As pessoas que passavam curvavam-se polidamente, algumas se ajoelhavam. Carregadores de kaga apressavam-se levando palanquins ou as kagas de um passageiro só. Grupos de samurais - cinzentos, nunca marrons - caminhavam pelas ruas despreocupadamente.
Estavam subindo uma rua ladeada de lojas quando as pernas de Blackthorne cederam. Ele tombou pesadamente e caiu de quatro.
Os samurais o ajudaram a se levantar mas, no momento, suas forças o haviam abandonado e ele não conseguiria andar.
- Gomen nasai, dozo ga matsu. Sinto muito, por favor, espere - disse ele, com cãibra nas pernas. Esfregou os músculos da barriga da perna e bendisse Frei Domingo pelas coisas inestimáveis que lhe ensinara.
O líder dos samurais olhou para ele e falou demoradamente.
- Gomen nasai, nihon go ga hanase-masen. Sinto muito, não falo japonês - respondeu Blackthorne, lentamente mas com clareza. - Dozo, ga-matsu.
- Ah! So desu, Anjin-san. Wakarimasu - disse o homem, compreendendo-o. Deu uma ordem áspera e um dos samurais saiu correndo. Dali a pouco Blackthorne se levantou, tentou caminhar, penosamente, mas o chefe dos samurais disse: - Iyé - e fez-lhe sinal que esperasse.
Logo o samurai voltou com quatro carregadores semidespidos e uma kaga. Os samurais mostraram a Blackthorne como se recostar e se segurar na correia que pendia da vara central.
O grupo se pôs a caminho novamente. Logo Blackthorne recuperou as forças e teria preferido voltar a andar, mas sabia que ainda estava fraco. Preciso descansar um pouco, pensou. Não tenho reservas. Preciso de um banho e de comida. Comida verdadeira.
Subiram largos degraus que uniam uma rua a outra e entraram em outro setor residencial que ladeava um bosque compacto, com árvores altas, e recortado de caminhos. Blackthorne apreciou muitíssimo estar longe das ruas, o gramado macio e bem cuidado, o caminho que se insinuava por entre as árvores.
Quando já se haviam aprofundado no bosque, outro grupo de uns trinta e tantos cinzentos se aproximou, surgido de uma curva à frente. Avançaram, pararam, e após o cerimonial habitual dos capitães se saudando, os olhos de todos voltaram-se para Blackthorne. Houve um vaivém de perguntas e respostas e depois, quando esses homens começaram a se reagrupar para partir, o líder deles calmamente puxou a espada e cravou-a no líder dos samurais de Blackthorne. Simultaneamente o novo grupo caiu sobre o resto dos samurais. A emboscada foi tão repentina e tão bem planejada que os dez cinzentos foram todos mortos quase ao mesmo instante. Nem um deles teve tempo de sacar a espada.
Os carregadores da kaga estavam de joelhos, aterrorizados, com a testa apertada contra a grama. Blackthorne erguia-se ao lado deles.
O capitão-samurai, um homem forte com um vasto ventre, mandou sentinelas para cada extremidade do caminho. Os outros reuniram as espadas dos mortos. O tempo todo os homens não prestaram atenção alguma a Blackthorne, até que ele começou a recuar. Imediatamente houve uma ordem sibilante do capitão, claramente significando que ele ficasse onde estava.
A uma outra ordem, todos os cinzentos despiram os quimonos uniformes. Por baixo usavam uma heterogênea coleção de trapos e quimonos velhos. Todos cobriram o rosto com máscaras que já estavam amarradas em torno do pescoço de cada um. Um homem apanhou os uniformes cinza e sumiu com eles no bosque.
Devem ser bandidos, pensou Blackthorne. Senão, por que as máscaras? O que querem comigo?
Os bandidos conversaram tranqüilamente entre si, vigiando-o enquanto limpavam as espadas nas roupas dos samurais mortos.
- Anjin-san? Hai? - Os olhos do capitão acima da máscara de pano eram redondos, negros e perscrutantes.
- Hai -. replicou Blackthorns, sentindo a pele arrepiar-se.
O homem apontou para o chão, obviamente lhe dizendo que não se mexesse.
- Wakarimasu ka?
- Hai.
Mediram-no de alto a baixo. Então uma das sentinelas avançadas - já sem uniforme, mas mascarado, como todos os outros - surgiu dos arbustos um instante, a uns cem passos de distância. Acenou e desapareceu de novo.
