"Assim eles foram martirizados, seis bons espanhóis. Nosso rebanho e nossa igreja foram devastados e o hospital, fechado. As lágrimas escorriam pelo rosto do velho. "Eu... eu fui um dos escolhidos para o martírio, mas... mas a honra não seria minha. Fizeram-nos vir caminhando de Kyoto e quando chegamos a Osaka puseram alguns de nós numa das nossas missões aqui e o resto... o resto teve uma orelha cortada, depois teve que desfilar pelas ruas como criminosos comuns. Então puseram os abençoados irmãos a caminhar para oeste. Durante um mês. A jornada abençoada terminou numa colina chamada Nishizaki, que domina a grande enseada de Nagasaki. Implorei ao samurai que me deixasse ir com eles, señor, mas ele me ordenou que voltasse à missão aqui em Osaka. Por nenhuma razão. E então, meses mais tarde, fomos colocados nesta cela. Éramos três, acho que éramos três, mas eu era o único espanhol. Os outros eram noviços, nossos irmãos leigos, japoneses. Alguns dias depois os guardas chamaram o nome deles. Mas nunca chamaram o meu. Talvez seja a vontade de Deus, señor, ou talvez aqueles jesuítas imundos me deixem vivo apenas para me torturar — eles, que me tiraram a chance de ser martirizado junto com os meus. É duro, señor, ser paciente. Tão difícil..."
O velho monge fechou os olhos, rezou e chorou até pegar no sono.
Embora quisesse muito, Blackthorne não conseguiu dormir, mesmo já sendo noite. Sentia a carne arrepiar-se com as mordidas de piolhos. A cabeça fervilhando de terror.
Sabia, com uma terrível clareza, que não havia meio de escapar. Sentia-se subjugado e no limiar da morte. Na altura em que a noite se tornou mais escura, o terror o engoliu, e, pela primeira vez na vida, ele cedeu e chorou.
- Sim, meu filho? - murmurou o monge. - O que é?
- Nada, nada - disse Blackthorne, com o coração ribombando. - Durma de novo.
- Não é preciso ter medo. Estamos todos nas mãos de Deus - disse o monge, e adormeceu novamente.
O grande terror cedeu lugar a um terror com que se podia viver. Sairei daqui de algum modo, disse Blackthorne a si mesmo, tentando acreditar na mentira. Ao amanhecer chegou comida e água. Blackthorne estava mais forte agora. Estupidez ceder assim, advertiu-se ele. Estúpido, fraco e perigoso. Não faça isso de novo ou você começa a definhar, fica louco e morre com certeza. Colocarão você na terceira fileira e você morrerá. Tenha cuidado, seja paciente e vigie-se.
- Como está hoje, señor?
- Ótimo, obrigado, padre. E o senhor?
- Razoavelmente bem, obrigado.
- Como digo isso em japonês?
- Domo, genki desu.
- Domo, genki desu. Ontem, padre, o senhor esteve falando sobre os Navios Negros portugueses... como são eles? Já viu algum?
- Oh, sim, señor. São os maiores navios do mundo, quase duas mil toneladas. São necessários duzentos homens e rapazes para tripular um, señor, e com tripulação e passageiros o total seria de quase mil almas. Disseram-me que esses galeões navegam bem a barlavento mas se arrastam quando o vento vem de través.
- Quantos canhões eles levam?
- As vezes vinte ou trinta, em três conveses.
Frei Domingo estava contente por responder a perguntas, conversar e ensinar, e Blackthorne estava igualmente contente de ouvir e aprender. O conhecimento desconexo do monge era inestimável e abrangia muita coisa.
- Não, señor - estava dizendo agora. - "Domo" é "obrigado" e "doto" é "por favor". "Agua" é "mizu". Lembre-se sempre de que os japoneses dão muito valor às boas maneiras e à cortesia. Uma vez, quando eu estava em Nagasaki... Oh, se ao menos eu tivesse tinta, uma pena e papel! Ah, já sei... aqui, desenhe as palavras no pó, isso o ajudará a se lembrar...
