- Você já os utilizou?
- Não.
- Mas seu pai sim?
- Não sei, não com certeza. Disseram-me que o taicum lhe pediu que os contratasse uma vez.
- O ataque teve êxito?
- Tudo o que o taicum fez teve êxito. De um modo ou de outro.
Yabu sentiu alguém se aproximar por trás e presumiu que fossem os guardas voltando secretamente. Estava medindo a distância até suas espadas. Tento matar Toranaga? perguntou novamente a si mesmo. Tinha resolvido fazer isso e agora não sei. Mudei. Por quê?
- Quanto você teria que pagar a eles pela minha cabeça? - perguntou Toranaga.
- Não há prata suficiente em toda a Ásia para me tentar a empregá-los com essa finalidade.
- Quanto uma outra pessoa teria que pagar?
- Vinte mil kokus... cinqüenta mil... cem... talvez mais, não sei.
- Você pagaria cem mil kokus para se tornar shogun? A sua linhagem remonta aos Takashima, neh?
- Eu não pagaria nada - disse Yabu com orgulho. - O dinheiro é imundo, um brinquedo para mulheres ou para mercadores nojentos. Mas se isso fosse possível, o que não é, eu daria minha vida, a de minha esposa, minha mãe e de toda a minha família, exceto meu filho, e de todos os meus samurais em Izu, com mulheres e filhos, para ser shogun um dia.
- E o que daria pelas Oito Províncias?
- O mesmo que antes, exceto a vida de minha esposa, minha mãe e meu filho.
- E pela província de Suruga?
- Nada - disse Yabu com desprezo. - Ikawa Jikkyu não vale nada. Se eu não lhe arrancar a cabeça e a de toda a sua descendência nesta vida, farei isso na próxima. Urino em cima dele e da sua semente por dez mil vidas.
- E se eu o desse a você? E Suruga inteira... e talvez a província vizinha, Totomi?
Yabu de repente se cansou do jogo de gato-e-rato e da conversa sobre Amida.
- O senhor resolveu tirar-me a vida, SenhorToranaga. Muito bem. Estou pronto. Agradeço-lhe pelo amanhecer. Mas não tenho vontade de empanar essa elegância com mais conversa. Portanto vamos em frente.
- Mas não resolvi tirar-lhe a vida, Yabu-san - disse Toranaga. - De onde lhe veio a idéia? Algum inimigo andou lhe envenenando o espírito? Ishido talvez? Você não é o meu aliado predileto? Acha que o receberia aqui, sem guardas, se o considerasse hostil?
Yabu voltou-se lentamente. Esperara encontrar samurais atrás de si, espadas em riste. Não havia ninguém. Olhou de novo para Toranaga.
- Não compreendo.
- Trouxe-o aqui para que pudéssemos conversar em particular. E para assistir ao amanhecer. Gostaria de governar as províncias de Izu, Suruga e Totomi... se eu não perder esta guerra?
- Sim. Muitíssimo - disse Yabu, suas esperanças crescendo.
- Tornar-se-ia meu vassalo? Aceitar-me-ia como seu suserano?
Yabu não hesitou:
- Nunca! Como aliado, sim. Como meu líder, sim. Menos que o senhor sempre, sim. Minha vida e tudo o que possuo do seu lado, sim. Mas Izu é minha. Sou daimio de Izu e nunca cederei a ninguém o poder sobre Izu. Fiz esse juramento a meu pai e ao taicum, que confirmou nosso feudo hereditário, primeiro a meu pai, depois a mim. O taicum confirmou a posse de Izu a mim e a meus sucessores para sempre. Ele era nosso suserano e jurei nunca aceitar outro até que seu herdeiro atingisse a maioridade.
Hiromatsu torceu ligeiramente a espada na mão. Por que Toranaga não me deixa acabar com isto de uma vez por todas? Foi combinado. Por que toda essa conversa cansativa? Estou com dores, com vontade de urinar e preciso me deitar.
Toranaga coçou a virilha.
- O que Ishido lhe ofereceu?
- A cabeça de Jikkyu... no momento em que a sua tiver rolado. E a província dele.
- Em troca de quê?
- De apoio, quando a guerra começar. Atacar o seu flanco meridional.
