Resolvera escapar no momento em que ultrapassassem o portão, mas quando se aproximaram da soleira, os samurais o rodearam mais de perto e o fecharam no círculo. Atingiram a passagem juntos. Uma vasta multidão observava, asseada e bem vestida, com sombrinhas carmesins, amarelas e douradas. Já havia um homem amarrado a uma das cruzes que se erguiam contra o céu. Ao lado de cada cruz dois etas esperavam, com as longas lanças cintilando ao sol.
O passo de Blackthorne retardou-se. Os samurais se chegaram mais, apressando-o. Entorpecido, ele pensou que seria melhor morrer agora, rapidamente, então preparou a mão para dar um bote sobre a espada mais próxima. Mas não houve oportunidade que pudesse aproveitar, porque os samurais desviaram da arena e caminharam na direção do perímetro urbano, dirigindo-se para as ruas que levavam à cidade e, depois, rumo ao castelo.
Blackthorne esperou, mal e mal respirando, querendo ter certeza. Atravessaram a multidão, que recuou e se curvou, atingiram uma rua e agora não havia engano algum.
Blackthorne sentiu-se renascer. Quando conseguiu falar, disse:
- Aonde estamos indo? -, sem se importar com que as palavras não seriam compreendidas ou com o fato de estar falando inglês. Estava delirante. Seus passos mal tocavam o chão, as tiras dos tamancos não estavam desconfortáveis, o contato do quimono não era desagradável. Na realidade, sentia-se muito bem, pensou. Um pouco leve demais, talvez, mas num dia excelente como este... exatamente o tipo de coisa para se usar ao tombadilho!
- Por Deus, é maravilhoso falar inglês de novo - disse ele ao samurai. - Jesus Cristo, pensei que fosse um homem morto. Lá se foi a minha oitava vida. Sabiam disso, amigos velhos? Agora só tenho mais uma. Bem, não importa! Os pilotos têm dez vidas no mínimo, como Alban Caradoc costumava dizer. - Os samurais pareciam estar se irritando com aquela conversa incompreensível. Controle-se, disse Blackthorne a si mesmo. Não vá fazê-los mais suscetíveis do que já são.
Notou então que todos os samurais eram cinzentos. Homens de Ishido. Ele havia perguntado ao Padre Alvito o nome do homem que se opunha a Toranaga. Alvito dissera "Ishido". Isso fora pouco antes de lhe ordenarem que se levantasse e o levarem embora. Todos os cinzentos são homens de Ishido? E todos os marrons de Toranaga?
- Aonde estamos indo? Para lá? - Apontou o castelo, que pairava acima da cidade. - Para lá, hai?
- Hai - assentiu o líder com cabeça de bala de canhão, a barba grisalha.
O que será que Ishido quer comigo? - perguntou-se Blackthorne.
O líder dobrou outra rua, sempre se afastando da enseada. Foi quando Blackthorne o viu: um pequeno brigue português, com a bandeira azul e branca oscilando à brisa, dez canhões no convés principal. O Erasmus poderia pegá-lo facilmente, disse Blackthorne a si mesmo. Como estará a minha tripulação? O que estarão fazendo lá na aldeia? Pelo sangue de Cristo, gostaria de vê-los. Fiquei tão contente em deixá-los naquele dia e voltar para a minha casa, onde estava Onna - Haku -, a casa de... como era o nome? Ah, sim, Mura-san. E a garota, aquela na minha cama, e a outra, a beleza de anjo que conversou naquele dia com Omi-san? A do sonho que também estava dentro do caldeirão.
Mas para que lembrar esse absurdo? Enfraquece a mente. "Você tem que ser muito forte de cabeça para viver com o mar", dissera Alban Caradoc. Coitado do Alban.
Alban Caradoc sempre parecera imenso, quase divino, vendo tudo, sabendo tudo, por tantos anos. Mas morrera aterrorizado. Fora no sétimo dia da Armada. Blackthorne estava comandando um brigue de cem toneladas partido de Portsmouth, transportando armas e pólvora, munição e comida para os galeões de guerra de Drake, ao largo de Dover, que acossavam e cortavam a esquadra inimiga que vinha atacando o canal na direção de Dunquerque, onde se encontravam as legiões espanholas, esperando para baldear e partir rumo à conquista da Inglaterra.
