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Enquanto conversavam entre si, Blackthorne decidiu que chegara a hora. Mariko voltou-se para ele de novo.

- Meu amo pergunta por que o senhor esteve no norte.

- Eu era piloto de um navio. Estávamos tentando encontrar uma passagem nordeste, senhora. Muitas coisas que eu posso lhe contar soarão risíveis, eu sei - começou ele. - Por exemplo, há setenta anos os reis da Espanha e Portugal assinaram um tratado solene que dividia a posse do Novo Mundo, o mundo não descoberto, entre eles. Como o seu país cai na metade portuguesa, oficialmente o seu país pertence a Portugal - o Senhor Toranaga, a senhora, todo mundo, este castelo e tudo dentro dele foi doado a Portugal.

- Oh, por favor, Anjin-san. Perdoe-me, mas isso é um absurdo!

- Concordo com que a arrogância deles é inacreditável. Mas é verdade.

Imediatamente ela começou a traduzir e Toranaga riu ironicamente.

- O Senhor Toranaga diz que então ele poderia igualmente dividir os pagãos entre ele e o imperador da China, neh?

- Por favor, diga ao Senhor Toranaga que me desculpe mas não é a mesma coisa - disse Blackthorne, consciente de que estava em terreno perigoso. - Isso está escrito em documentos que dão a cada rei o direito de reivindicar para si qualquer território não-católico descoberto por seus súditos, aniquilar o governo existente e substituí-lo por um governo católico. - No mapa, o dedo dele traçou uma linha de norte a sul, que cortava o Brasil em dois. - Tudo o que se encontra a leste desta linha pertence a Portugal, tudo o que se encontra a oeste pertence à Espanha. Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil em 1500, por isso Portugal é dono do Brasil, destruiu toda a cultura nativa e os dirigentes legais, e enriqueceu com o ouro e a prata extraídos das minas e pilhados dos templos nativos. Todo o resto das Américas descoberto até agora é da Espanha: o México, o Peru, este continente meridional quase todo. Eles arrasaram as nações incas, aniquilaram a cultura deles e escravizaram centenas de milhares de indivíduos. Os conquistadores têm armas modernas, os nativos não tinham nenhuma. Com os conquistadores chegam os padres. Logo alguns príncipes estão convertidos e as inimizades começam a ser utilizadas. Então príncipe é atirado contra príncipe e o reino é engolido gradativamente. Agora a Espanha é a nação mais rica do nosso mundo, devido ao ouro e à prata inca e mexicana que foram pilhados e enviados para a Espanha.

Mariko estava séria agora. Captara rapidamente o significado da lição de Blackthorne. Assim como Toranaga.

- Meu amo diz que isso é conversa sem valor. Como é que eles podem se atribuir tais direitos?

- Não se atribuíram - disse Blackthorne gravemente. - Foi o papa quem lhes concedeu, o Vigário de Cristo na terra em pessoa. Em troca da difusão da palavra de Deus.

- Não acredito! - exclamou ela.

- Por favor, traduza o que eu disse, senhora. É honto.

Ela obedeceu e falou longamente, obviamente perturbada. Depois:

- Meu amo... meu amo diz que o senhor está apenas querendo envenená-lo contra os seus inimigos. Qual é a verdade? Pela sua vida, senhor?

- O Papa Alexandre VI estabeleceu a primeira linha de demarcação em 1493 - começou Blackthorne, abençoando Alban Caradoc que lhe martelara tantos fatos quando ele era jovem, e ao Frei Domingo por informá-lo sobre o orgulho japonês e lhe dar tantos indícios sobre a mente japonesa. - Em 1506, o Papa Júlio II sancionou modificações no Tratado de Tordesilhas, assinado pela Espanha e Portugal em 1494, que alterou a linha um pouco. O Papa Clemente VII sancionou o Tratado de Saragoza em 1529, há uns setenta anos, que traçou uma segunda linha aqui - seu dedo desenhou uma linha longitudinal na areia, cortando a extremidade do Japão meridional. - Isso dá a Portugal direito exclusivo sobre o seu país, sobre todos estes países - do Japão e China à África - no caminho de que eu falei. Para explorar com exclusividade, por qualquer meio, em troca de difundirem o catolicismo.

