- Sou sua intérprete, senhor - disse Mariko imediatamente, num português quase impecável. - Mas o senhor fala japonês.
- Não, senhorita, só algumas palavras ou frases - respondeu Blackthorne, perplexo. Esperava que o Padre Alvito fosse o intérprete, e que Toranaga estivesse acompanhado de samurais e talvez do Daimio Yabu. Mas não havia nenhum samurai nas proximidades, embora muitos rodeassem o jardim.
- Meu Senhor Toranaga pergunta onde... Primeiro, talvez lhe deva perguntar se prefere falar em latim?
- Como desejar, senhorita. - Como todo homem educado, Blackthorne sabia ler, escrever e falar latim, porque era a única linguagem erudita em todo o mundo civilizado.Quem é essa mulher? Onde aprendeu um português perfeito assim? E latim? Onde mais senão com os jesuítas, pensou ele. Numa das escolas deles. Oh, como são inteligentes! A primeira coisa que fazem é construir uma escola.
Fazia só setenta anos que Inácio de Loyola formara a Companhia de Jesus e agora suas escolas, as melhores da cristandade, estavam espalhadas pelo mundo e sua influência apoiava ou destruía reis. Contava com a consideração do papa. Havia detido a torrente da Reforma e agora estava recuperando territórios imensos para a Igreja.
- Falaremos português, então - disse ela. - Meu amo de seja saber onde o senhor aprendeu "algumas palavras e frases".
- Havia um monge na prisão, senhorita, um monge franciscano, e ele me ensinou coisas como "comida", "amigo", "banho", "ir", "vir", "verdade", "falso", "aqui", "lá", 'eu", "você", "por favor", "obrigado", "querer", "não querer", "prisioneiro", "sim", "não", e assim por diante. É só um começo, infelizmente. Quer dizer ao Senhor Toranaga, por favor, que agora estou mais bem preparado para responder às perguntas dele, para ajudar, e muito contente por estar fora da prisão? Agradeço a ele por isso.
Blackthorne observou quando ela se voltou e falou a Toranaga. Sabia que teria que falar com simplicidade, de preferência com sentenças curtas, e teria cuidado, porque, ao contrário do padre, que traduzia simultaneamente, esta mulher esperava até que ele acabasse, depois fazia uma sinopse, ou uma versão do que fora dito - o problema habitual com todos os intérpretes, exceto com os melhores, embora mesmo estes, como com o jesuíta, permitissem que sua personalidade interferisse no que era dito, voluntária ou involuntariamente. O banho, a massagem, a comida e as duas horas de sono haviam-no revigorado incalculavelmente. As criadas de banho, todas de peso e força, haviam-no esfregado, ensaboaram-lhe o cabelo, trançando-o depois num rabo capricha do, e o barbeiro lhe aparara a barba. Deram-lhe uma tanga limpa, um quimono e um sash, e tabis e sandálias para os pés. Os futons sobre os quais dormira estavam limpíssimos, assim como o quarto. Parecera tudo um sonho e, acordando de um sono sem sonhos, perguntara-se momentaneamente qual era o sonho, aquele ou a prisão.
Aguardara com impaciência, esperando ser conduzido de novo à presença de Toranaga, planejando o que dizer e o que revelar, como superar o Padre Alvito em esperteza e como ganhar ascendência sobre ele. E sobre Toranaga. Pois sabia, para além de qualquer dúvida, por causa do que Frei Domingo lhe contara sobre os portugueses, sobre a política japonesa e o comércio, que agora podia ajudar Toranaga, o qual, em troca, poderia facilmente lhe dar as riquezas que desejava.
E agora, sem padre algum com quem lutar, sentiu-se ainda mais confiante. Só preciso de um pouco de sorte e paciência.
Toranaga ouvia atentamente a intérprete que parecia uma boneca.
Eu poderia levantá-la do chão com uma mão, pensou Blackthorne, e se passasse as duas mãos em torno da cintura dela, meus dedos se tocariam. Que idade terá? Perfeita! Casada? Não usa aliança. Ah, isso é interessante. Não está usando jóia de tipo algum. Exceto os alfinetes de prata no cabelo. Nem a outra mulher, a gorda.
