- Sim, o calvário dele está do outro lado da porta. Que a Santa Virgem lhe tome a alma rapidamente e lhe dê a recompensa eterna.
- O que fez aquele homem?
- Infringiu a lei... a lei deles, señor. Os japoneses são um povo simples. E muito severo. Só reconhecem realmente uma única punição: a morte. Na cruz, por estrangulamento ou decapitação. Pelo crime de incêndio culposo, a pena é de morte no fogo. Praticamente não tem outra punição. Banimento às vezes, ou corte de cabelo para as mulheres. Mas – o velho – quase sempre é a morte.
- Esqueceu-se do aprisionamento.
As unhas do monge cutucaram distraidamente as crostas no braço. – Não é punição, meu filho. Para eles, a prisão é apenas um lugar provisório onde manter o homem até que decidam a sentença. Só os culpados vem para cá. E por muito pouco tempo.
- Isso é absurdo. E o senhor? Está aqui há um ano, quase dois.
- Um dia virão me buscar, como a todos os outros. Isto não é mais que um lugar de repouso entre o inferno na terra e a glória da vida eterna.
- Não acredito no senhor.
- Não tenha medo, meu filho. É a vontade de Deus. Estou aqui, posso ouvi-lo em confissão, dar-lhe a absolvição e torná-lo perfeito. A glória da vida eterna está a uns poucos cem passos e momentos de distância daquela porta. O señor gostaria que eu ouvisse sua confissão agora?
- Não... não, obrigado. Agora não – Blackthorne olhou para a porta de ferro. Alguém já tentou escapar daqui?
- Por que fariam isso? Não há para onde fugir... nenhum lugar onde se esconder. As autoridades são muito severas. Qualquer pessoa que ajude um condenado fugitivo ou mesmo um homem que cometa um crime... – Apontou vagamente para a ponta do barraco. – Gonzáles... Akabo... o homem que nos... nos deixou. É um kaga. Ele me disse...
- O que é um kaga?
- Oh, os portadores, señor, os que carregam os palanquins numa vara. Ele nos contou que o parceiro roubou um lenço de seda de um freguês, pobre sujeito, e porque ele não comunicou o roubo, a vida dele também está perdida. O señor pode me acreditar: o homem que escapar, ou mesmo ajudar alguém a escapar, poderia perder a vida e toda a família também. São muito severos, señor.
- É por isso então que vão todos para a execução como ovelhas?
- Não há escolha. É a vontade de Deus.
Não se encolerize, não entre em pânico, advertiu Blackthorne a si mesmo. Seja paciente. Você pode pensar num jeito. Nem tudo o que o padre diz é verdade. Ele está perturbado. Quem não estaria, depois de tanto tempo?
- Estas prisões são novas para eles, señor – estava dizendo o monge. – O táicum instituiu as prisões aqui a poucos anos, pelo que dizem. Antes dele não havia nenhuma; quando um homem era apanhado, confessava o crime e era executado.
- E se não confessasse?
- Todo mundo confessa... o quanto antes, melhor, señor. É o mesmo que no nosso mundo, quando se é apanhado.
O monge dormiu um pouco, coçando-se e resmungando durante o sono. Quando despertou, Blackthorne disse:
- Por favor, diga-me padre, como é que os malditos jesuítas colocam um homem de Deus neste buraco pestilento.
- Não há muito a dizer e há tudo. Depois que os homens do taicum vieram e tomaram todo o nosso dinheiro e mercadorias, nosso capitão-mor insistiu em ir à capital para protestar. Não havia motivo para o confisco. Não éramos súditos de Sua Majestade Imperial Católica o Rei Filipe da Espanha, governante do maior e mais rico império do mundo? O monarca mais poderoso do mundo? Não éramos amigos? O taicum não estava pedindo à Manila espanhola que comerciasse diretamente com o Japão, para quebrar o infame monopólio dos portugueses? Era tudo um engano, o confisco. Tinha que ser.
