- Ele está sozinho? - perguntou.
- Não, não está, Martim - disse o Padre Soldi. Era um homem pequeno, benevolente, marcado de varíola, proveniente de Nápoles, secretário do padre-lnspetor há quase trinta anos, vinte e cinco dos quais na Ásia. - O Capitão-Mor Ferreira está com Sua Eminência. Sim, o pavão está com ele. Mas Sua Eminência disse que você devia entrar imediatamente. O que houve de errado, Martim?
- Nada.
Soldi grunhiu e voltou à sua ocupação de apontar o cálamo. - "Nada", disse o sábio padre. Bem, ficarei sabendo bem depressa.
- Sim - disse Alvito, que gostava do velho. Encaminhou-se para a porta. Um fogo de lenha ardia sobre uma grelha, iluminando a bela mobília pesada, envelhecida pelo tempo e brilhando de polida e bem cuidada. Um pequeno Tintoretto - uma Nossa Senhora com a criança - que o padre-lnspetor trouxera consigo de Roma, e que sempre agradara a Alvito, pendia acima da lareira.
- Viu o inglês novamente? - disse o Padre Soldi atrás dele.
Alvito não respondeu. Bateu na porta.
- Entre.
Cario dell'Aqua, padre-lnspetor da Ásia, representante pessoal do geral dos jesuítas, o jesuíta mais graduado, e portanto o homem mais poderoso na Asia, também era o mais alto. Media seis pés e três polegadas, com um físico proporcional. Seu manto era laranja, e a cruz magnífica. Era tonsurado, tinha cabelo branco, sessenta e um anos e era napolitano de nascimento.
- Ah, Martim, entre, entre. Vinho? - disse ele, falando português com uma maravilhosa fluidez italiana. - Viu o inglês?
- Não, Eminência. Apenas Toranaga.
- Foi mal?
- Sim.
- Aceita um pouco de vinho?
- Obrigado.
- Quão mal? - perguntou Ferreira. O soldado estava sentado ao lado do fogo na cadeira de couro e encosto alto, tão orgulhoso e colorido quanto um falcão - o fidalgo, o capitão-mor da Nao del Trato, o Navio Negro daquele ano. Estava com seus trinta e poucos anos, era magro, baixo e temível.
- Acho que muito mal, capitão-mor. Por exemplo, Toranaga disse que a questão do comércio deste ano podia esperar.
- É óbvio que o comércio não pode esperar, nem eu - disse Ferreira. - Vou levantar ferros com a maré. Pensei que estivesse tudo combinado há meses. - Mais uma vez Ferreira amaldiçoou os regulamentos japoneses que exigiam que toda a navegação, mesmo a deles, tivesse licenças de entrada e saída.
- Não deveríamos ser obrigados a acatar estúpidos regulamentos nativos. O senhor disse que esse encontro era uma mera formalidade, para apresentar os documentos.
- Deveria ter sido, mas me enganei. Talvez seja melhor que eu explique...
- Tenho que regressar a Macau imediatamente para preparar o Navio Negro. Já adquiri um milhão de ducados das melhores sedas na feira de Cantão em fevereiro, e estaremos carregando no mínimo cem mil onças de ouro chinês. Pensei ter deixado claro que cada centavo de Macau, Malaca e Goa, e cada centavo que os comerciantes e edis de Macau podem emprestar está investido na especulação deste ano. E cada centavo dos senhores.
- Estamos tão conscientes dessa importância quanto o senhor - disse Dell'Aqua enfaticamente.
- Sinto muito, capitão-mor, mas Toranaga é o presidente do conselho de regentes e é costume dirigirmo-nos a ele - disse Alvito. - Ele não discutiria o comércio deste ano nem as suas autorizações. Inicialmente disse que não aprova assassinato.
- Quem aprova, padre? - disse Ferreira.
- Do que é que Toranaga está falando, Martim? - perguntou Dell'Aqua. - Isso é algum estratagema? Assassinato? O que isso tem a ver conosco?
- O que ele disse foi: "Por que vocês, cristãos, quereriam assassinar o meu prisioneiro, o piloto?"
- O quê?
- Toranaga acredita que o atentado da noite passada foi contra o inglês, não contra ele. Também diz que houve outro atentado na prisão. - Alvito mantinha os olhos fixos no soldado.
- Do que me acusa, padre? - disse Ferreira. - De uma tentativa de assassinato? A mim? No Castelo de Osaka? Esta é a primeira vez que venho ao Japão!
