- Muitos acreditam que apenas você se ergue entre Yaemon e a sucessão.
- Muitos são tolos.
- Sim. Mas você não é, Toranaga-sama. Nem a Senhora Ochiba.
Nem você, minha senhora, pensou ele.
CAPÍTULO 18
Na hora mais escura da noite, o assassino pulou o muro e entrou no jardim. Estava quase invisível. Usava roupas pretas, bem justas, os tubis eram pretos, e um capuz e uma máscara pretos cobriam-lhe a cabeça. Era um homem pequeno. Correu sem fazer nenhum ruído até a fortaleza interna de pedra, e parou pouco antes dos muros altíssimos. Cinqüenta jardas à frente, dois marrons guardavam a porta principal. Habilmente ele atirou um gancho revestido de pano, amarrado a uma corda de seda muito fina.
O gancho prendeu-se à borda de pedra da seteira. Ele subiu pela corda, espremeu-se através da fenda, e desapareceu lá dentro.
O corredor estava quieto e iluminado por velas. Ele o percorreu rápida e silenciosamente, abriu uma porta externa, e saiu para o parapeito. Outro hábil arremesso, uma subida curta e ele se viu no corredor acima. As sentinelas que se encontravam nos cantos das ameias não o ouviram, embora estivessem alerta.
Ele se comprimiu contra um nicho de pedra quando outros marrons passaram tranqüilamente por perto, patrulhando. Depois que se afastaram, ele deslizou por toda a extensão do corredor. Na virada, parou. Silenciosamente observou à sua volta. Um samurai guardava a porta na outra extremidade. Velas tremulavam no silêncio. O guarda estava sentado de pernas cruzadas. Bocejou, encostou-se ao muro e espreguiçou-se. Seus olhos fecharam-se por um instante. Imediatamente o assassino se arremessou. Sempre sem ruído. Formou um laço com a corda de seda nas mãos, atirou-o ao pescoço do guarda e apertou com força. Os dedos do guarda tentaram arrancar o garrote, mas ele já estava morrendo. Um golpe curto com a faca entre as vértebras, tão hábil quanto o de um cirurgião, e o guarda ficou imóvel.
O homem empurrou a porta lentamente. A sala de audiência estava vazia, as portas internas sem guardas. Ele puxou o cadáver para dentro e fechou a porta de novo. Sem hesitação, atravessou o espaço e escolheu a porta interna à esquerda. Era de madeira pesadamente reforçada. O homem passou a faca curva para a mão direita. Bateu suavemente.
- "No tempo do Imperador Shirakawa - disse ele, dando a primeira parte da senha.
Do outro lado da porta houve uma sibilação de aço saindo da bainha e a resposta:
- ... vivia um homem sábio chamado Entaku-ji... "
- “que escreveu a trigésima primeira sutra". Tenho despachos urgentes para o Senhor Toranaga.
A porta se abriu e o assassino arremeteu. A faca subiu até a garganta do primeiro samurai, pouco abaixo do queixo, desceu com a mesma rapidez, para se enterrar identicamente no segundo guarda. Uma leve torção e a faca saiu de novo. Ambos os homens estavam mortos e de pé. O assassino agarrou um e deixou-o descer suavemente; o outro caiu, mas sem ruído. O sangue escorria pelo chão e os corpos se contraíam nas agonias da morte.
O homem apressou-se por esse corredor interno. Estava fracamente iluminado. Então uma shoji se abriu. Ele se deteve no mesmo instante e lentamente olhou em torno.
Kiri o encarava, pasmada, a dez passos. Trazia uma bandeja nas mãos.
Ele viu que as duas xícaras sobre a bandeja não tinham sido usadas, e a comida não fora tocada. Um filete de vapor subia do bule de chá. Ao lado dele, crepitava uma vela. Então a bandeja caiu, as mãos dela foram para o obi, puxaram uma adaga, sua boca moveu-se mas não emitiu som, e ele já estava correndo para o canto do corredor.
Na extremidade, uma porta se abriu e um samurai alarmado, caindo de sono, pôs a cara para fora.
O assassino se atirou contra ele e despedaçou uma shoji à direita, que era a que procurava. Kiri estava gritando, o alarma soava, e ele correu, com passo firme na escuridão, através da antesala, por sobre as mulheres despertando e suas criadas, para o corredor interno do outro lado.