Rebuscou a memória. As outras duas mulheres na aldeia também não usavam jóias, coisa que ele também não vira em nenhuma das mulheres da casa de Mura. Por quê?
E quem é a gorda? Esposa de Toranaga? Ou a ama do menino? Será que o menino é filho de Toranaga? Ou neto, talvez? Frei Domingo disse que os japoneses têm só uma esposa de cada vez, mas tantas consortes - amantes legais - quantas desejem.
Será que a intérprete é consorte de Toranaga?
Como seria estar com uma mulher assim na cama? Eu teria medo de esmagá-la. Não, não se quebraria. Há mulheres na Inglaterra quase tão pequenas. Mas não como ela.
O menino era pequeno, ereto, de olhos redondos, com o cabelo preto e cheio amarrado numa cauda curta. Sua curiosidade parecia enorme. Sem pensar, Blackthorne piscou. O menino deu um pulo, depois riu, interrompeu Mariko e apontou e falou. Eles o ouviram indulgentemente e ninguém o mandou calar-se. Quando terminou, Toranaga falou brevemente para Blackthorne.
- O Senhor Toranaga pergunta por que fez isso, senhor?
- Oh, só para divertir o rapazinho. É uma criança como qualquer outra, e as crianças no meu país geralmente riem quando a gente faz isso. Meu filho deve estar mais ou menos com essa idade agora. Tem sete anos.
- O herdeiro tem sete anos - disse Mariko após uma pausa, depois traduziu o que ele dissera.
- Herdeiro? Isso quer dizer que o menino é o único filho do Senhor Toranaga? - perguntou Blackthorne.
- O Senhor Toranaga instruiu-me para dizer-lhe que, por favor, se limite apenas a responder às perguntas, por enquanto. - E acrescentou: - Se for paciente, Capitão-Piloto Blackthorne, estou certa de que terá uma oportunidade de perguntar tudo o que desejar mais tarde.
- Muito bem.
- Como seu nome é muito difícil de dizer, senhor, pois não temos os sons para pronunciá-lo... posso, para o Senhor Toranaga, usar o nome japonês, Anjin-san?
- Naturalmente. - Blackthorne ia perguntar o nome dela, mas lembrou-se do que ela dissera e da necessidade de ser paciente.
- Obrigada. Meu senhor pergunta se tem outros filhos.
- Uma filha. Nasceu pouco antes de eu partir da Inglaterra. Portanto tem uns dois anos agora.
- O senhor tem uma esposa ou muitas?
- Uma. E o nosso costume. Como os portugueses e espanhóis. Não temos consortes, consortes formais.
- É a sua primeira esposa, senhor?
- Sim.
- Por favor, qual é a sua idade?
- Trinta e seis.
- Na Inglaterra, onde o senhor vive?
- Nos subúrbios de Chatham. E um pequeno porto perto de Londres.
- Londres é a cidade principal?
- Sim.
- Ele pergunta que línguas o senhor fala.
- Inglês, português, espanhol, holandês e, naturalmente, latim.
- O que é "holandês"?
- Uma língua falada na Europa, na Neerlândia. E muito semelhante ao alemão.
Ela franziu o cenho.
- Holandês é uma língua pagã? Alemão também?
- Ambos os países são não-católicos - disse ele, cuidadoso.
- Desculpe, isso não é o mesmo que pagão?
- Não, senhorita. O cristianismo está dividido em duas religiões distintas e muito separadas. Catolicismo e protestantismo. São duas versões do cristianismo. A seita no Japão é católica. No momento as duas seitas estão muito hostis uma com a outra. - Ele reparou na surpresa dela e sentiu a impaciência crescente de Toranaga por estar sendo deixado fora da conversa. Seja cuidadoso, advertiu a si mesmo. Ela com certeza é católica. Mude de assunto. E seja simples. - Talvez o Senhor Toranaga não queira discutir religião, senhorita, já que isso foi parcialmente tratado no nosso primeiro encontro.