Toranaga conservou o sorriso no rosto mas por dentro ficou petrificado.
- Oh? Por quê?
- O Senhor Kiyama está doente. Os senhores Sugiyama e Onoshi concordaram em adiar. Eu também. Alguns dias não têm importância, não é, em se tratando de assuntos tão importantes?
- Podemos fazer a reunião sem o Senhor Kiyama.
- Combinamos que não podemos. - Os olhos de Ishido escarneciam.
- Formalmente?
- Aqui estão nossos quatro selos.
Toranaga estava perturbadíssimo. Qualquer atraso o colocava num risco incomensurável. Poderia negociar a mãe de Ishido por uma reunião imediata? Não, porque levaria tempo demais para as ordens irem e voltarem e ele concederia uma vantagem muito grande por nada.
- Quando será a reunião, então?
- Suponho que o Senhor Kiyama esteja bem amanhã, ou talvez depois de amanhã.
- Ótimo. Mandarei meu médico particular ir vê-lo.
- Estou certo de que ele apreciaria isso. Mas o seu médico proibiu qualquer visita. A doença poderia ser contagiosa, neh?
- Qual é a doença?
- Não sei, senhor. Foi o que me disseram.
- O médico é bárbaro?
- Sim. Informaram que é o principal médico dos cristãos. Um médico-sacerdote cristão para um daimio cristão. Os nossos não são bons o bastante para um daimio tão... tão importante - disse Ishido, com um riso zombeteiro.
A preocupação de Toranaga aumentou. Se o médico fosse japonês, havia muitas coisas que ele poderia fazer. Mas com um médico cristão - inevitavelmente um padre jesuíta -, bem, ir contra um deles, ou mesmo se intrometer com um deles, poderia afastar todos os daimios cristãos, coisa que ele não podia se permitir arriscar. Sabia que sua amizade com Tsukku-san não o ajudaria contra os daimios cristãos Onoshi e Kiyama. Fazia parte dos interesses cristãos apresentar uma frente unida. Dentro em breve teria que se aproximar deles, dos padres bárbaros, para fazer um acerto, descobrir o preço da cooperação deles. Se Ishido realmente tem Onoshi e Kiyama consigo - e todos os daimios cristãos seguiriam esses dois se eles agissem em conjunto -, então estou isolado, pensou Toranaga. E o único recurso que me resta é Céu Carmesim.
- Visitarei o Senhor Kiyama depois de amanhã - disse ele, fixando um último prazo.
- Mas e o contágio? Eu nunca me perdoaria se alguma coisa lhe acontecesse enquanto se encontra aqui em Osaka, senhor. É nosso hóspede, está sob os meus cuidados. Devo insistir em que não faça isso.
- Fique descansado, Senhor Ishido, o contágio que me derrubará ainda não nasceu, neh? O senhor se esquece da predição do adivinho. - Quando a delegação chinesa viera ao taicum, seis anos antes, para tentar encerrar a guerra nipo-sino-coreana, um famoso astrólogo viera com ela. Esse chinês predissera muitas coisas que depois se concretizaram. Num dos jantares de cerimônia incrivelmente pródigos, o próprio taicum pedira ao adivinho que predissesse a morte de alguns de seus conselheiros. O astrólogo dissera que Toranaga morreria a golpe de espada quando atingisse a meia-idade. Ishido, o famoso conquistador da Coréia - ou Chosen, como os chineses chamavam aquela terra -, morreria com saúde, velho, os pés firmes na terra, o homem mais famoso de sua época. Mas o taicum morreria na cama, respeitado, venerado, com muita idade, deixando um filho saudável para sucedê-lo. Isso agradara tanto ao taicum, que ainda não tinha filhos, que ele resolvera deixar a delegação regressar à China e não matar os emissários como planejara devido às suas insolências anteriores. Ao invés de negociar a paz, como esperara, o imperador chinês, por intermédio da delegação, meramente oferecera "investi-lo rei do País de Wa", que era como os chineses chamavam o Japão. O taicum mandara-os vivos para casa e não dentro das minúsculas caixas que já haviam sido preparadas para eles, e reiniciara a guerra contra a Coréia e a China.
