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Toranaga lembrou-se de como se divertira com Hiromatsu planejando a "emboscada" - sendo os "bandidos ronins" um dos pequenos grupos isolados de samurais seus, de elite, que estavam escondidos dentro e em torno de Osaka - e sincronizando o aparecimento de Yabu, que, sem suspeitar de nada, efetuara o "resgate". Haviam rido juntos, sabendo que mais uma vez tinham usado Yabu como títere para esfregar o nariz de Ishido no seu próprio excremento.

Tudo correra lindamente. Até hoje.

Hoje o samurai que enviara para buscar o monge regressara de mãos vazias.

- O padre morreu - relatara o homem. - Quando seu nome foi chamado, ele não saiu, Senhor Toranaga. Entrei para procurá-lo, mas estava morto. Os criminosos em torno dele disseram que quando os carcereiros chamaram o nome ele simplesmente desabou. Estava morto quando o desvirei. Por favor, desculpe-me, o senhor me mandou buscá-lo e eu falhei. Eu não sabia se o senhor queria a cabeça dele, ou a cabeça no corpo, já que era um bárbaro, então trouxe o corpo ainda com a cabeça. Alguns dos criminosos em torno dele disseram que eram seus convertidos. Queriam conservar o corpo e tentaram fazer isso, por isso matei alguns e trouxe o cadáver. Cheira mal e tem vermes, mas está no pátio, senhor.

Por que o monge morreu? perguntou-se Toranaga mais uma vez. Então viu Hiromatsu a olhá-lo inquisitivamente.

- Sim?

- Só perguntei quem quereria o piloto morto.

- Os cristãos.

Kasigi Yabu seguiu Hiromatsu pelo corredor, sentindo-se ótimo ao amanhecer. Havia um agradável travo de sal na brisa, que lhe lembrava Mishima, sua cidade. Estava contente porque finalmente veria Toranaga e a espera terminara. Banhara-se e vestira-se com cuidado. As últimas cartas foram escritas para a mulher e a mãe, e as últimas vontades lacradas, para o caso de a entrevista não lhe ser favorável. Estava usando a sua lâmina Murasama, dentro da bainha honrada por muitas batalhas.

Dobraram outra esquina, então inesperadamente Hiromatsu abriu uma porta reforçada com ferro e tomou a dianteira, subindo os degraus de pedra para a torre central daquela parte das fortificações. Havia muitos guardas a postos e Yabu pressentiu perigo.

As escadas subiam em espiral e terminavam num reduto facilmente defendível. Guardas abriram a porta de ferro. Ele saiu para o parapeito. Será que Hiromatsu recebeu ordens de me atirar lá embaixo, ou vai me mandar pular? perguntou a si mesmo sem medo.

Para surpresa sua, Toranaga encontrava-se ali e, inacreditavelmente, levantou-se para saudá-lo, com uma deferência jovial que Yabu não tinha o direito de esperar. Afinal de contas, Toranaga era senhor das Oito Províncias, enquanto ele era apenas senhor de Izu. Algumas almofadas tinham sido cuidadosamente colocadas. Havia um bule de chá envolto num abafador de seda. Uma garota ricamente trajada, de rosto quadrado e não muito bonita, estava se curvando profundamente. Chamava-se Sazuko e era a sétima consorte oficial de Toranaga, a mais jovem, visivelmente grávida.

- Que prazer em vê-lo, Kasigi Yabu-san! Sinto muito tê-lo feito esperar.

Agora Yabu teve certeza de que Toranaga resolvera arrancar-lhe a cabeça de um jeito ou de outro, pois, por costume universal, o seu inimigo nunca é mais polido do que quando está planejando a sua destruição. Ele tirou as duas espadas, colocou-as cuidadosamente sobre as lajes de pedra, permitiu-se ser afastado delas e sentou-se no lugar de honra.

- Pensei que seria interessante observar o alvorecer, Yabu-san. Acho a vista daqui magnífica. Melhor até que a do torreão do herdeiro, neh?

- Sim, é linda - disse Yabu sem reservas, nunca tendo estado tão alto no castelo antes, mas certo agora de que a observação de Toranaga sobre "o herdeiro" insinuava que as suas negociações secretas com Ishido eram conhecidas.

- Estou honrado em poder compartilhá-la com o senhor.

Abaixo deles estavam a cidade adormecida, a enseada e as ilhas, Awaji a oeste, a linha da costa esbatendo-se para leste, a luz crescente no céu oriental recortando as nuvens com salpicos carmesins.