- O senhor nega qualquer conhecimento do assunto?
- Não nego que quanto mais depressa o herege estiver morto, melhor - disse Ferreira friamente. - Se os holandeses e os ingleses começarem a disseminar sua imundície pela Ásia, estaremos enrascados. Todos nós.
- Já estamos enrascados - disse Alvito. - Toranaga começou dizendo que tomou conhecimento, através do inglês, de que lucros incríveis estão sendo obtidos pelo monopólio português do comércio com a China, que os portugueses aumentam de modo exorbitante o preço das sedas que apenas eles, portugueses, podem comprar na China, pagando por elas a única mercadoria que os chineses aceitam em troca: a prata japonesa - cujo preço, novamente, os portugueses cotam de modo igualmente ridículo. Toranaga disse: "Como existe hostilidade entre a China e o Japão e todo o comércio direto entre nós é proibido, e só os portugueses têm permissão para realizá-lo, a acusação de `usura', feita pelo piloto, deve ser formalmente respondida - por escrito - pelos portugueses". Ele o "convida", Eminência, a fornecer aos regentes um relatório sobre todo o intercambio - prata contra seda, seda contra prata, ouro contra prata. Acrescentou que não se opõe, naturalmente, a que tenhamos grandes lucros, desde que provenham dos chineses.
- O senhor certamente ignorará essa solicitação arrogante - disse Ferreira.
- É muito difícil.
- Então providencie um falso relatório.
- Isso colocaria em risco toda a nossa posição, que está baseada sobre a confiança - disse Dell'Aqua.
- O senhor consegue confiar num japonês? Claro que não! Nossos lucros devem permanecer secretos. Aquele maldito herege!
- Lamento dizer que Blackthorne parece estar particularmente bem informado. - Alvito olhou involuntariamente para Dell'Aqua, relaxando a própria vigilância por um momento.
O padre-lnspetor não disse nada.
- O que mais disse o japonês? - perguntou Ferreira, fingindo não ter notado o olhar trocado entre os dois e desejando estar a par de toda a extensão do conhecimento deles.
- Toranaga me pediu que lhe forneça, amanhã, ao meio-dia, um mapa do mundo que mostre as linhas de demarcação entre Portugal e Espanha, o nome dos papas que aprovaram os tratados, e as datas. Dentro de três dias, "solicita" uma explanação escrita sobre as nossas "conquistas" no Novo Mundo e, "puramente por interesse meu", foram as suas palavras, o montante de ouro e prata levado - ele na realidade usou o termo de Blackthorne, "pilhado" - levado do Novo Mundo para a Espanha e Portugal. Também solicita outro mapa, que mostre a extensão do império espanhol e do português há cem anos atrás, há cinqüenta anos, e atualmente, juntamente com as posições exatas das nossas bases desde Malaca até Goa - aliás, ele as citou uma a uma com precisão; os nomes estavam escritos num pedaço de papel - e também o número de mercenários japoneses empregados por nós em cada uma das bases.
Dell'Aqua e Ferreira estavam atônitos.
- Isso deve ser categoricamente recusado - trovejou o soldado.
- Não se recusa nada a Toranaga - disse Dell'Aqua.
- Acho, Eminência, que o senhor dá crédito excessivo à importância dele - disse Ferreira. - Parece que esse Toranaga é apenas outro déspota entre muitos, apenas outro pagão homicida, que certamente não é para ser temido. Recuse. Sem o nosso Navio Negro, toda a economia deles entra em colapso. Estão implorando pelas nossas sedas chinesas. Sem seda não haveria mais quimonos. Precisam do nosso comércio. Que Toranaga se dane. Podemos negociar com os reis cristãos - como se chamam, mesmo? Onoshi e Kiyama - e os outros reis cristãos de Kyushu. Afinal, Nagasaki fica lá, nós estamos maciçamente lá, e é lá que acontece o comércio.
- Não podemos, capitão - disse Dell'Aqua. - Esta é sua primeira visita ao Japão, por isso não tem idéia de nossos problemas aqui. Sim, eles precisam de nós, mas nós precisamos deles mais ainda. Sem o favor de Toranaga - ou de Ishido - perderemos a influência sobre os reis cristãos. Perderemos Nagasaki e tudo o que construímos no decorrer de cinqüenta anos. O senhor precipitou o atentado contra o piloto herege?