Por que Toranaga recebeu você imediatamente, assim que chegamos, e não a ruim? Por que, desde que atracamos até hoje, não recebi nenhuma mensagem ou ordem dele, além da saudação polida e obrigatória e de "Espero com prazer a oportunidade de vê-lo brevemente"? Por que mandou me chamar hoje? Por que nosso encontro foi adiado duas vezes? Teria sido por causa .de alguma coisa que você tenha dito? Ou Hiromatsu? Ou se trata apenas de um atraso normal, causado por todas as outras preocupações dele?
Oh, sim, Toranaga, você tem problemas quase insuperáveis. A influência de Ishido está se espalhando como fogo. E já está sabendo sobre a traição do Senhor Onoshi? Sabe que Ishido me ofereceu a cabeça e a província de Ikawa Jikkyu se eu, secretamente, me juntasse a ele?
Por que você escolheu o dia de hoje para mandar me chamar? Que bom kami me pôs aqui para salvar a vida de Anjin-san, só para zombar de mim porque não posso conversar diretamente com ele, nem por intermédio de alguma outra pessoa?
Por que você o pôs na prisão, para ser executado? Por que os bandidos tentaram capturá-lo para exigir resgate? Resgate pago por quem? E por que Anjin-san ainda está vivo? Aquele bandido poderia facilmente tê-lo cortado ao meio.
Yabu notou as linhas profundamente vincadas que não estavam no rosto de Blackthorne na primeira vez que o vira. Parece faminto, pensou Yabu. É como um cão selvagem. Mas não um cão qualquer e sim o líder da matilha, neh?
Oh, sim, piloto, eu daria mil kokus para ter um intérprete digno de confiança bem agora. Vou ser seu amo. Você vai construir meus navios e treinar meus homens. Tenho que manipular Toranaga de algum jeito. Se não conseguir, não importa. Na minha próxima vida, estarei mais bem preparado.
- Bom cão! - disse Yabu em voz alta para Blackthorne e sorriu levemente. - Tudo o que você precisa é uma mão firme, alguns ossos e algumas chicotadas. Primeiro vou entregá-lo ao Senhor Toranaga... depois que você tiver tomado um banho. Você fede, senhor piloto!
Blackthorne não compreendeu as palavras, mas sentiu cordialidade nelas e viu o sorriso de Yabu. Retribuiu ao sorriso.
- Wakarimasen. Não entendo.
- Hai, Anjin-san.
O daimio deu-lhe as costas e relanceou os olhos à procura dos bandidos. Pôs as mãos em concha em torno da boca e gritou. Imediatamente todos os marrons regressaram. O samurai-chefe dos cinzentos estava em pé no centro da trilha e também ele mandou interromper a busca. Nenhum dos bandidos foi trazido de volta.
Quando esse capitão dos cinzentos se aproximou de Yabu, houve muita discussão, apontaram para a cidade e para o castelo, e era óbvio o desentendimento entre eles.
Finalmente Yabu prevaleceu, a mão sobre a espada, e fez sinal a Blackthorne para que subisse no palanquim.
- Iyé - disse o capitão.
O impasse entre os dois começou a tomar ares de gravidade e tanto os cinzentos quanto os marrons remexeram-se nervosamente.
- Anjin-san desu shunjin Toranaga-sama...
Blackthorne apanhava uma palavra aqui, outra ali. "Watakushi" queria dizer "eu", junto com "hitachi" significava "nós"; "shunjin" significava "prisioneiro". E então se lembrou do que Rodrigues dissera, sacudiu a cabeça e interrompeu abruptamente:
- Shunjin, iyé! Wakarimasu ka Anjin-san!
Os dois homens o encararam.
Blackthorne rompeu o silêncio e continuou num japonês vacilante, sabendo que falava sem fazer as relações gramaticais e de modo infantil, mas esperando que suas palavras fossem compreendidas:
- Eu amigo. Não prisioneiro. Compreender, por favor. Amigo. Sinto muito, amigo quer banho. Banho, compreendem? Cansado. Com fome. Banho. - Apontou para o torreão do castelo. - Vou lá! Agora, por favor. Senhor Toranaga um, Senhor Ishido dois. Vou agora. - E com um tom arrogante imposto ao último "ima", subiu desajeitadamente no palanquim e reclinou-se sobre as almofadas, os pés pendendo para fora.
Então Yabu riu, e todos se juntaram a ele.
- Ah so, Anjin-sama! - disse ele, com uma reverência zombeteira.
- Iyé, Yabu-sama, Anjin-san - corrigiu-o Blackthorne, satisfeito.
Sim, seu bastardo. Sei uma ou duas coisinhas agora. Mas não me esqueci de você. E logo estarei caminhando sobre a sua sepultura.
CAPÍTULO 16
- Talvez tivesse sido melhor me consultar antes de remover o meu prisioneiro da minha jurisdição, Senhor Ishido – disse Toranaga.
- O bárbaro estava na prisão comum, com pessoas comuns. Naturalmente presumi que o senhor não tivesse mais interesse algum por ele, do contrário eu não o teria tirado de lá. Claro que nunca pretendi interferir nos seus assuntos privados. - Ishido estava aparentemente calmo e respeitoso, mas por dentro estava muito agitado. Sabia que fora surpreendido numa indiscrição. Era verdade que devia ter perguntado a Toranaga primeiro. A polidez mais banal exigia isso. Ainda assim, isso não teria importado em absoluto se ainda detivesse o bárbaro em seu poder, nos seus quartéis, simplesmente teria cedido o estrangeiro quando quisesse, se e quando Toranaga o pedisse. Mas como alguns de seus homens tinham sido interceptados e infamemente mortos, e depois o daimio Yabu e alguns dos homens de Toranaga tinham tomado posse física do bárbaro, a posição mudava completamente. Perdera em dignidade, quando toda a sua estratégia para a destruição pública de Toranaga era precisamente colocar o outro nessa posição.
- Novamente peço desculpas.
Toranaga relanceou o olhar para Hiromatsu. Aquele pedido de desculpas soava como música. Os dois homens sabiam quanto esforço custara a Ishido. Encontravam-se na grande sala de audiências. Por acordo prévio, os dois antagonistas tinham apenas cinco guardas presentes, homens de confiança garantida. O resto esperava do lado de fora. Yabu também esperava lá fora. E o bárbaro estava se banhando.
Bom, pensou Toranaga, sentindo-se muito contente consigo mesmo. Pensou rapidamente em Yabu e resolveu não vê-lo ainda e continuar a brincar com ele. Pediu a Hiromatsu que o despachasse e voltou-se de novo para Ishido.
- Naturalmente suas desculpas são aceitas. Felizmente não houve nenhum dano.
- Então posso levar o bárbaro ao herdeiro... assim que ele esteja apresentável?
- Enviá-lo-ei assim que tivermos terminado com ele.
- Posso perguntar quando será isso? O herdeiro o esperava esta manhã.
- Não deveríamos nos preocupar demais com isso, o senhor o eu, neh? Yaemon tem só sete anos. Estou certo de que um menino de sete anos pode se controlar com paciência. Neh? A paciência é uma forma de disciplina e exige prática. Não é mesmo?
Explicarei o mal-entendido pessoalmente. Vou lhe dar outra aula de natação esta manhã.
- Oh?
- Sim. O senhor também devia aprender a nadar, Senhor Ishido. É um excelente exercício e poderia ser de grande utilidade durante a guerra. Todos os meus samurais sabem nadar. Insisto em que todos eles aprendam essa arte.
- Os meus passam o tempo praticando arco e flecha, esgrima, equitação e tiro.
- Os meus juntam a isso a poesia, a caligrafia, a arte de arranjar flores, a cerimônia de cha-no-yu. Os samurais devem ser bem versados nas artes da paz para serem fortes nas artes bélicas.
- A maioria dos meus homens já é mais que perito nessas artes - disse Ishido, consciente de que sua própria escrita era pobre, e a leitura limitada. - Os samurais são gerados para a guerra. Conheço a guerra muito bem. Isso é suficiente no momento. Isso é obediência ao testamento do nosso amo.