- Você aceitou?
- O senhor me conhece muito bem.
Os espiões de Toranaga na casa de Ishido haviam sussurrado que o acordo estava selado, e que incluía responsabilidade pelo assassinato de seus três filhos, Noboru, Sudara e Naga.
- Nada mais? Só apoio?
- Por todos os meios à minha disposição - disse Yabu delicadamente.
- Incluindo assassinato?
- Quando a guerra começar, pretendo combater com toda a minha força. Pelo meu aliado. Do modo que eu puder para garantir-lhe o êxito. Precisamos de um regente único durante a minoridade de Yaemon. A guerra entre o senhor e Ishido é inevitável. É o único jeito.
Yabu estava tentando ler a mente de Toranaga. Desprezava a indecisão de Toranaga, sabendo que ele mesmo era o homem melhor, que Toranaga precisava do seu apoio, que finalmente ele o derrotaria. Mas enquanto isso o que fazer? perguntou a si mesmo, e desejou que Yuriko estivesse ali para orientá-lo. Ela saberia o rumo mais prudente.
- Posso ser muito útil ao senhor. Posso ajudá-lo a tornar-se regente único - disse, decidindo jogar.
- Por que deveria eu querer me tornar regente único?
- Quando Ishido atacar, posso ajudar a vencê-lo. Quando ele quebrar a paz - disse Yabu.
- Como?
Ele lhes contou o plano com os canhões.
- Um regimento de quinhentos samurais-armas? – explodiu Hiromatsu.
- Sim. Pense no poder de artilharia. Todos homens de elite, treinados para agir como um homem só. Os vinte canhões igualmente juntos.
- É um mau plano. Péssimo - disse Hiromatsu. - Nunca se poderia mantê-lo em segredo. Se começarmos, o inimigo também começará. Nunca haveria um término para tal horror. Não há honra nisso e não há futuro.
- Esta guerra que se aproxima não é a única em que estamos interessados, Senhor Hiromatsu? - replicou Yabu. - Não estamos preocupados apenas com a segurança do Senhor Toranaga? Não é esse o dever de seus aliados e vassalos?
- Sim.
- Tudo o que o Senhor Toranaga tem que fazer é vencer a grande batalha. Isso lhe dará a cabeça de todos os seus inimigos - e o poder. Digo que essa estratégia lhe dará a vitória.
- Eu digo que não. É um plano nojento, sem honra.
Yabu voltou-se para Toranaga.
- Uma nova era requer que se tenha pensamento claro sobre o significado de honra.
Uma gaivota passou-lhes acima da cabeça grasnando.
- O que disse Ishido sobre o seu plano? – perguntou Toranaga.
- Não o discuti com ele.
- Por quê? Se considera seu plano valioso para mim, seria igualmente valioso para ele. Talvez até mais.
- O senhor me deu um amanhecer. Não é um camponês como Ishido. É o líder mais sábio e experimentado do império.
Qual será a verdadeira razão? Estava se perguntando Toranaga. Ou será que você também contou a Ishido?
- Se esse plano fosse adotado, os homens seriam metade seus e metade meus?
- Combinado. Eu os comandaria.
- Meu designado seria o segundo em comando?
- Combinado. Eu precisaria do Anjin-san para treinar os meus homens com as armas e os canhões.
- Mas ele seria minha propriedade permanente, você o trataria como faria com o herdeiro? Seria totalmente responsável por ele e agiria com ele precisamente como eu dissesse?
- Combinado.
Toranaga observou as nuvens carmesins um instante. Esse plano é um completo absurdo, pensou. Terei que declarar Céu Carmesim eu mesmo e arremeter sobre Kyoto à testa de todas as minhas legiões. Com mil homens contra dez vezes esse número.
- Quem será o intérprete? Não posso destacar Toda Mariko-san para sempre.
- Por algumas semanas, senhor? Verei que o bárbaro aprenda a nossa língua.
- Isso levaria anos. Os únicos bárbaros que jamais a dominaram foram os padres cristãos, neh? Gastaram anos. Tsukku-san está aqui há quase trinta anos, neh? Ele não aprenderá rápido o bastante, pelo menos não mais depressa do que poderíamos aprender as abomináveis línguas deles.