- Esta é a minha Senhora Sazuko. Sazuko, este é meu aliado, o famoso Senhor Kasigi Yabu de Izu, o daimio que nos trouxe o bárbaro e o navio do tesouro! - Ela curvou-se, cumprimentando-o, ele curvou-se, e ela retribuiu a reverência. Ofereceu a Yabu a primeira xícara de chá, mas ele, polidamente, declinou a honra, dando início ao ritual, e pediu-lhe que a passasse a Toranaga, que recusou e o instou a aceitá-la. Finalmente, dando continuidade ao ritual, Yabu, na qualidade de convidado de honra,

permitiu-se ser persuadido. Hiromatsu aceitou a segunda xícara, seus dedos nodosos segurando a porcelana com dificuldade, a outra mão agarrada ao punho da espada, solta no colo. Toranaga aceitou a terceira xícara e sorveu o chá, depois, juntos, entregaram-se à natureza e assistiram ao nascer do sol. Iodo silêncio do céu.

Gaivotas grasnavam. Os sons da cidade começaram. O dia tinha nascido.

A Senhora Sazuko suspirou, com os olhos úmidos. - Faz-me sentir como uma deusa estar tão alto e presenciar tanta beleza, neh? É tão triste que tenha acabado para sempre, senhor. Tão triste, neh?

- Sim - disse Toranaga.

Quando o sol estava a meio caminho acima do horizonte, ela se curvou e saiu. Para surpresa de Yabu, os guardas a imitaram. Ficaram sozinhos. Os três.

- Fiquei contente em receber o seu presente, Yabu-san. Foi muito generoso, o navio todo e tudo dentro dele - disse Toranaga.

- Tudo o que tenho é seu - disse Yabu, ainda profundamente emocionado pelo amanhecer. Gostaria de ter mais tempo, pensou. Que elegante da parte de Toranaga fazer isso! Dar-me um final de tamanha imensidade. - Obrigado por este amanhecer.

- Sim - disse Toranaga. - Era minha vez de dar. Fico contente de que tenha apreciado o meu presente, como apreciei o seu.

Houve silêncio.

- Yabu-san, o que sabe sobre o Amida Tong?

- Só o que a maioria das pessoas sabe: que é uma sociedade secreta de dez - unidades de dez -, um líder e nunca mais de nove acólitos em cada área, mulheres e homens. Prestam os mais sagrados e secretos juramentos de Buda Amida, o dispensador do amor eterno, de obediência, castidade e morte, juram passar a vida treinando para se tornarem uma perfeita arma letal; matar apenas por ordem do líder, e se falharem ao tentar matar a pessoa escolhida, seja homem, mulher ou criança, tirar a própria vida imediatamente. São fanáticos religiosos que têm certeza de ir diretamente desta vida para o convívio de Buda. Nenhum deles foi jamais capturado vivo. - Yabu sabia do atentado contra a vida de Toranaga. Toda Osaka sabia agora, e também sabia que o senhor de Kwanto, as Oito Províncias, se trancara por trás de portas de aço. - Eles matam com perfeição, seu próprio sigilo é completo. Não há chance de vingança contra eles porque ninguém sabe quem são, onde vivem, ou onde treinam.

- Se quisesse contratá-los, como faria?

- Eu faria a notícia correr por três lugares: o Mosteiro Heinan, os portões do santuário de Amida, e o mosteiro de Johji. Dentro de dez dias, se eu fosse considerado aceitável como contratador, seria abordado por intermediários. É tudo tão secreto o tortuoso que, mesmo que se quisesse traí-los ou capturá-los, nunca seria possível. No décimo dia, pedem uma soma em dinheiro, em prata, dependendo a quantia da pessoa a ser assassinada. Não há como pechinchar, paga-se o que eles pedem com antecedência. Apenas garantem que um deles tentará matar dentro de dez dias. Diz a lenda que se é bem sucedido, o assassino volta ao templo e então, com grande cerimônia, comete um suicídio ritual.

- Então acha que nunca conseguiríamos descobrir quem pagou pelo ataque de hoje?

- Acho.

- Acha que haverá outro?

- Talvez. Talvez não. Eles tratam para um atentado de cada vez, neh? Mas o senhor seria prudente em melhorar a sua segurança - entre seus samurais, e também entre suas mulheres.As mulheres Amida são treinadas para usar veneno, assim como a faca e o garrote, pelo que dizem.