- E assustada.
- Não, não você. Assustada não.
- Foi há dezesseis anos, Kiritsubo-san, não vinte. Sim, lembro-me muito bem. - Bem demais, pensou ela, entristecida. Foi o dia em que meu irmão me cochichou que acreditava que nosso venerado pai ia se vingar do seu suserano, o Ditador Goroda, que ia assassiná-lo. Seu suserano!
Oh, sim, Kiri-san, lembro-me daquele dia, daquele ano e daquela hora. Foi o início de todo o horror. Nunca admiti para ninguém que sabia o que iria acontecer antes que acontecesse. Nunca preveni meu marido, ou Hiromatsu, pai dele - ambos fiéis vassalos do ditador -, de que havia uma traição planejada por um de seus maiores generais. Pior, nunca preveni Goroda, meu suserano. Por isso falhei no meu dever para com meu suserano, para com meu marido, para com a família dele, que, devido ao meu casamento, é a minha única família. Oh, minha Nossa Senhora, perdoe o meu pecado, ajude-me a me purificar. Mantive-me em silêncio para proteger meu amado pai, que profanou a honra de mil anos. Ó meu Deus, Ó Senhor Jesus de Nazaré, salvem esta pecadora da danação eterna...
- Foi há dezesseis anos - disse Mariko serenamente.
- Eu estava carregando o filho do Senhor Toranaga naquele ano - disse Kiri, e pensou: se o Senhor Goroda não tivesse sido perfidamente traído e assassinado pelo seu pai, o meu Senhor Toranaga nunca teria precisado lutar na batalha de Nagakudé, eu nunca teria apanhado um resfriado e meu filho nunca teria sido abortado. Talvez. Mas talvez não. Era apenas karma, meu karma, acontecesse o que acontecesse, neh? - Ah, Mariko-san - disse ela, sem maldade -, isso é muito tempo, parece quase outra vida. Mas você não tem idade. Por que não posso ter o seu rosto, o seu belo cabelo e caminhar tão graciosamente? - Kiri riu. - A resposta é simples: porque como demais!
- O que importa? Você goza do favor do Senhor Toranaga, neh? Portanto está realizada. É sábia, afetuosa, íntegra e feliz.
- Preferia ser magra, poder continuar comendo e gozando do favor dele - disse Kiri. - Mas e você? Não é feliz?
- Sou apenas um instrumento do meu Senhor Buntaro. Se o senhor meu marido está feliz, então, é claro, eu estou feliz. O eu prazer é o meu prazer. É o mesmo que com você - disse Mariko.
- Sim. Mas não é o mesmo. - Kiri abanou o leque, a seda dourada refletindo o sol da tarde. Estou tão contente por não ser você, Mariko, com toda a sua beleza, e seu brilho, coragem e erudição. Não! Eu não suportaria estar casada com aquele homem odioso, feio, arrogante, violento, por um dia, quanto mais por dezessete anos. É tão diferente do pai, o Senhor Hiromatsu. Aquele, sim, é um homem maravilhoso. Mas Buntaro? Como é que os pais têm filhos tão terríveis? Gostaria de ter um filho, oh, como gostaria! Mas você, Mariko, como agüentou tantos maus tratos todos esses anos? Como suportou as suas tragédias? Parece impossível que não haja sombra delas no seu rosto ou na sua alma. - É uma mulher surpreendente, Toda Buntaro Mariko-san.
- Obrigada, Kiritsubo Toshiko-san. Oh, Kiri-san, é tão bom ver você.
- O mesmo digo eu. Como está seu filho?
- Lindo-lindo-lindo. Saruji tem quinze anos agora, imagine! Alto, forte, igualzinho ao pai, e o Senhor Hiromatsu deu um feudo a Saruji e ele... você sabe que ele vai se casar?
- Não, com quem?
- Ela é uma neta do Senhor Kiyama. O Senhor Toranaga combinou tudo muito bem. Um casamento excelente para a nossa família. Só gostaria que a garota fosse... fosse mais atenciosa com meu filho, mais adequada. Sabe, ela... - Mariko riu, um pouco acanhada. - Pronto, estou falando como todas as sogras que sempre existiram. Mas acho que você concordaria, ela realmente ainda não está treinada.
- Você terá tempo para fazer isso.
- Oh, espero que sim. Tenho sorte por não ter uma sogra. Não sei o que faria.
- Você a encantaria e a treinaria como faz com toda a gente da sua casa, neh?
- Gostaria que isso também fosse verdade. - As mãos de Mariko estavam imóveis ao colo. Ela observou uma libélula pousar, depois disparar como uma seta. - Meu marido ordenou-me que viesse aqui. O Senhor Toranaga quer ver-me?
