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- Estou sempre pronto para servi-la - disse Toranaga.

Quando estavam afastados dos outros, ela disse calmamente:

- Torne-se regente único. Tome o poder e governe sozinho. Até que Yaemon atinja a idade.

- O testamento do taicum proíbe isso. Mesmo que eu quisesse. E não quero. As restrições que ele fez impedem que um regente tome o poder. Não busco o poder isolado. Nunca busquei.

- Tora-chan - disse ela, usando o apelido que o taicum lhe dera há tanto tempo -, temos poucos segredos, você e eu. Poderia fazê-lo, se quisesse. Respondo pela Senhora Ochiba. Tome o poder. Torne-se shogun e faça...

- Senhora, o que diz é traição. Não pretendo ser shogun.

- Naturalmente, mas, por favor, ouça-me uma última vez. Torne-se shogun, faça de Yaemon seu único herdeiro, único. Ele poderia ser shogun depois de você. Ele não é Fujimoto pela Senhora Ochiba, pelo avô dela, Goroda, e, através dela, por toda a antiguidade? Fujimoto!

Toranaga olhou-a fixamente.

- Acha que os daimios concordariam com essa reivindicação ou que Sua Alteza, o Filho do Céu, poderia aprovar a designação?

- Não. Não para Yaemon mesmo. Mas se você fosse shogun primeiro, e o adotasse, poderia persuadi-los, a todos eles. Nós o apoiaremos, a Senhora Ochiba e eu.

- Ela concordou com isso? - perguntou Toranaga, atônito.

- Não. Nunca discutimos o assunto. A idéia é minha. Mas concordará. Respondo por ela. Antecipadamente.

- Esta conversa é impossível, senhora.

- Você pode lidar com Ishido, e com todos eles. Sempre pôde. Tenho medo do que ouço, Tora-chan, rumores de guerra, tomadas de posições, e os séculos de escuridão começando novamente. Quando a guerra começar, continuará para sempre e devorará Yaemon.

- Sim. Também acredito nisso. Sim, se começar, vai durar para sempre.

- Então tome o poder! Faça o que quiser, a quem quiser, como quiser. Yaemon é um menino de valor. Conheço você como conheço a ele. Tem a mente do pai e, com a sua orientação, todos lucraremos. Ele devia receber a herança.

- Não me oponho a ele, nem a sua sucessão. Quantas vezes preciso dizer?

- O herdeiro será destruído a menos que você o apóie ativamente.

- Eu o apóio! - disse Toranaga. - Sob todos os aspectos. Foi isso o que combinei com o taicum, seu falecido marido.

Yodoko suspirou e puxou o hábito mais para junto do corpo.

- Estes velhos ossos estão com frio. Tantos segredos e batalhas, traições e mortes e vitórias, Tora-chan. Sou apenas uma mulher, e muito, muito só. Estou contente por me ter dedicado a Buda agora e que a maioria dos meus pensamentos se volte para Buda e para a minha próxima vida. Mas nesta tenho que proteger meu filho e dizer estas coisas a você. Espero que perdoe minha impertinência.

- Sempre procuro e aprecio o seu conselho.

- Obrigada. - As costas dela se endireitaram um pouco.

- Ouça, enquanto eu estiver viva, nem o herdeiro nem a Senhora Ochiba se voltarão jamais contra você.

- Sim.

- Vai considerar o que propus?

- A vontade do meu falecido amo o proíbe. Não posso ir contra a vontade dele nem contra a minha promessa sagrada como regente.

Caminharam em silêncio. Então Yodoko suspirou.

- Por que não tomá-la por esposa?

Toranaga estacou.

- Ochiba?

- Por que não? É totalmente válida como escolha política. Uma escolha perfeita para você. E bela, jovem, forte, sua linhagem é a melhor, parte Fujimoto, parte Minowara, e ela tem uma imensa alegria de viver. Você não tem esposa oficial agora, portanto por que não? Isso solucionaria o problema da sucessão e impediria que o reino se dilacerasse. Você certamente teria outros filhos com ela. Yaemon o sucederia, depois os filhos dele ou os outros filhos dela. Você poderia tornar-se shogun. Teria o poder do reino e o poder de um pai, portanto poderia educar Yaemon ao seu modo. Você o adotaria formalmente e ele seria seu filho tanto quanto os outros que você tem. Por que não se casar com a Senhora Ochiba?

