- De uma vez por todas, o-senhor-não-se-envolverá-em-política-lnterna-aqui!
Uma brasa caiu do fogo e rolou sobre o tapete. Ferreira, que estava mais perto, chutou-a de volta.
- E se devo ser... ser dobrado, o que o senhor propõe que se faça com relação ao herege? Ou a Toranaga?
Dell'Aqua sentou-se, acreditando ter vencido.
- Não sei, no momento. Mas o simples fato de pensar em eliminar Toranaga é ridículo. Ele nos vê com muita simpatia, e à idéia de aumentar o comércio - sua voz tornou-se mais fraca -, e, em conseqüência, aumentar os seus lucros.
- E os seus - disse Ferreira, tomando os freios novamente.
- Nossos lucros estão comprometidos com a obra de Nosso Senhor. Como o senhor bem sabe. - Dell'Aqua cansadamente verteu um pouco de vinho e ofereceu-o, para apaziguá-lo. - Vamos, Ferreira, não discutamos assim. Esse negócio do herege... é terrível, sim. Mas discutir não serve para nada. Precisamos do seu conselho, dos seus miolos e da sua força. Pode acreditar em ruim: Toranaga é vital para nós. Sem ele para refrear os outros regentes, este país inteiro recairá na anarquia.
- Sim, é verdade, capitão-mor - disse Alvito. - Mas não compreendo por que ele continua no castelo e concordou com um adiamento da reunião. É incrível, mas ele parece ter sido sobrepujado. Deve saber com certeza que Osaka é mais fechada do que o cinto de castidade de um cruzado ciumento. Ele devia ter partido há dias.
- Se ele é vital - disse Ferreira -, por que apoiar Onoshi o Kiyama? Esses dois não se alinharam com Ishido, contra Toranaga? Por que o senhor não os aconselha em contrário? Discutiuse o assunto há apenas dois dias.
- Eles nos comunicaram sua decisão, capitão. Não a discutimos.
- Então talvez devesse ter discutido, Eminência. Se é tão importante, por que não demovê-los? Com uma ameaça de excomunhão?
Dell'Aqua suspirou.
- Gostaria que fosse tão simples. Não se fazem coisas assim no Japão. Eles abominam interferência externa nos seus assuntos internos. Mesmo uma sugestão de nossa parte tem que ser oferecida com uma delicadeza extrema.
Ferreira esvaziou a taça de prata, serviu-se de mais um pouco de vinho e se acalmou, sabendo que precisava dos jesuítas a seu lado, que sem eles como intérpretes estaria desamparado. Você tem que tornar esta viagem um êxito, disse a si mesmo. Você pelejou e suou durante onze anos a serviço do rei para merecer, com justiça - vinte vezes mais -, o mais rico prêmio que ele tinha ao alcance para conceder-lhe: o comando supremo do Navio Negro por um ano e a décima parte do que acompanha essa honra, um décimo de toda a seda, todo o ouro, toda a prata, o de todo o lucro decorrente de cada transação. Você está rico para o resto da vida agora, por trinta vidas, se as tivesse, tudo por causa desta única viagem. Se você a realizar. A mão de Ferreira foi para o punho do florete, para a cruz que fazia parte da filigrana de prata.
- Pelo sangue de Cristo, o meu Navio Negro zarpará no prazo de Macau para Nagasaki e depois o navio do tesouro mais rico da história rumará para o sul com a monção em novembro, para Goa, e em seguida para casa! Como Cristo é meu juiz, é isso o que vai acontecer. - E acrescentou em silêncio: nem que eu tenha que queimar o Japão inteiro, toda Macau e toda a China para fazê-lo, por Nossa Senhora!
- Nossas preces estão com o senhor, claro que estão - retrucou Dell'Aqua, falando sinceramente. - Sabemos da importância da sua viagem.
- Então o que sugere? Sem autorizações e salvo-condutos para comerciar, estou de mãos atadas. Não podemos evitar os regentes? Talvez haja outro meio?
Dell'Aqua meneou a cabeça.
- Martim? Você é o nosso perito em comércio.
- Sinto muito, mas não é possível - disse Alvito. Ouvira a acalorada discussão com uma indignação crescente. Criatura grosseira, arrogante, bastardo cretino, pensara; depois, imediatamente, ó Deus, dê-me paciência, pois sem este homem e os outros como ele a Igreja morrerá aqui. - Estou certo de que dentro de um ou dois dias, capitão-mor, estará tudo resolvido. Uma semana, no máximo. Toranaga tem problemas muito especiais no momento. Dará tudo certo, tenho certeza.