- Não, Senhor Toranaga, não esqueci - disse Ishido, lembrando-se muito bem. - Mas o contágio pode ser desconfortável. Por que estar desconfortável? Poderia contrair sífilis como seu filho Noboru, sinto muito, ou lepra, como o Senhor Onoshi. Ele ainda é jovem, mas sofre muito. Oh, sim, sofre.
Toranaga ficou momentaneamente perturbado. Conhecia a devastação causada por ambas as doenças muitíssimo bem. Noboru, o mais velho de seus filhos vivos, contraíra a sífilis chinesa aos dezessete anos - dez anos antes - e todas as curas dos médicos japoneses, chineses, coreanos e cristãos não tinham conseguido debelar a doença que já o desfigurara, mas não o mataria. Se me tornar todo-poderoso, prometeu Toranaga a si mesmo, talvez possa exterminar essa doença. Será que realmente vem das mulheres? Como é que as mulheres a pegam? Pobre Noboru. Não fosse a sífilis seria meu herdeiro, porque é um brilhante soldado, um administrador melhor do que Sudara, e muito astuto. Deve ter feito muitas coisas ruins numa vida anterior para ter que carregar esse peso nesta.
- Por Buda, não desejo nenhuma das duas para ninguém - disse ele.
- Acredito - disse Ishido, acreditando de fato que Toranaga, se pudesse, bem que gostaria que ele tivesse a ambas. Curvou-se mais uma vez e saiu.
Toranaga rompeu o silêncio:
- Bem?
- Ficar ou partir, agora - disse Hiromatsu -, é a mesma coisa: catástrofe, porque agora o senhor foi traído e está isolado. Se ficar para a reunião - e não vai haver reunião por uma semana - Ishido terá mobilizado suas legiões em torno de Osaka e o senhor nunca escapará, aconteça o que acontecer à Senhora Ochiba em Yedo. E Ishido está claramente resolvido a arriscá-la para pegar o senhor. É óbvio que o senhor foi traído e os quatro regentes tomarão uma decisão contra o senhor. Se partir, ainda assim eles poderão sancionar qualquer ordem que Ishido deseje dar. O senhor tem que suster uma decisão de quatro a um. Jurou fazer isso. Não pode ir contra a sua palavra solene como regente.
- Concordo.
O silêncio se fez, interminável.
Hiromatsu esperou, com ansiedade crescente.
- O que vai fazer?
- Primeiro vou nadar - disse Toranaga, com surpreendente jovialidade. - Depois verei o bárbaro.
A mulher atravessou silenciosamente o jardim particular de Toranaga no castelo, dirigindo-se para a pequena cabana de sapé que se erguia numa clareira entre bordos. Seu quimono e obi de seda eram os mais simples, ainda que fossem os mais elegantes que os mais famosos artesãos da China conseguiam fazer. Usava o cabelo à última moda de Kyoto, preso no alto e mantido no lugar por longos alfinetes de prata. Uma sombrinha colorida protegia-lhe a pele muito delicada. Era minúscula, apenas cinco pés, mas perfeitamente proporcionada. Em torno do pescoço usava uma fina corrente de ouro e, pendendo dela, um pequeno crucifixo, também de ouro.
Kiri esperava na varanda da cabana. Sentara-se pesadamente à sombra, suas nádegas transbordando da almofada, e observou a mulher aproximando-se pelo caminho de pedras que tinham sido colocadas com tanto cuidado no musgo que pareciam ter crescido ali.
- Está mais bela do que nunca, mais jovem do que nunca, Toda Mariko-san - disse Kiri sem inveja, retribuindo-lhe a mesura.
- Gostaria que fosse verdade, Kiritsubo-san - retrucou
Mariko, sorrindo. Ajoelhou-se sobre uma almofada, e inconscientemente arranjou as saias num formato delicado.
- É verdade. Quando foi que nos encontramos pela última vez? Há dois... três anos? Você não mudou um fio de cabelo em vinte anos. Deve fazer quase vinte anos desde que nos vimos pela primeira vez. Lembra-se? Foi numa festa que o Senhor Goroda deu. Você tinha catorze anos, era recém-casada e extraordinária.