Ali estava escuro como breu mas ele, imperturbável, procurou às apalpadelas até encontrar a porta certa. Correu a porta e saltou sobre a figura deitada no futon. Mas o braço com a faca foi agarrado por um aperto como que de torques e o homem foi arrastado para o chão. Lutou com destreza, libertou-se e golpeou de novo, mas errou, emaranhado com o acolchoado. Arremessou-o longe e se atirou à figura, a faca erguida para o ataque de morte. Mas o homem se esquivou com inesperada agilidade e um pé enrijecido afundou-se na virilha do invasor. Este sentiu a explosão de dor, enquanto sua vítima escapava para um canto seguro.
Nisso uma multidão de samurais se aglomerou à soleira da porta, alguns com lanternas, e Naga, usando apenas uma tanga, o cabelo em desalinho, saltou entre o assassino e Blackthorne, espada em riste.
- Renda-se!
O assassino simulou um ataque, gritou "Namu Amida Butsu" - "Em nome de Buda Amida" -, voltou a faca contra si mesmo e com ambas as mãos cravou-a sob a base do queixo. O sangue jorrou e ele caiu de joelhos, Naga desferiu um único golpe, sua espada um arco turbilhonante, e a cabeça rolou.
Em meio ao silêncio, Naga levantou a cabeça do chão, segurando pelo topete do cabelo penteado à samurai, e arrancou a máscara. O rosto era comum, os olhos ainda volteando nas órbitas.
- Alguém o conhece?
Ninguém respondeu. Naga cuspiu no rosto, jogou enraivecido
a cabeça para um de seus homens, rasgou as roupas pretas e ergueu o braço direito do homem, para descobrir o que estava procurando. A pequena tatuagem — o símbolo chinês de Amida, o
Buda especial - estava gravada na axila.
- Quem é o oficial do turno?
- Eu, senhor. - O homem estava branco de choque.
Naga lançou-se para ele e os outros abriram caminho. O oficial não fez nenhuma tentativa de evitar o feroz golpe de espada que lhe arrancou a cabeça, parte do ombro e um braço.
- Hayabusa-san, ordene que todos os samurais deste turno se dirijam ao pátio - disse Naga a um oficial. - Dobre a guarda para o próximo turno. Tirem o corpo daqui. Os demais..
Parou quando Kiri se aproximou da soleira, ainda com a adaga na mão. Ela olhou para o cadáver, depois para Blackthorne.
- O Anjin-san não está ferido? - perguntou.
Naga olhou para o homem que respirava com dificuldade. Não viu ferimentos nem sangue. Apenas um homem desgrenhado que quase fora morto. Pálido, mas sem medo aparente. - Está ferido, piloto?
- Não compreendo.
Naga se aproximou dele e puxou-lhe o quimono de dormir para ver se o piloto fora ferido.
- Ah, compreendo agora. Não. Não ferido - Naga ouviu o gigante dizer, e viu-o sacudir a cabeça.
- Bom - disse ele. - Não parece ferido, Kiritsubo-san.
Viu o Anjin-san apontar para o corpo e dizer alguma coisa.
- Não o compreendo - retrucou Naga. - Anjin-san, fique aqui - e a um dos homens disse: - Traga-lhe comida e água, se ele quiser.
- O assassino estava com a tatuagem de Amida, neh? - perguntou Kiri.
- Sim, Senhora Kiritsubo.
- Demônios... demônios.
- Sim.
Naga fez-lhe uma mesura, depois olhou para um dos amedrontados samurais. - Você, venha comigo. Traga a cabeça. - Afastou-se a passos largos, perguntando a si mesmo como contaria ao pai. Oh, Buda, obrigado por proteger meu pai.
- Era um ronin - disse Toranaga bruscamente. - Você jamais lhe encontrará a trilha, Hiromatsu-san.
- Sim. Mas Ishido é responsável. Não teve honra para fazer isto, neh? Nenhuma. Usar esse lixo de assassinos! Por favor, rogo-lhe que me deixe convocar nossas legiões agora. Paro com isto de uma vez por todas.
- Não. - Toranaga olhou novamente para Naga. - Tem certeza de que o Anjin-san não está ferido?
- Tenho, senhor.
- Hiromatsu-san, rebaixe todos os guardas deste turno por falhar com o dever. Estão proibidos de cometer seppuku. Ordeno que vivam com essa vergonha diante de todos os meus homens como soldados da mais baixa categoria. Mande arrastar os guardas mortos pelos pés através do castelo e da cidade até o pátio de execução. Que os cães se alimentem dos seus restos.