Выбрать главу

- Eu disse abertamente a Rodrigues, e a qualquer um que quisesse ouvir, logo de início, que o inglês era um pirata perigoso que contaminaria qualquer pessoa com quem entrasse em contato, e que, por isso, devia ser eliminado de qualquer modo possível. O senhor disse o mesmo com palavras diferentes, Eminência. E o senhor também, Padre Alvito. A questão não surgiu na nossa reunião com Onoshi e Kiyama há dois dias? O senhor não disse que esse pirata era perigoso?

- Sim, mas...

- Padre, o senhor me perdoará, mas às vezes é necessário que os soldados façam o trabalho de Deus da melhor maneira que podem. Devo dizer-lhes que fiquei furioso com Rodrigues por não haver criado um "acidente" durante a tempestade. Ele, dentre todos os outros, devia saber disso! Pelo corpo de Cristo, olhe o que esse inglês diabólico já fez ao próprio Rodrigues. O pobre imbecil está grato a ele por lhe ter salvado a vida, quando esse é o truque mais óbvio do mundo para ganhar-lhe a confiança. Rodrigues não foi logrado a ponto de permitir ao piloto herege usurpar-lhe o tombadilho, certamente quase lhe causando a morte? Quanto ao atentado no castelo, quem sabe o que aconteceu? Deve ter sido ordenado por um nativo, é um truque japonês. Não estou triste por terem tentado, só desgostoso por haverem falhado. Quando eu tratar da eliminação dele, o senhor pode ficar tranqüilo de que ele será eliminado.

Alvito tomou um gole de vinho.

- Toranaga disse que estava mandando Blackthorne para Izu.

- A península a leste? - perguntou Ferreira.

- Sim.

- Por terra ou de navio?

- De navio.

- Ótimo. Então lamento dizer-lhes que todos os marinheiros podem se perder ao mar, numa lamentável tempestade.

- E eu lamento dizer-lhe, capitão-mor - retrucou Alvito friamente -, que Toranaga disse: "Vou colocar uma guarda pessoal em torno do piloto, Tsukku-san, e se algum acidente lhe ocorrer será investigado até o limite do meu poder e do poder dos regentes, e se por acaso o responsável for um cristão, ou qualquer pessoa remotamente associada aos cristãos, é absolutamente possível que os editos de expulsão sejam reexaminados e muito possível que todas as igrejas, escolas e albergues cristãos sejam imediatamente fechados".

- Deus impeça que isso aconteça - disse Dell'Aqua.

- Blefe - zombou Ferreira.

- Não, está enganado, capitão-mor. Toranaga é tão esperto quanto um Maquiavel, e tão inclemente quanto Atila, o Huno. - Alvito olhou para Dell'Aqua. - Seria fácil nos acusar se alguma coisa acontecesse ao inglês.

- Sim.

- Talvez o senhor devesse ir à fonte de seus problemas - disse Ferreira bruscamente. - Elimine Toranaga.

- Isto não é hora para piadas - disse o padre-lnspetor.

- O que funcionou brilhantemente na Índia e na Malásia, no Brasil, no Peru, no México, na África, e em toda parte, funcionará aqui. Fiz isso pessoalmente em Malaca e em Goa uma dúzia de vezes, com a ajuda de mercenários japoneses, e não tinha nem de longe a sua influência e conhecimento. Usaremos os reis cristãos. Ajudaremos um deles a eliminar Toranaga, se é ele o problema. Algumas centenas de conquistadores seriam suficientes. Divida e reine. Abordarei Kiyama. Padre Alvito, o senhor traduzirá...

- O senhor não pode comparar japoneses com índios ou com selvagens incultos como os incas. Não pode dividir e reinar aqui. O Japão é diferente de qualquer outra nação. Completamente - disse Dell'Aqua, fatigado. - Devo pedir-lhe formalmente, capitão-mor, que não interfira na política interna deste país.

- Concordo. Por favor, esqueça o que eu disse. Foi indelicado e ingênuo falar tão abertamente. Felizmente as tempestades são fato normal nesta época do ano.

- Se ocorrer uma tempestade, será pela mão de Deus. Mas o senhor não atacará o piloto.