Imediatamente os homens rodearam Blackthorne, preparando-se para partir. O capitão bandido fixou o olhar nos carregadores, que tremiam como cães de um dono cruel, e afundou-lhes a cabeça ainda mais na grama.
Então vociferou uma ordem. Os quatro lentamente levantaram a cabeça, incrédulos. Novamente a mesma ordem. Eles se curvaram, recuaram rastejando, depois, simultaneamente, deram às pernas e sumiram por entre o cerrado.
O bandido sorriu satisfeito e fez sinal a Blackthorne que começasse a andar de volta à cidade.
Ele os seguiu, indefeso. Não havia como escapar.
Estavam quase na extremidade do bosque quando pararam. Ouviram ruídos à frente e um outro grupo de trinta samurais contornou a curva. Marrons e cinzentos, os marrons na vanguarda, o líder num palanquim, alguns cavalos de carga seguindo atrás. Pararam imediatamente. Ambos os grupos moveram-se para posições de briga, olhando-se hostilmente, com setenta passos separando-os. O líder dos bandidos avançou para o espaço entre eles, gesticulou e gritou colericamente para os outros samurais, apontando para Blackthorne e depois para o ponto onde ocorrera a emboscada. Puxou a espada, segurando-a ameaçadoramente no ar, obviamente dizendo ao outro grupo que saísse do caminho.
As espadas de todos os seus homens cantaram nas bainhas. A uma ordem sua, um dos bandidos postou-se atrás de Blackthorne, a espada levantada e pronta, e novamente o líder se pôs a falar em altos brados.
Por um instante, nada aconteceu. Então Blackthorne viu o homem no palanquim descer e imediatamente o reconheceu. Era Kasigi Yabu. Yabu gritou com o líder dos bandidos, mas o homem sacudiu a espada furiosamente, ordenando-lhes que saíssem do caminho. Terminou o discurso com determinação. Então Yabu deu uma ordem curta, e investiu com um penetrante grito de batalha, coxeando ligeiramente, espada ao ar, seus homens arremetendo com ele, os cinzentos logo atrás.
Blackthorne caiu de joelhos para escapar do golpe de espada que o teria cortado ao meio, mas o golpe foi mal calculado e o líder dos bandidos se virou e disparou para a mata, seguido de seus homens.
Num instante os marrons e os cinzentos estavam junto de Blackthorne, que se ergueu com dificuldade. Alguns samurais saíram à caça dos bandidos por entre os arbustos, outros se puseram a vasculhar a trilha, e o resto se dispersou a título de proteção. Yabu parou à beira do mato, gritou ordens imperiosamente, depois voltou lentamente, coxeando de modo mais pronunciado.
- So desu, Anjin-san - disse ele, ofegando por causa do esforço.
- So desu, Yabu-san - retrucou Blackthorne, usando a mesma frase que significava alguma coisa como "bem" ou "realmente" ou "a verdade é essa". Apontou na direção que os bandidos haviam tomado. - Domo. - Curvou-se polidamente, de igual para igual, e disse outra bênção por Frei Domingo. - Gomen nasai nlhon go ga hanase-masen. Sinto muito, não sei falar japonês.
- Hai - disse Yabu, nem um pouco impressionado, e acrescentou alguma coisa que Blackthorne não compreendeu.
- Tsuyaku ga imasu ka? - perguntou Blackthorne. Tem um intérprete?
- Iyé, Anjin-san. Gomen nasai.
Blackthorne sentiu-se um pouco mais à vontade. Agora podia comunicar-se diretamente. O vocabulário era parco, mas já era um começo.
Como eu gostaria de ter um intérprete, estava pensando Yabu intensamente. Por Buda!
Gostaria de saber o que aconteceu quando você se encontrou com Toranaga, Anjin-san, que perguntas ele fez e o que você respondeu, o que lhe disse sobre a aldeia, as armas, a carga, o navio, a galera e Rodrigu. Gostaria de saber tudo o que foi dito, e como foi dito, e onde você esteve e por que está aqui. Então eu teria uma idéia do que se passa pela cabeça de Toranaga, o modo como está pensando. E poderia planejar o que vou lhe dizer hoje. Do modo como se encontra a situação agora, estou completamente desamparado.