Porque ela é um gato selvagem, uma tigresa traiçoeira com o rosto e corpo de uma deusa, que pensa ser uma imperatriz e age como tal, pensou Toranaga. Eu nunca poderia confiar nela na minha cama. E o tipo de pessoa de quem tanto se pode esperar que lhe enfie uma agulha nos olhos durante o sono, quanto lhe faça uma carícia. Oh, não, ela não! Mesmo que eu a desposasse apenas em nome... com o que ela nunca concordaria... oh, não! E impossível! Por todo tipo de razões, inclusive porque me odiava e conspirou a minha ruína e a da minha casa, desde que concebeu pela primeira vez, há onze anos.

Mesmo nessa altura, mesmo aos dezessete anos, ela se empenhou pela minha destruição. Ah, tão suave aparentemente, como o primeiro pêssego maduro do verão, e igualmente perfumada. Mas por dentro uma espada de aço, com uma cabeça à altura, jogando com seus encantos, logo deixando o taicum louco por ela até conseguir a exclusão de todas as outras. Sim, ela intimidou o taicum desde os quinze anos, quando ele a tomou formalmente. Sim, e não se esqueça que na realidade foi ela que o levou para a cama, e não ele a ela, por mais que ele tenha acreditado nisso. Sim, mesmo aos quinze anos Ochiba sabia o que procurava e como obtê-lo. Então aconteceu o milagre: deu, finalmente, um filho ao taicum, ela, a única a conseguir isso, dentre todas as que ele teve na vida. Quantas mulheres? Cem, no mínimo, já que ele era um arminho que derramou o sumo do prazer em mais alcovas paradisíacas do que dez homens comuns! Sim. E mulheres de todas as idades e castas, casuais ou consortes, desde uma princesa Fujimoto até uma cortesã de quarta classe. Mas nenhuma jamais engravidou, embora mais tarde muitas das que o taicum repudiou ou de quem se divorciou tenham tido filhos com outros homens. Nenhuma, exceto a Senhora Ochiba.

Mas ela lhe deu o primeiro filho aos cinqüenta e três anos, uma pobre coisinha doentia, que morreu muito depressa, fazendo que o taicum rasgasse a roupa, quase louco de dor, responsabilizando a si mesmo e não a ela. Depois, quatro anos mais tarde, miraculosamente ela concebeu de novo, miraculosamente teve outro filho, miraculosamente saudável desta vez, ela com vinte e um anos agora. Ochiba, a Incomparável, chamara-a o taicum.

O taicum seria mesmo o pai de Yaemon ou não? O que eu não daria para saber a verdade! Será que jamais a conheceremos? Provavelmente não, mas o que eu não daria por uma prova, de um modo ou de outro!

Estranho que o taicum, tão inteligente para com todo o resto, não fosse esperto com Ochiba, idolatrando a ela e a Yaemon até a insanidade. Estranho que de todas as mulheres devesse ser ela a mãe do herdeiro, ela cujo pai, cujo padrasto e cuja mãe foram mortos por causa do taicum.

Teria ela tido a esperteza de dormir com outro homem, tomar-lhe a semente, depois destruir esse mesmo homem para se salvaguardar? E não uma vez, mas duas?

Poderia ser tão traiçoeira? Oh, sim.

Casar com Ochiba? Nunca.

- Fico honrado de que a senhora tenha feito tal sugestão - disse alto.

- Você é um homem, Tora-chan. Poderia manobrar uma mulher como ela facilmente. É o único homem no império que poderia, neh? Seria um casamento maravilhoso para você. Veja como ela luta para proteger os interesses do filho agora, e é apenas uma mulher indefesa. Seria uma esposa digna de você.

- Não creio que ela sequer considerasse a idéia.

- E se o fizesse?

- Eu gostaria de ficar sabendo. Reservadamente. Sim, isso seria uma honra inestimável.