- Oh?

- Não. Nem ordenará a ninguém que o faça.

- Sou orientado pelo meu rei para destruir os seus inimigos. O inglês é um inimigo nacional. Um parasita, um pirata, um herege. Se resolver eliminá-lo, será assunto meu. Sou capitão-mor do Navio Negro deste ano, portanto governador de Macau neste ano, com poderes vice-reais sobre estas águas neste ano, e se quiser eliminá-lo, ou a Toranaga ou a quem quer que seja, eu o farei.

- Então fará isso indo contra as minhas ordens diretas e portanto correrá o risco de excomunhão imediata.

- Isto está além da sua jurisdição. Trata-se de assunto temporal, não espiritual.

- A posição da Igreja aqui está, lamentavelmente, tão interligada com a política e com o comércio de seda, que tudo lhe toca a segurança. E enquanto eu viver, pela minha espera de salvação, ninguém colocará em risco o futuro da Madre Igreja aqui!

- Obrigado por ser tão explícito. Vou me empenhar por me informar melhor sobre assuntos japoneses.

- Sugiro que faça isso, por amor a todos nós. O cristianismo é tolerado aqui somente porque todos os daimios acreditam cabalmente que se nos expulsarem e arrasarem a fé, o Navio Negro nunca voltará. Nós, jesuítas, somos procurados e temos alguma influência apenas porque só nós falamos japonês e português e podemos traduzir e interceder por eles em questões de comércio. Infelizmente para a fé, isso no que eles crêem não é verdade. Estou certo de que o comércio continuaria, independentemente da nossa posição e da posição da Igreja, porque os comerciantes portugueses estão mais preocupados com seus próprios interesses egoístas do que com o serviço a Nosso Senhor.

- Talvez sejam igualmente evidentes os interesses egoístas de clérigos que desejam nos forçar - a ponto de pedirem a Sua Santidade os poderes legais para isso - a atracar no porto que escolherem e comerciar com o daimio que preferirem, independentemente dos riscos!

- Esquece de si mesmo, capitão-mor!

- Não me esqueço de que o Navio Negro do ano passado se perdeu entre o Japão e Malaca com todos os homens a bordo, com mais de duzentas toneladas de ouro a bordo e quinhentos mil cruzados em prata, depois de ser desnecessariamente adiado para a estação do mau tempo por causa das suas solicitações pessoais. Ou que essa catástrofe quase arruinou todo mundo daqui a Goa.

- Foi necessário por causa da morte do taicum e da política interna de sucessão.

- Não me esqueço de que o senhor pediu ao vice-rei de Goa que cancelasse o Navio Negro três anos atrás, para enviá-lo apenas quando o senhor dissesse, ao porto que o senhor escolhesse, nem de que ele rejeitou o pedido, vendo-o como uma interferência arrogante.

- Isso foi para dobrar o taicum, para causar-lhe uma crise econômica em meio à sua estúpida guerra contra a Coréia e a China. Foi por causa dos martírios de Nagasaki que ele havia ordenado, por causa do seu ataque insano à Igreja e dos editos de expulsão que ele publicara, expulsando-nos a todos do Japão. Se os senhores cooperassem conosco, se seguissem os nossos conselhos, o Japão inteiro seria cristão numa única geração! O que é mais importante: o comércio ou a salvação das almas?

- Minha resposta é almas. Mas já que o senhor me esclareceu sobre assuntos japoneses, deixe-me colocá-los na perspectiva correta. Só a prata japonesa torna acessíveis a seda chinesa o ao ouro chinês. Os imensos lucros que auferimos e exportamos para Malaca e Goa e depois para Lisboa sustentam todo o nosso império asiático, todos os fortes, todas as missões, todas as expedições, todos os missionários, todas as descobertas, e pagam a maioria, se não todos, dos nossos compromissos europeus, impedem os hereges de nos aniquilar e os mantêm longe da Ásia, que lhes proporcionaria toda a riqueza de que necessitam para nos destruir, o à fé. O que é mais importante, padre: a cristandade espanhola, portuguesa e italiana, ou a cristandade japonesa?

Dell'Aqua cravou os olhos no soldado: