- Não. Manuel ainda está em Kyushu, possa ele arder no inferno para sempre. Continua sendo um violento inimigo de Toranaga, nunca o ajudaria. Felizmente ele nunca compartilhou segredos políticos. A intérprete foi a Senhora Maria - disse Alvito, usando o nome batismal de Toda Mariko.
- Toranaga lhe disse isso?
- Não, Eminência. Mas aconteceu de eu saber que ela está visitando o castelo, e foi vista com o inglês.
- Tem certeza?
- Nossa informação é absolutamente exata.
- Bom - disse Dell'Aqua. - Talvez Deus esteja nos ajudando do seu modo inescrutável. Mande buscá-la imediatamente.
- Já estive com ela. Dei um jeito de encontrá-la por acaso. Foi encantadora como sempre, respeitosa, piedosa como sempre, mas disse enfaticamente antes que eu tivesse uma oportunidade de interrogá-la: "Naturalmente, o império é uma terra muito particular, padre, e algumas coisas, por costume, devem permanecer muito em particular. Acontece o mesmo em Portugal, e dentro da Companhia de Jesus?"
- Você é o confessor dela.
- Sim. Mas ela não dirá nada.
- Por quê?
- Ela foi claramente prevenida e proibida de discutir o que aconteceu e o que foi dito. Conheço-os bem demais. Nisso a influência de Toranaga seria maior do que a nossa.
- A fé que ela tem é tão pequena? A educação que recebeu foi tão ineficaz? Certamente que não. É tão devota e tão boa cristã quanto qualquer mulher que eu já conheci. Um dia se tornará, talvez, até a primeira abadessa japonesa.
- Sim. Mas agora não dirá nada.
- A Igreja está em perigo. Isso é importante, talvez importante demais - disse Dell'Aqua. - Ela compreenderia. É inteligente demais para não entender.
- Imploro-lhe que não lhe ponha a fé à prova nessa questão. Nós perderíamos. Ela me preveniu. Foi o que me disse, tão claramente quanto se estivesse escrito.
- Talvez fosse bom pô-la à prova. Pela sua própria salvação.
- Ordenar isso ou não depende do senhor. Mas receio que ela obedeça a Toranaga, Eminência, e não a nós.
- Pensarei sobre Maria. Sim - disse Dell'Aqua. Deixou o olhar vagar sobre o fogo, o peso do seu posto esmagando-o. Pobre Maria. Aquele maldito herege. Como evitarmos a armadilha? Como dissimular a verdade sobre as armas? Como pôde um padre-superior e vice-provincial como Da Cunha, que era tão bem treinado, tão experimentado, com sete anos de conhecimento prático em Macau e no Japão, cometer um erro tão terrível?
- Como? - perguntou às chamas.
Conheço a resposta, disse a si mesmo. É fácil demais. A pessoa entra em pânico ou esquece a glória de Deus, ou torna-se orgulhosa ou arrogante ou estupidificada. Quem, sob as mesmas circunstâncias, talvez, não cometeria o mesmo erro? Ser recebido pelo taicum ao crepúsculo com distinção, um encontro triunfal com pompa e cerimônia - quase como um ato de contrição do taicum, que estava aparentemente a ponto de converter-se. E depois ser despertado no meio da mesma noite com os editos de expulsão, decretando que todas as ordens religiosas deviam deixar o Japão dentro de vinte dias sob pena de morte, para nunca mais voltar e, pior ainda, que todos os convertidos japoneses, no país inteiro, eram obrigados a abjurar imediatamente ou seriam exilados ou condenados à morte.
Levado pelo desespero, o superior impensadamente aconselhara os daimios cristãos de Kyushu - Onoshi, Misaki, Kiyama, e Harima de Nagasaki - a se rebelarem para salvar a Igreja, e escrevera freneticamente, pedindo conquistadores para dar reforço à revolta.