Novamente ele esperou e a mulher vacilou, confusa. Blackthorne podia sentir a crescente irritação de Toranaga por ter que esperar que ela traduzisse.

Mariko forçou os lábios para falar e repetiu o que ele dissera.

Depois ouviu Blackthorne de novo, detestando o que ouvia. Isso é realmente possível? perguntava a si mesma. Como poderia Sua Santidade fazer coisas assim? Dar nosso país aos portugueses? Deve ser mentira. Mas o piloto jurou por Jesus.

- O piloto diz, senhor - começou ela -, que... que no tempo em que essas decisões foram tomadas por Sua Santidade o papa, o mundo deles todo, inclusive o país de Anjin-san, era cristão católico. O cisma ainda não... não ocorrera. Portanto, portanto essas... essas decisões foram, naturalmente, acatadas por... por todas as nações. Ainda assim, acrescentou ele, embora os portugueses tenham exclusividade para explorar o Japão, a Espanha e Portugal estão incessantemente discutindo sobre a posse, por causa da riqueza do nosso comércio com a China.

- Qual é a sua opinião, Kiri-san? - disse Toranaga, tão chocado quanto elas. Apenas o menino brincava com o leque, desinteressadamente.

- Ele acredita estar dizendo a verdade - disse Kiri. - Sim, penso isso. Mas como prová-la... ou parte dela?

- Como você provaria, Mariko-san? - perguntou Toranaga, muito perturbado com a reação de Mariko ao que fora dito, mas muito contente por ter concordado em tê-la como intérprete.

- Eu perguntaria ao Padre Tsukku-san. Depois também enviaria alguém, um vassalo de confiança, pelo mundo para ver. Talvez com o Anjin-san.

- Se o padre não apoiar essas declarações - disse Kiri -, isso não significará necessariamente que o Anjin-san esteja mentindo, neh? - Kiri estava contente por haver sugerido que Mariko fosse a intérprete quando Toranaga procurou uma alternativa para Tsukku-san. Sabia que Mariko merecia confiança e que, uma vez tendo jurado pelo seu Deus estrangeiro, manteria silêncio mesmo sob o mais rigoroso interrogatório de qualquer padre cristão. Quanto menos esses demônios souberem, melhor, pensou Kiri. E que tesouro de conhecimento esse bárbaro tem!

Kiri viu o menino bocejar de novo e ficou contente com isso. Quanto menos a criança compreendesse, melhor, disse ela a si mesma: Depois, em voz alta:

- Por que não mandar chamar o líder dos padres cristãos e perguntar sobre esses fatos? Vamos ver o que ele diz. Eles têm o rosto aberto, na maioria, e quase não têm sutileza.

Toranaga assentiu, de olhos em Mariko.

- Pelo que você sabe sobre os bárbaros meridionais, diria que as ordens do papa seriam obedecidas?

- Sem dúvida.

- As ordens dele seriam consideradas como se o próprio Deus cristão estivesse falando?

- Sim.

- Todos os cristãos católicos obedeceriam às ordens dele?

- Sim.

- Até os nossos cristãos aqui?

- Penso que sim.

- Até você?

- Sim, senhor. Se se tratasse de uma ordem direta de Sua Santidade a mim, pessoalmente. Sim, pela salvação da minha alma. - O olhar dela mantinha-se firme. - Mas até lá não obedecerei a homem algum além do meu suserano, ao cabeça da minha família, ou ao meu marido. Sou japonesa, cristã, sim, mas primeiro sou samurai.

- Acho que seria bom, então, que essa santidade permanecesse longe das nossas praias. - Toranaga pensou um instante.

Depois resolveu o que fazer com o bárbaro, Anjin-san.

– Diga-lhe... - Parou. Os olhos de todos estavam postados na vereda e na anciã que se aproximava. Usava o hábito com capuz das monjas budistas. Com ela vinham quatro cinzentos. Pararam e ela entrou sozinha.

CAPÍTULO 17

Todos fizeram uma profunda reverência. Toranaga notou que o bárbaro o imitou e não se levantou nem olhou, coisa que todos os bárbaros, exceto Tsukku-san, teriam feito. O piloto aprende depressa, pensou ele, com a cabeça ainda ardendo com o que ouvira. Estava fervilhando de perguntas, mas, usando a sua disciplina, afastou-as temporariamente para se concentrar no perigo presente.