- Domo - disse Blackthorne. Depois de memorizar mais algumas palavras, perguntou: - Há quanto tempo os portugueses estão aqui?
- Oh, a terra foi descoberta em 1542, señor, o ano em que nasci. Foram três homens: Da Mota, Peixoto e o nome do outro não consigo lembrar. Eram todos comerciantes portugueses, fazendo comércio ao longo das costas da China e provenientes de um porto no Sião. O señor já esteve no Sião?
- Não.
- Ah, há muito que ver na Ásia. Esses três homens estavam comerciando, mas foram apanhados por uma grande tempestade, um tufão, atirados para fora da rota e atracaram em segurança em Tanegashima, em Kyushu. Foi a primeira vez que um europeu pôs os pés em solo japonês, e imediatamente o comércio começou. Poucos anos mais tarde, Francisco Xavier, um dos membros fundadores dos jesuítas, chegou aqui. Isso foi em 1549... um mau ano para o Japão, señor. Um dos nossos irmãos deveria ter vindo primeiro, então teríamos nós herdado este reino, não os portugueses. Francisco Xavier morreu três anos depois, na China, sozinho e desamparado... Já lhe disse, señor, que já há um jesuíta na corte do imperador da China, num lugar chamado Pequim?... Oh, devia ver Manila, señor, e as Filipinas! Temos quatro catedrais, quase três mil conquistadores e perto de seis mil soldados japoneses espalhados pelas ilhas, e três mil irmãos...
A mente de Blackthorne encheu-se de fatos e palavras e frases japonesas. Perguntou sobre a vida no Japão, os daimios, os samurais, o comércio, Nagasaki, guerra, paz, jesuítas, franciscanos, portugueses na Ásia, Manila espanhola, e sempre mais sobre o Navio Negro que vinha anualmente de Macau. Durante três dias e três noites Blackthorne sentou-se junto ao Frei Domingo, interrogou, ouviu, aprendeu, dormiu com pesadelos, para despertar e fazer mais perguntas e obter mais informações.
Então, no quarto dia, chamaram seu nome.
- Anjin-san!
CAPÍTULO 15
Em meio ao silêncio absoluto, Blackthorne pôs-se de pé.
- Sua confissão, meu filho, faça-a rapidamente.
- Eu... eu não acho... eu... - Blackthorne percebeu, no torpor da sua mente, que estava falando inglês, então apertou os lábios com força e começou a caminhar. O monge ergueu-se com dificuldade, supondo que as palavras dele fossem holandesas ou alemãs, agarrou-lhe o pulso, coxeando ao seu lado.
- Rápido, señor. Eu lhe darei a absolvição. Seja rápido, pela sua alma imortal. Faça-a rapidamente, simplesmente, que o señor confessa diante de Deus todas as coisas passadas e presentes...
Estavam se aproximando do portão de ferro, o monge segurando-se a Blackthorne com uma força surpreendente.
- Faça-a agora! A Virgem abençoada velará pelo señor!
Blackthorne puxou o braço com um repelão, e disse asperamente em espanhoclass="underline"
- Vá com Deus, padre.
A porta se fechou com estrépito atrás dele.
O dia estava incrivelmente fresco e agradável, as nuvens serpeando ao vento suave que soprava de sudeste.
Ele inalou o ar a grandes sorvos, o ar limpo, glorioso, e sentiu o sangue precipitar-se pelas veias. A alegria de viver invadiu-o.
Vários prisioneiros despidos estavam no pátio junto com um oficial, carcereiros munidos de lanças, etas, e um grupo de samurais. O oficial vestia um quimono escuro, um manto com ombros engomados, em forma de asas, e um pequeno chapéu escuro. Esse homem deteve-se diante do primeiro prisioneiro, leu um rolo de
papel muito fino e, quando acabou, cada homem começou a caminhar lenta e penosamente atrás dos seus guardiões, em direção às grandes portas do pátio. Blackthorne foi o último. Ao contrário dos outros, deram-lhe uma tanga, um quimono de algodão e tamancos de tiras. E seus guardas eram samurais.