- Esperarei uma semana. E só. - A ameaça subjacente no tom de Ferreira era assustadora. - Gostaria de pôr as mãos naquele herege. Eu lhe arrancaria a verdade. Toranaga disse alguma coisa sobre a suposta esquadra? Uma esquadra inimiga?
- Não.
- Gostaria de saber a verdade sobre isso, porque o meu navio virá chafurdando como um porco cevado, os porões abarrotados com mais seda do que jamais se enviou de uma só vez. Somos um dos maiores navios do mundo, mas não tenho escolta, de modo que se uma única fragata inimiga se dispusesse a nos capturar ao mar - ou aquela prostituta holandesa, o Erasmus - estaríamos à sua mercê. Ela me faria arriar a bandeira imperial de Portugal sem dificuldade alguma. O melhor é que esse inglês não se faça ao mar com seu navio, com atiradores, canhões e munição a bordo.
- É vero, é solamente vero - murmurou Dell'Aqua.
Ferreira terminou o vinho.
- Quando é que Blackthorne será enviado a Izu?
- Toranaga não disse - replicou Alvito. - Tenho a impressão de que será em breve.
- Hoje?
- Não sei. Os regentes devem se reunir dentro de quatro dias. Imagino que seja depois disso.
- Ninguém deve se intrometer com Blackthorne - disse Dell'Aqua lentamente. - Nem com ele nem com Toranaga.
Ferreira levantou-se.
- Volto ao meu navio. Jantam conosco? Os dois? Ao pôr-do-sol? Teremos um frango excelente, um pernil, um madeira e até pão fresco.
- Obrigado, o senhor é muito gentil. - Dell'Aqua animou-se ligeiramente. - Sim, será maravilhoso comer uma boa comida novamente. O senhor é muito gentil.
- Será informado assim que eu tiver notícias de Toranaga, capitão-mor - disse Alvito.
- Obrigado.
Quando'Ferreira saiu e o padre-lnspetor teve certeza de que ele e Alvito não podiam ser ouvidos, perguntou ansiosamente:
- Martim, o que mais Toranaga disse?
- Quer uma explicação por escrito do incidente do transporte de armas e da requisição de conquistadores.
- Mamma mia...
- Toranaga estava cordial, até gentil, mas... bem, eu nunca o vi assim antes.
- O que foi que disse, exatamente?
- "Tomei conhecimento, Tsukku-san, de que o chefe anterior da sua ordem de cristãos, Padre da Cunha, escreveu aos governadores de Macau, Goa e ao vice-rei espanhol de Manila, Don Sisco y Vivera, em julho de 1588, pelo seu calendário, pedindo uma invasão de centenas de soldados espanhóis armados para apoiar alguns daimios cristãos numa rebelião que o chefe cristão estava tentando incitar contra seu suserano legal, meu falecido amo, o taicum. Quais são os nomes desses daimios? É verdade que não se enviaram soldados, mas vasta quantidade de armas foi contrabandeada de Macau para Nagasaki sob sigilo cristão? É verdade que o Padre-Gigante secretamente apreendeu essas armas quando voltou ao Japão pela segunda vez, na qualidade de embaixador de Goa, em março ou abril de 1590, e secretamente as contrabandeou de Nagasaki no navio português Santa Cruz, de volta a Macau?" - Alvito enxugou o suor das mãos.
- Disse mais alguma coisa?
- Não de importância, Eminência. Não tive chance de explicar, ele me dispensou imediatamente. A dispensa foi cortês, mas foi uma dispensa.
- De onde é que esse maldito inglês está obtendo informações?
- Gostaria de saber.
- Essas datas e nomes. Você não está enganado? Ele as disse exatamente assim?
- Não, Eminência. Os nomes estavam escritos num pedaço de papel. Ele me mostrou.
- Letra de Blackthorne?
- Não. Os nomes estavam escritos foneticamente em japonês, em hiragana.
- Temos que descobrir quem está traduzindo para Toranaga. Essa pessoa deve ser surpreendentemente boa. Certamente nenhum dos nossos? Não pode ser o Irmão Manuel, pode? - perguntou asperamente, usando o nome de batismo de Masamanu Jiro. Jiro era filho de um samurai cristão, que fora educado pelos jesuitas desde a infância e, sendo inteligente e devoto, selecionado no seminário a ser treinado para se tornar um padre completo, com os quatro votos, com os quais ainda não havia nenhum japonês. Jiro estivera com a Companhia durante vinte anos, depois, inacreditavelmente, partira antes de ser ordenado e agora era um violento antagonista da Igreja.