A grande esquadra espanhola fora devastada pelas tempestades e pelos navios de guerra mais odiosos, velozes e ágeis que Drake e Howard jamais haviam construído.
Blackthorne se encontrava num ataque turbilhonante perto da nau capitânea do Almirante Howard, Renown, quando o vento mudara, revigorado por um temporal, de rajadas monstruosas, e ele tivera que decidir entre tentar seguir a barlavento para escapar a canhonada que irromperia do grande galeão Santa Cruz, bem à frente, ou correr com o vento sozinho, através da esquadra inimiga, visto que o restante dos navios de Howard já havia dado meia-volta, rumando mais para o norte.
- Rumo norte a barlavento! - gritara Alban Caradoc. Ele estava com o co-piloto. Blackthorne era o capitão-piloto e o responsável, no seu primeiro comando. Alban Caradoc insistira em vir para a luta, embora não tivesse o direito de estar a bordo, exceto pelo fato de ser inglês e todos os ingleses terem o direito de estar a bordo naquele período sombrio da história.
- Pare aí! - ordenara Blackthorne e girara a cana do leme para sul, rumando para a boca da esquadra inimiga, sabendo que o outro caminho os condenaria aos canhões do galeão, que agora se erguia sobranceiro à sua frente.
Então foram para o sul, correndo com o vento, por entre os galeões. A canhonada de três conveses do Santa Cruz passou-lhes acima da cabeça com segurança, e Blackthorne disparou duas salvas contra o inimigo, picadas de pulgas num vaso tão imenso. Em seguida se lançou de vento em popa através do centro da formação inimiga.
Os galeões de cada lado não queriam disparar contra aquele navio solitário, pois as descargas poderiam danificar uns aos outros, por isso os canhões permaneceram silenciosos. O navio de Blackthorne estava atravessando e escapando quando uma canhonada do Madre de Dios os acertou em cheio. Os dois mastros tombaram como setas, homens enredados na mastreação. A metade a estibordo do convés principal desaparecera, havia mortos o moribundos por toda parte.
Ele vira Alban Caradoc deitado contra uma carreta de canhão despedaçada, incrivelmente minúsculo sem as pernas. Acorrera para lá, soerguera o velho marujo cujos olhos quase lhe saltavam das órbitas e que soltava gritos horríveis.
- Oh, Cristo, não quero morrer, não quero morrer, socorro, ajudem-me, ajudem-me ajudem-me, ajudem-me, oh, Jesus Cristo, a dor, socooooorro! - Blackthorne sabia que só havia uma coisa a fazer por Alban Caradoc: pegou uma malagueta e bateu com toda a força.
Então, semanas mais tarde, teve que contar a Felicity que o pai dela morrera. Só lhe disse que Alban Caradoc fora morto instantaneamente. Não lhe contou que tinha sangue nas mãos, sangue que jamais sairia...
Blackthorne e os samurais atravessavam agora uma rua larga e sinuosa. Não havia lojas, apenas casas, de um lado e de outro, cada uma dentro do seu terreno e atrás de cercas altas, tudo - casas, cercas e a rua mesma - surpreendentemente limpo.
Essa limpeza parecia inacreditável a Blackthorne porque em Londres -nas cidades grandes e pequenas da Inglaterra - e da Europa - lixo, fezes noturnas e urina eram atirados nas ruas, para serem varridos ou deixados amontoar-se até que os pedestres, carros e cavalos já não pudessem passar. Só então a maioria dos municípios talvez providenciasse a limpeza. Os varredores de Londres eram grandes manadas de porcos conduzidos através das principais vias públicas durante a noite. Mas quem, na maior parte, fazia a limpeza de Londres eram os ratos, as matilhas de cães o gatos selvagens, assim como os incêndios. E as moscas.
Mas Osaka era muito diferente. Como é que fazem? perguntou-se ele. Não há o conteúdo de urinóis, montes de bosta de cavalo, sulcos de rodas, nada de imundície ou refugo de qualquer espécie. Apenas terra socada, varrida e limpa. Muros de madeira o casas de madeira, tudo brilhante e tratado com esmero. E onde estão os bandos de pedintes e aleijados que infestam cada cidade da cristandade? E os bandos de salteadores e jovens selvagens que inevitavelmente estariam se esgueirando nas sombras?