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Depois olhou para o filho. Antes, naquela noite, chegara uma mensagem urgente do mosteiro de Johji, em Nagoya, sobre a ameaça de Ishido contra Naga. Toranaga ordenara imediatamente que o filho se confinasse e se rodeasse de guardas, e os outros membros da família em Osaka - Kiri e a Senhora Sazuko - fossem igualmente guardados. A mensagem do prior acrescentava que ele considerava prudente libertar a mãe de Ishido imediatamente e mandá-la de volta para a cidade com suas criadas. "Não ouso arriscar a vida de um de seus ilustres filhos tolamente. Pior ainda, a saúde dela não está boa. Está gripada. É melhor que morra em sua casa e não aqui."

- Naga-san, você é igualmente responsável pela entrada do assassino - disse Toranaga, com voz fria e áspera. - Cada samurai é responsável, estivesse ou não no turno, dormindo ou acordado. Você fica multado em metade de seu rendimento anual.

- Sim, senhor - disse o jovem, surpreso por poder conservar alguma coisa, inclusive a cabeça. - Por favor, rebaixe-me também. Não posso viver com a vergonha. Não mereço nada além de desprezo pelo meu fracasso, senhor.

- Se eu quisesse rebaixá-lo, teria feito isso. Parta imediatamente para Yedo. Irá com vinte homens esta noite e se apresentará ao seu irmão. Chegará lá em tempo recorde! Vá! - Naga curvou-se e se afastou, pálido. A Hiromatsu, Toranaga disse, de modo igualmente áspero: - Quadruplique a minha guarda. Cancele a caça de hoje, e a de amanhã. Deixo Osaka no dia seguinte ao da reunião de regentes. Você fará todos os preparativos e até lá ficarei aqui. Não receberei ninguém que não seja convidado. Ninguém.

Fez um gesto com a mão, numa despedida encolerizada.

- Saiam todos vocês. Hiromatsu, fique.

A sala esvaziou-se. Hiromatsu ficou contente pelo fato de que a sua humilhação seria em particular, pois, de todos eles, enquanto comandante da guarda de corpo, era ele o mais responsável.

- Não tenho desculpas, senhor. Nenhuma.

Toranaga estava perdido em pensamentos. Não havia raiva visível agora.

- Se você quisesse contratar os serviços do Amida Tong secreto, como os encontraria? Como se aproximaria deles?

- Não sei, senhor.

- Quem saberia?

- Kasigi Yabu.

Toranaga olhou pela seteira. Flocos de aurora misturavam-se com a escuridão a leste.

- Traga-o aqui ao amanhecer.

- Acha que ele é o responsável?

Toranaga não respondeu e voltou às suas meditações. Finalmente o velho soldado não agüentou mais o silêncio.

- Por favor, senhor, deixe-me sair da sua presença. Estou tão envergonhado com o nosso fracasso...

- É quase impossível prever um atentado assim - disse Toranaga.

- Sim. Mas devíamos tê-lo agarrado lá fora, nunca perto do senhor.

- Concordo. Mas não o considero responsável.

- Eu me considero. Há uma coisa que devo dizer, senhor, pois sou responsável pela sua segurança até que esteja de volta a Yedo. Haverá mais atentados contra o senhor, e todos os nossos espiões relatam um movimento maior de tropas. Ishido está se mobilizando.

- Sim - disse Toranaga casualmente. - Depois de Yabu, quero ver Tsukku-san, depois Mariko-san: Dobre a guarda do Anjin-san.

- Chegaram mensagens esta noite de que o Senhor Onoshi tem cem mil homens melhorando suas fortificações em Kyushu - disse Hiromatsu, acossado pela sua preocupação com a segurança de Toranaga.

- Perguntarei a ele sobre isso, quando nos encontrarmos.

O equilíbrio de Hiromatsu rompeu-se.

- Não o entendo, em absoluto. Devo dizer-lhe que arrisca tudo estupidamente. Sim, estupidamente. Não me importo que o senhor me tome a cabeça por lhe dizer isso, mas é a verdade. Se Kiyama e Onoshi votarem com Ishido, o senhor estará perdido! Será um homem morto. Arriscou tudo vindo aqui e perdeu! Escape enquanto pode. Pelo menos terá a cabeça sobre os ombros!