- Sim. Quer que você sirva de intérprete para ele.
Mariko ficou espantada.
- Com quem?
- Com o novo bárbaro.
- Oh! Mas... e o Padre Tsukku-san? Está doente?
- Não. - Kiri brincou com o leque. - Acho que só nos deixaram a curiosidade de saber por que o Senhor Toranaga quer você aqui e não o padre, como na primeira entrevista. Por que será, Mariko-san, que temos que guardar o dinheiro todo, pagar todas as contas, treinar todos os criados, comprar toda a comida o todo o vestuário da casa - na maioria das vezes, até as roupas dos nossos senhores -, e eles na realidade não nos contam nada, não é?
- Talvez seja para isso que a nossa intuição existe.
- Provavelmente. - O olhar de Kiri era franco e cordial.
- Mas imagino que se trate de um assunto muito particular. Por isso você juraria pelo seu Deus cristão não divulgar nada sobre este encontro. A ninguém.
O dia pareceu perder o calor.
- Naturalmente - disse Mariko, inquieta. Compreendeu muito claramente que o que Kiri queria dizer era que ela não devia contar nada ao marido, ao pai dele, nem ao confessor. Como o marido lhe ordenara que viesse, obviamente a uma solicitação do Senhor Toranaga, seu dever para com o suserano superava o dever para com o marido, de modo que ela poderia livremente omitir informações. Mas e o confessor? Poderia não dizer nada a ele? E por que era ela a intérprete e não o Padre Tsukkusan? Sabia que mais uma vez, contra sua vontade, estava envolvida no tipo de intriga política que lhe havia atormentado a vida, o mais uma vez desejou que sua família não fosse antiga e Fujimoto, que nunca tivesse nascido com o dom das línguas, que lhe permitira aprender as quase incompreensíveis línguas portuguesa o latina, e que nunca tivesse nascido em absoluto. Mas então, pensou ela, eu nunca teria visto meu filho, nem aprendido sobre o menino Jesus ou a verdade Dele, ou sobre a vida eterna.
É o seu karma, Mariko, disse a si mesma tristemente, só karma.
- Muito bem, Kiri-san. - E acrescentou, com um pressentimento: - Juro pelo senhor meu Deus que não divulgarei nada do que for dito aqui hoje, nem em qualquer outra vez que eu esteja interpretando para o meu suserano.
- Também imagino que você talvez precisasse excluir parte dos seus próprios sentimentos para traduzir exatamente o que for dito. Este novo bárbaro é estranho e diz coisas peculiares. Tenho certeza de que o meu senhor escolheu você, entre todas as possibilidades, por razões especiais.
- Sou do Senhor Toranaga, para que ele faça o que desejar. Ele não precisa nunca ter qualquer receio pela minha lealdade.
- Isso nunca esteve em questão, senhora. Não falei com má intenção.
Começou a cair uma chuva de primavera que salpicou as pétalas, o musgo e as folhas, e desapareceu, deixando ainda mais beleza no seu rastro.
- Eu lhe pediria um favor, Mariko-san. Poderia colocar o crucifixo por baixo do quimono?
Os dedos de Mariko lançaram-se para ele defensivamente.
- Por quê? O Senhor Toranaga nunca fez objeção à minha conversão, nem o Senhor Hiromatsu, o cabeça do meu clã! Meu marido tem... meu marido me deixa tê-lo e usá-lo.
- Sim. Mas crucifixos deixam este bárbaro louco de raiva e o meu Senhor Toranaga não o quer furioso, e sim calmo.
Blackthorne nunca vira alguém tão diminuto.
- Konnichi wa - disse ele. - Konnichi wa, Toranaga-sama. - Curvou-se como um cortesão, fez um gesto de cabeça ao menino ajoelhado e de olhos arregalados ao lado de Toranaga, e à mulher gorda sentada atrás dele. Estavam todos na varanda que rodeava a pequena cabana. A construção continha uma única sala pequena com biombos rústicos, vigas desbastadas, telhado de sapé, e uma área atrás que servia de cozinha. Erguia-se sobre estacaria de madeira, a um pé ou pouco mais acima do tapete de pura areia branca. Tratava-se de uma casa de chá cerimonial para o ritual do cha-no-yu, construída com materiais raros apenas para aquela finalidade, embora às vezes, como aquelas casas ficassem isoladas, em clareiras, fossem usadas para encontros e conversas privados. Blackthorne juntou o quimono em torno do corpo e sentou sobre a almofada que fora colocada sobre a areia, na frente deles. - Gomen nasai. Toranaga-sama, nihon go ga hanase-masen. Tsuyaku go imasu ka?