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- A aula de natação de Yaemon é à hora do Cavalo. - O dia e a noite eram, cada um, divididos em seis partes iguais. O dia começava com a hora da Lebre, das cinco às sete da manhã, depois do Dragão, das sete às nove. Seguiam-se as horas da Cobra, do Cavalo, do Bode, do Macaco, do Galo, do Cão, do Javali, do Rato e da Raposa, e o ciclo terminava com a hora do Tigre, entre as três e as cinco da manhã - Gostaria de participar da aula?

- Não, obrigado. Sou velho demais para mudar meus hábitos - disse Ishido fracamente.

- Ouvi dizer que o capitão de seus homens recebeu ordem de cometer seppuku.

- Naturalmente. Os bandidos deviam ter sido apanhados. No mínimo um deles devia ter sido capturado. Aí teríamos descoberto os outros.

- Estou atônito de que essa podridão tenha podido agir tão perto do castelo.

- Concordo. Talvez o bárbaro pudesse descrevê-los.

- O que um bárbaro saberia dizer? - Toranaga riu. - Quanto aos bandidos, eram ronins, não eram? Os ronins são muito numerosos entre os seus homens. Talvez algumas investigações ali fossem frutíferas. Neh?

- As investigações estão sendo apressadas. Em muitas direções. - Ishido ignorou o sarcasmo velado sobre os ronins, os sem-amo, samurais mercenários, quase párias, que haviam, aos milhares, se reunido sob a bandeira do herdeiro quando Ishido espalhara em segredo o rumor de que, em nome do herdeiro e da mãe do herdeiro, aceitaria a fidelidade deles, perdoaria - inacreditavelmente - e esqueceria suas imprudências, seu passado, e lhes recompensaria a lealdade, no decorrer do tempo, com a prodigalidade do taicum. Ishido sabia que fora uma manobra brilhante. Deu-lhe uma enorme quantidade de samurais treinados; garantiu a lealdade deles, pois os ronins sabiam que nunca teriam chance igual; trouxera para seu lado todos os encolerizados, muitos dos quais tinham sido reduzidos a ronins pelas conquistas de Toranaga e de seus aliados. E finalmente eliminara do reino um perigo - um aumento na população de bandidos -, pois praticamente o único modo de vida suportável e acessível a um samurai desgraçado o bastante para se tornar ronin era transformar-se em monge ou em bandido.

- Há muitas coisas que não entendo sobre essa emboscada - disse Ishido, a voz impregnada de veneno. - Sim. Por que, por exemplo, bandidos tentariam capturar esse bárbaro para trocá-lo por resgate? Há muitos outros na cidade, muitíssimo mais importantes. Não foi isso que o bandido disse? Era resgate o que queriam. Resgate de quem? Qual é o valor do bárbaro? Nenhum. E como ficaram sabendo onde ele estaria? Foi só ontem que dei a ordem de trazê-lo para o herdeiro, pensando que isso divertiria o menino. Muito curioso.

- Muito - disse Toranaga.

- Depois há a coincidência de o Senhor Yabu estar nas vizinhanças com alguns dos seus homens e alguns dos meus na hora exata. Muito curioso.

- Muito. Naturalmente ele estava lá porque eu mandara chamá-lo, e seus homens estavam lá porque combinamos - por sugestão sua - que seria uma boa política, e um modo de começar a sanar a brecha entre nós, os seus homens acompanharem os meus por toda parte enquanto estou nesta visita oficial.

- Também é estranho que os bandidos, que foram suficientemente corajosos e bem organizados para assassinar os primeiros dez sem que houvesse combate, agissem como coreanos quando nossos homens chegaram. Os dois lados estavam em condições de igualdade. Por que os bandidos não lutaram ou não levaram o bárbaro para as colinas imediatamente, ao invés de ficarem estupidamente num caminho principal para o castelo? Muito curioso.

- Muito. Com certeza levarei uma guarda dobrada comigo, amanhã, quando for falcoar. A título de prevenção. É desconcertante saber que há bandidos tão perto do castelo. Sim. Talvez o senhor gostasse de caçar também? Fazer um de seus falcões competir contra os meus? Estarei caçando nas colinas ao norte.

- Não, obrigado. Estarei ocupado amanhã. Talvez depois de amanhã? Ordenei a vinte mil homens que varressem todas as florestas, bosques e clareiras em torno de Osaka. Não haverá um bandido dentro de vinte ris em dez dias. Isso eu posso lhe prometer.

Toranaga sabia que Ishido estava usando os bandidos como desculpa para aumentar o número de seus homens nas proximidades. Se diz vinte, quer de fato dizer cinqüenta. A armadilha está chegando mais perto, disse ele a si mesmo. Por que tão depressa? Que nova traição aconteceu? Por que Ishido está tão confiante?

- Ótimo. Então, depois de amanhã, Senhor Ishido. Manterá seus homens longe da minha área de caça? Não gostaria que meu jogo fosse perturbado - acrescentou.

- É claro. E o bárbaro?

- Ele é e sempre foi minha propriedade. Assim como o navio. Mas poderá ficar com ele quando eu tiver terminado. E depois pode mandá-lo para o pátio de execução, se quiser.

- Obrigado. Sim. Farei isso. - Ishido fechou o leque e escorregou-o para dentro da manga. - Ele não tem importância. O importante e a razão pela qual vim vê-lo é que... oh, a propósito, ouvi dizer que a senhora minha mãe está visitando o mosteiro de Johji.

- Oh? Eu teria pensado que a estação já está um pouco avançada para apreciar as flores de cerejeira. Certamente já terão passado do auge agora.

- Tem razão. Mas afinal, se ela quer vê-las, por que não? Nunca se pode contrariar os mais velhos. Têm lá as suas manias e vêem as coisas de modo diferente, neh? Mas sua saúde não é boa. Preocupo-me com ela. Tem que ser muito cuidadosa... resfria-se com muita facilidade.

- Com minha mãe acontece o mesmo. É preciso vigiar a saúde dos velhos. - Toranaga tomou nota mentalmente, para enviar uma mensagem imediata lembrando ao prior que velasse atentamente pela saúde da velha. Se morresse no mosteiro, a repercussão seria terrível. Ele ficaria em desgraça perante o império. Todos os daimios perceberiam que no jogo de xadrez pelo poder ele usara uma velha indefesa, a mãe do inimigo, como refém e falhara na sua responsabilidade por ela. Tomar um refém era, na verdade, muito perigoso.

Ishido ficara quase cego de raiva quando soubera que sua venerada mãe se encontrava em poder de Toranaga, em Nagoya. Cabeças rolaram. Imediatamente trouxera à tona planos para a destruição de Toranaga, e tomara a resolução solene de investir contra Nagoya e aniquilar o Daimio Kazamaki - sob cuja responsabilidade ela estivera ostensivamente -, no momento em que as hostilidades começassem. Enviara uma mensagem particular ao prior, através de intermediários, dizendo que a menos que ela fosse retirada do mosteiro em segurança dentro de vinte e quatro horas, Naga, o único filho de Toranaga que se encontrava ao alcance, e qualquer uma de suas mulheres que pudesse ser apanhada, infelizmente despertariam no dia seguinte na aldeia de leprosos, sendo alimentados por eles e servidos por uma de suas prostitutas.

Ishido sabia que enquanto sua mãe estivesse em poder de Toranaga ele teria que agir com cautela. Mas deixara bem claro que se não a deixassem partir, ele poria o império a ferro e fogo.

- Como está a senhora sua mãe, Senhor Toranaga? - perguntou polidamente.

- Muito bem, obrigado. - Toranaga permitiu-se demonstrar a própria felicidade, tanto pela lembrança da mãe quanto pelo conhecimento da fúria impotente de Ishido. - Está notavelmente bem para setenta e quatro anos. Só espero estar tão forte quanto ela quando tiver essa idade. - Você tem cinqüenta e oito. Toranaga, mas nunca chegará aos cinqüenta e nove, prometeu Ishido a si mesmo. - Por favor, transmita-lhe meus melhores votos de uma vida permanentemente feliz. Obrigado novamente e sinto muito que o senhor tenha sido incomodado. - Curvou-se com grande polidez e então, contendo com dificuldade o imenso prazer que sentia, acrescentou: - Oh, sim, o assunto importante pelo qual eu queria vê-lo é que a última reunião formal dos regentes foi adiada. Não vamos nos reunir hoje ao pôr-do-sol.