a dor ali. - O señor estava dizendo? Seu navio foi atirado na praia?

- Sim. De certo modo. Encalhado - respondeu Blackthorne. Mudou as pernas de posição com todo o cuidado. Os homens que estavam observando e ouvindo deram-lhe mais espaço. Um se levantou e fez-lhe sinal que se esticasse. - Obrigado - disse ele imediatamente. - Oh, como se diz "obrigado", padre?

- "Domo". As vezes se diz "arigato". Uma mulher tem que ser muito polida. Diz "arigato goziemashita".

- Obrigado. Qual é o nome dele? - Blackthorne indicou o homem que se levantara.

- Esse é González.

- Mas qual é o nome japonês?

- Ah, sim! Akabo. Mas isso só significa "carregador", señor. Eles não têm nome. Só os samurais têm.

- O quê?

- Só os samurais têm nomes, prenomes e sobrenomes. E a lei deles, señor. Todos os outros têm que se satisfazer com o nome do que são: carregador, pescador, cozinheiro, executor, fazendeiro, e assim por diante. Os filhos e filhas praticamente são apenas Primeira Filha, Segunda Filha, Primeiro Filho, e assim por diante. As vezes chamam um homem de "pescador que mora perto do olmo" ou "pescador com os olhos maus". - O monge sacudiu os ombros e reprimiu um bocejo. - Os japoneses comuns não têm direito de usar nome. As prostitutas dão a si mesmas nomes como Carpa, Lua, Pétala, Enguia, Estrela. E estranho, señor, mas é a lei deles. Nós lhes damos nomes cristãos, nomes verdadeiros, quando os batizamos, trazendo-lhes a salvação e a palavra de Deus... - Suas palavras ficaram no ar e ele adormeceu.

- Domo, Akabo-san - dìsse Blackthorne ao carregador.

O homem sorriu acanhado, curvou-se e respirou fundo.

Mais tarde o monge despertou, disse uma prece rápida e se coçou.

- Só ontem, o señor disse? Chegou aqui só ontem? O que aconteceu com o señor?

- Quando desembarcamos, havia um jesuíta lá - disse Blackthorne. - Mas o senhor, padre, estava dizendo que foi acusado? O que lhe aconteceu? E ao seu navio?

- Nosso navio? O señor estava vindo de Manila, como nós? Ou... oh, que tolice a minha! Agora me lembro, o señor foi desviado da rota, vindo de casa, e nunca esteve na Ásia antes. Pelo abençoado corpo de Cristo, é tão bom conversar com um homem civilizado de novo, na minha abençoada língua materna! Que vá, faz tanto tempo. Minha cabeça dói, dói, señor. Nosso navio? Estávamos voltando para casa finalmente. Voltando de Manila para Acapulco, na terra de Cortez, o México, de lá, por

terra, até Vera Cruz. Em seguida outro navio e a travessia do Atlântico, depois de muito, muito tempo, para casa. Minha aldeia é fora de Madri, señor, nas montanhas. Chama-se Santa Verônica. Estive fora quarenta anos, señor. No Novo Mundo, no México, e nas Filipinas. Sempre com nossos gloriosos conquistadores, que a Virgem vele por eles! Eu estava em Luzón quando destruímos o rei nativo pagão, Lumalon, conquistamos Luzón e assim levamos a palavra de Deus às Filipinas. Muitos dos nossos convertidos japoneses lutaram conosco, señor. Que combatentes! isso foi em 1575. A Mãe Igreja está bem plantada lá, meu filho, e nunca se viu um jesuíta ou português imundo. Vim para o Japão por quase dois anos, depois tive que partir para Manila de novo, quando os jesuítas nos traíram.

O monge parou e fechou os olhos, devaneando. Mais tarde voltou à conversa de novo e como faziam os velhos às vezes continuou como se nuca tivesse adormecido.

- Meu navio era o grande galeão San Felipe. Levava uma carga de especiaria, ouro e prata, e dinheiro no valor de um milhão e meio de pesos de prata. Uma das grandes tempestades nos pegou e nos atirou às praias de Shikoku. Nosso navio quebrou a quilha no banco de areia no terceiro dia; nessa altura já tínhamos desembarcado nossos lingotes e a maior parte da carga. Então chegou o aviso de que estava tudo confiscado, confiscado pelo próprio taicum, que nós éramos piratas e ... – Ele parou ante o silêncio repentino.

A porta de ferro da cela havia-se aberto.

Guardas começaram a chamar nomes da lista. O buldogue, o homem que ajudara Blackthorne, foi um dos chamados. Caminhou para fora e não olhou para trás. Um dos homens no círculo também foi escolhido. Akabo. Akabo ajoelhou-se diante do monge, que o abençoou, fez o sinal-da-cruz sobre ele e rapidamente lhe ministrou o último sacramento. O homem beijou a crruz e se afastou.

A porta se fechou de novo.

- Vão executá-lo? – perguntou Blackthorne.