"Fui com o nosso capitão-mor porque sabia falar um pouco de japonês - não muito naquele tempo. Señor, o San Felipe perdeu o rumo e veio -dar em terra em outubro de 1597. Os jesuítas - um se chamava Padre Martim Alvito - ousaram se oferecer para servirem de mediadores nossos, lá em Kyoto, a capital. O despropósito! Nosso superior franciscano, Frei Braganza, estava na capital, e era um embaixador - um verdadeiro embaixador da Espanha na corte do taicum! O abençoado Frei Braganza estava na capital, em Kyoto, há cinco anos, señor. O próprio taicum, pessoalmente, pedira ao nosso vice-rei em Manila que enviasse monges franciscanos e um embaixador para o Japão. Então o abençoado Frei Braganza veio. E nós, señor, nós do San Felipe, sabíamos que ele merecia confiança, que não era como os jesuítas”.
"Depois de muitos e muitos dias de espera, tivemos uma entrevista com o taicum - era um homenzinho minúsculo, horroroso, señor -, e pedimos que nos devolvesse nossas mercadorias e nos desse outro navio, ou passagem em outro, pelo que o nosso capitão-mor se prontificou a pagar generosamente. A entrevista transcorreu bem, achamos nós, e o taicum nos dispensou. Dirigimo-nos ao nosso monastério em Kyoto e esperamos, e nos meses seguintes, enquanto esperávamos pela decisão dele, continuamos a levar a palavra de Deus aos pagãos. Realizávamos os nossos serviços abertamente, não como ladrões na noite, como fazem os jesuítas." A voz de Frei Domingo estava cortante de desdém”.
"Usávamos nossos hábitos e paramentos, não íamos disfarçados de sacerdotes nativos, como eles fazem. Levamos a Palavra ao povo, aos defeituosos, aos doentes e aos pobres, não como os jesuítas, que só mantêm relações com príncipes. Nossas congregações aumentaram. Tínhamos um hospital para leprosos, nossa própria igreja, e o nosso rebanho prosperava, señor. Grandemente. Estávamos prestes a converter muitos dos reis deles e então, um dia, fomos traídos”.
"Um dia, em janeiro, nós, franciscanos, fomos todos levados diante do magistrado e acusados sob determinação pessoal do taicum, señor, acusados de violadores da lei deles, perturbadores da paz, e condenados à morte por crucificação. Havia quarenta e três de nós. Nossas igrejas .espalhadas pelo país deviam ser destruídas, todas as nossas congregações deviam ser dissolvidas, as franciscanas, não as jesuíticas, señor. Só nós, señor. Fomos falsamente acusados. Os jesuítas envenenaram os ouvidos do taicum e o convenceram de que éramos conquistadores, que queríamos invadir estas praias, quando foram os jesuítas que imploraram a Sua Excelência, o nosso vice-rei, que enviasse um exército de Manila. Vi a carta pessoalmente! Do superior deles! São demônios que fingem servir à Igreja e a Cristo, mas servem apenas a si mesmos. Cobiçam o poder, poder a qualquer preço. Escondem-se por trás de uma capa de pobreza e devoção, mas embaixo disso alimentam-se como reis e acumulam fortunas. Que vá, señor, a verdade é que eles estavam com inveja das nossas congregações, inveja da nossa igreja, inveja da nossa verdade e do nosso modo de vida. O daimio de Hizen, Dom Francisco - o nome japonês é Harima Tadao, mas foi batizado como Dom Francisco -, intercedeu por nós. Ele é como um rei, todos os daimios são como reis, e ele é franciscano e intercedeu por nós, mas em vão”.
"No fim, vinte e seis foram martirizados. Seis espanhóis, dezessete dos nossos noviços japoneses, e três outros. O abençoado Braganza foi um deles, e havia três meninos entre os noviços. Oh, señor, os fiéis estiveram lá aos milhares naquele dia. Cinqüenta, cem mil pessoas assistiram ao martírio abençoado em Nagasaki, disseram-me. Foi um triste dia frio de fevereiro e um triste ano também. Foi o ano dos terremotos, dos tufões, enchentes, tempestades, incêndios, foi o ano em que a mão de Deus se abateu pesada sobre o grande assassino e até pôs abaixo o grande castelo dele, Fushimi, fazendo a terra tremer. Foi aterrorizante mas maravilhoso presenciar o dedo de Deus punindo pagãos e pecadores”.