- Ainda não estou em perigo.

- O ataque desta noite não lhe diz nada? Se não tivesse mudado de quarto novamente, estaria morto agora.

- Sim, talvez, mas provavelmente não - disse Toranaga.

- Havia muitos guardas do lado de fora do meu quarto esta noite, assim como na noite passada. E você também estava de guarda esta noite. Nenhum assassino conseguiria chegar perto de mim. Nem este, que estava tão bem preparado. Conhecia o caminho, até a senha, neh? Kiri-san diz que o ouviu usando-a. Portanto acho que ele sabia em que quarto eu me encontrava. Não era eu a presa. Era o Anjin-san.

- O bárbaro?

- Sim.

Toranaga antecipara que o bárbaro correria perigo após as extraordinárias revelações daquela manhã. Evidentemente para alguns o Anjin-san era perigoso demais para continuar vivo. Mas Toranaga nunca presumira que se organizasse um ataque dentro dos seus aposentos privados, nem que acontecesse tão depressa. Quem está me traindo? Não fez caso da possibilidade de alguma informação ter transpirado através de Kiri, ou de Mariko. Mas castelos e jardins sempre têm lugares secretos de onde espreitar, pensou. Estou no centro da fortaleza do inimigo, e onde tenho um espião, Ishido e os outros terão vinte. Talvez fosse apenas um espião.

- Dobre a guarda do Anjin-san. Ele vale dez mil homens para mim.

Depois que a Senhora Yodoko partira aquela manhã, ele retornara à casa de chá no jardim e notara imediatamente a profunda debilidade do Anjin-san, os olhos anormalmente brilhantes e a sua fadiga opressiva. Então controlara a própria excitação e a necessidade quase subjugante de esquadrinhar mais fundo, e o dispensara, dizendo que continuariam no dia seguinte. O Anjin-san fora entregue as cuidados de Kiri, com instruções de mandar-lhe um médico, fazê-lo recuperar as forças, dar-lhe alimento bárbaro se ele desejasse, e até ceder-lhe o quarto de dormir que o próprio Toranaga usava muitas noites.

- Dê-lhe tudo o que achar necessário, Kiri-san - dissera a ela em particular. - Preciso dele perfeito de mente e corpo, e muito rapidamente.

Então o Anjin-san pedira que ele libertasse o monge da prisão, pois o homem era velho, estava doente. Respondera que consideraria o pedido e mandara o bárbaro embora com agradecimentos, sem lhe dizer que já ordenara aos samurais que fossem à prisão imediatamente, buscar aquele monge que talvez fosse igualmente valioso, tanto para ele quanto para Ishido.

Toranaga sabia da existência daquele padre há muito tempo, sabia que era espanhol e hostil aos portugueses. Mas o homem fora enviado para lá por ordem do taicum, portanto era prisioneiro do taicum e ele, Toranaga, não tinha jurisdição sobre ninguém em Osaka. Deliberadamente enviara o Anjin-san para aquela prisão não só para fingir a Ishido que o estrangeiro não tinha valor, como também com a esperança de que o impressivo piloto fosse capaz de extrair os conhecimentos do monge.

O canhestro atentado à vida do Anjin-san, na cela, fora frustrado, e imediatamente se colocara uma tela de proteção em torno dele. Toranaga recompensara o vassalo espião, Minikui, um carregador de kaga, tirando-o de lá em segurança, dando-lhe quatro kagas e o direito hereditário de usar o trecho da estrada Tokaido - a grande via que unia Yedo a Osaka -, entre o segundo e o terceiro estágios, que ficavam em seus domínios perto de Yedo, e o mandara secretamente para fora de Osaka no primeiro dia. No decorrer dos outros dias, seus outros espiões enviaram relatórios de que os dois homens eram amigos agora, o monge falando e o Anjin-san fazendo perguntas e ouvindo. O fato de que Ishido provavelmente também tivesse espiões na cela não o incomodou. O Anjin-san estava protegido e seguro. Então, inesperadamente Ishido tentara dar sumiço nele.