O fogo crepitou e dançou na grelha de ferro. Sim, tudo verdade, pensou Dell'Aqua. Se ao menos eu tivesse sabido, se ao menos Da Cunha me tivesse consultado antes... Mas como poderia ele? Leva seis meses para enviar uma carta a Goa e talvez outros seis meses para que outra carta chegue, e Da Cunha escreveu imediatamente, mas era o superior, tinha poder de iniciativa e precisava enfrentar a calamidade de imediato.
Embora Dell'Aqua tivesse zarpado imediatamente ao receber a carta, com credenciais de embaixador fornecidas às pressas pelo vice-rei de Goa, levara meses para chegar a Macau, apenas para ser informado de que Da Cunha morrera, e que ele e todos os padres estavam proibidos de entrar no Japão sob pena de morte.
Mas as armas já haviam partido.
Então, dez semanas depois, chegaram as notícias de que a Igreja não fora arrasada no Japão, que o taicum não estava pondo em prática suas novas leis. Apenas meia centena de igrejas tinham sido queimadas. Apenas Takayama fora esmagada. E correu o boato de que, embora os editos oficialmente permanecessem em vigor, o taicum agora estava preparado para permitir que as coisas fossem como eram, desde que os padres fossem muito mais discretos nas suas conversões, seus convertidos mais discretos e mais bem-comportados, e que não houvesse mais ruidosos cultos ou demonstrações públicas, nem queima de igrejas budistas por fanáticos.
Então, quando a provação pareceu prestes a terminar, Del1'Aqua lembrara-se de que as armas haviam partido semanas antes, com a autorização do superior, Padre da Cunha, e que ainda permaneciam nos depósitos jesuíticos de Nagasaki.
Seguiram-se mais semanas de agonia até que as armas fossem secretamente contrabandeadas de volta a Macau - sim, sob a minha responsabilidade desta vez, lembrou-se Dell'Aqua, com a esperança de que o segredo permanecesse enterrado para sempre. Mas esses segredos nunca nos deixam em paz, apesar do muito que se queira ou que se reze.
Qual será a extensão do conhecimento do herege?
Por mais de uma hora, Sua Eminência, sentado imóvel na sua cadeira de couro e encosto alto, contemplou o fogo sem o ver. Alvito esperou pacientemente perto da estante de livros, com as mãos no colo. Raios de sol dançavam sobre o crucifixo de prata na parede atrás do padre-lnspetor. Numa parede lateral estava um pequeno óleo do pintor veneziano Ticiano, que Del1'Aqua comprara na juventude em Pádua, para onde fora enviado pelo pai para estudar direito. Na outra parede alinhavam-se suas bíblias e seus livros, em latim, português, italiano e espanhol. E, da impressora de tipo móvel da Companhia em Nagasaki que ele mandara vir a um custo tão elevado de Goa há dez anos, duas prateleiras de livros e panfletos japoneses: livros religiosos o catecismos de todo tipo, traduzidos com esmero para o japonês pelos jesuítas; obras adaptadas do japonês para o latim, a fim de ajudar os acólitos japoneses a aprender a língua; e por último, dois livrinhos que não tinham preço: a primeira gramática de português-japonês, o trabalho da vida do Padre Sancho Alvarez, impressa seis anos antes, e seu companheiro, o inacreditável dicionário de português-latim-japonês, impresso no ano anterior em caracteres romanos e em hiragana. Fora iniciado por ordem de Dell'Aqua, vinte anos atrás, o primeiro dicionário de palavras japonesas jamais compilado.
O Padre Alvito pegou o livro e o acariciou afetuosamente. Sabia que se tratava de uma obra de arte única. Fazia oito anos que ele mesmo compilava um trabalho assim, ainda longe de estar terminado. Mas o dele seria um dicionário com explicações suplementares e muito mais pormenorizado - quase uma introdução ao Japão e aos japoneses -, e sabia, sem vaidade, que se conseguisse terminá-lo, seria uma obra-prima em comparação ao trabalho do Padre Alvarez, que se seu nome devesse ser lembrado seria por causa do livro e do padre-lnspetor, que era o único pai que ele jamais conhecera.
- Quer sair de Portugal e juntar-se ao serviço de Deus, meu filho? - perguntara o gigante jesuíta no primeiro dia em que o vira.