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- Oh, sim, por favor, padre - respondera Alvito, espichando o pescoço para ele com uma ânsia desesperada.

- Que idade tem, meu filho?

- Não sei, padre, talvez dez, talvez onze, mas sei ler e escrever, o padre me ensinou, e sou só. Não tenho ninguém, não pertenço a ninguém...

Dell'Aqua o levara para Goa e depois para Nagasaki, onde ingressara no seminário da Companhia de Jesus, o mais jovem europeu na Ásia. Depois ocorreu o milagre do dom das línguas o postos de confiança como intérprete e conselheiro comercial, primeiro para Harima Tadao, daimio do feudo de Hizen, em Kyushu, onde ficava Nagasaki, e mais tarde, com o tempo, do próprio taicum. Fora ordenado e mais tarde atingira até o privilégio do quarto voto. Era o voto especial, além dos votos normais de pobreza, castidade e obediência, concedido apenas à elite dos jesuítas: o voto de obediência ao papa - para ser um instrumento pessoal seu, para a obra de Deus, para ir aonde o papa pessoalmente ordenasse e fazer o que ele pessoalmente desejasse; para tornar-se como pretendia o fundador da Companhia, o soldado basco Loyola, um dos Regimini Militantes Ecleshe, um dos soldados particulares especiais de Deus, a serviço do seu general eleito na Terra, o Vigário de Cristo.

Tive muita sorte, pensou Alvito. Ó Deus, ajude-me a ajudar.

Finalmente Dell'Aqua se levantou, espreguiçou-se e se dirigiu para a janela. O sol cintilava nas telhas douradas do imponente torreão central do castelo, a elegância da estrutura toda dissimulando sua força maciça. Torre do Demônio, pensou ele. Quanto tempo se erguerá aí para lembrar a cada um de nós? Faz só quinze... não, faz dezessete anos que o taicum pôs quatrocentos mil homens a construir e escavar, e sangrou o país para pagá-lo, o seu monumento, e então, em dois rápidos anos, o Castelo de Osaka foi terminado. Homem inacreditável! Povo inacreditável! Sim. E lá se ergue ele, indestrutível! Exceto para o dedo de Deus. Ele pode pô-lo abaixo num instante, se quiser. Ó Deus, ajude-me a fazer a sua vontade.

- Bem, Martim, parece que temos trabalho a fazer. - Dell'Aqua começou a andar de um lado para o outro, com a voz agora tão firme quanto o passo. - Quanto ao piloto inglês: se não o protegermos, será morto e correremos o risco do desfavor de Toranaga. Se dermos um jeito de protegê-lo ele logo enforcará a si mesmo. Mas ousaremos esperar? Sua presença é uma ameaça para nós e não há como predizer quanto dano ele pode causar antes dessa data feliz. Ou podemos ajudar Toranaga a eliminá-lo. Ou, por último, podemos convertê-lo.

Alvito piscou.

- O quê?

- Ele é inteligente, muito bem informado sobre o catolicismo. Muitos ingleses no íntimo não são católicos autênticos? A resposta é sim se o rei ou a rainha deles for católico, e não se for protestante. Os ingleses são negligentes sobre religião. São nossos adversários fanáticos no momento, mas isso não é devido à Armada? Talvez Blackthorne possa ser convertido. Essa seria a solução perfeita, para a glória de Deus, e salvaria a alma desse herege da danação, para onde ele certamente irá.

"Depois, Toranaga: daremos a ele os mapas que deseja. As explicações sobre `esferas de influência'. Não é para isso, na realidade, que as linhas de demarcação servem, para separar a influência dos portugueses e dos amigos espanhóis? Si é vero! Diga-lhe que quanto aos outros assuntos importantes, ficarei honrado em prepará-los pessoalmente para ele e os entregarei o mais breve possível. Como precisarei verificar os fatos em Macau, poderia ele, por favor, conceder um prazo razoável? E no mesmo tom diga-lhe que está encantado em lhe informar que o Navio Negro zarpará três semanas mais cedo, com a maior carga de seda e ouro que já houve, que a nossa parte da carga e ... ", ele pensou um momento, "e no mínimo trinta por cento de toda a carga serão vendidos através do intermediário indicado pessoalmente por Toranaga."

- Eminência, o capitão-mor não vai gostar de zarpar mais cedo e...

- Será responsabilidade sua conseguir de Toranaga a autorização para Ferreira. Vá vê-lo imediatamente com a minha resposta. Impressione-o com a nossa eficiência. Essa não é uma das coisas que ele admira? Com autorizações imediatas, Ferreira fará concessões quanto ao ponto secundário de chegar mais cedo na estação, e quanto ao intermediário, que diferença há, para o capitão-mor, entre um nativo e outro? Ele receberá sua porcentagem do mesmo jeito.

- Mas os senhores Onoshi, Kiyama e Harima geralmente dividem a corretagem da carga entre si. Não sei se concordarão.

- Então resolva o problema. Toranaga concordará com o adiamento em troca da concessão. As únicas concessões de que ele necessita são poder, influência e dinheiro. O que podemos lhe dar? Não podemos lhe entregar os daimios cristãos. Nós...

- Sim - disse Alvito.

- Ainda que pudéssemos, ainda não sei se devemos ou se o faremos. Onoshi e Kiyama são inimigos ferrenhos, mas juntaram-se contra Toranaga porque têm certeza de que ele destruiria a Igreja - e a eles - se algum dia conseguisse o controle do conselho.

- Toranaga apoiará a Igreja. Ishido é o nosso verdadeiro inimigo.

- Não compartilho da sua confiança, Martim. Não devemos nos esquecer de que, pelo fato de Onoshi e Kiyama serem cristãos, todos os seus seguidores são cristãos, às dezenas de milhares. Não podemos ofendê-los. A única concessão que podemos fazer a Toranaga é alguma coisa relacionada a comércio. Ele é fanático por comércio mas nunca tentou participar pessoalmente. Portanto o que sugiro talvez o tente a conceder um adiantamento que talvez possamos estender para um adiantamento permanente. Você sabe como os japoneses gostam dessa forma de solução - o grande bastão equilibrado, cujos dois lados fingem não existir, hem?

- Na minha opinião, é politicamente imprudente para o Senhor Onoshi e o Senhor Kiyama voltarem-se contra Toranaga nesta época. Deveriam seguir o velho provérbio de manter uma linha de retirada aberta, não? Eu poderia sugerir-lhes que um oferecimento a Toranaga de vinte e cinco por cento - de modo que cada um tivesse uma parte igual, Onoshi, Kiyama, Harima e Toranaga - seria uma pequena consideração para abrandar o impacto da sua aliança "temporária" com Ishido contra ele.

- Então Ishido os destruirá e nos odiará mais, quando descobrir.

- Ishido já nos detesta incomensuravelmente agora. Não confia neles mais do que eles confiam nele, e ainda não sabemos por que se puseram do seu lado. Com o acordo de Onoshi e Kiyama, nós colocaríamos formalmente a proposta, como se se tratasse meramente de uma idéia nossa, destinada a manter imparcialidade entre Ishido e Toranaga. Em particular, podemos informar Toranaga da generosidade deles.

Dell'Aqua considerou as virtudes e os defeitos do plano.

- Excelente - disse afinal. - Ponha isso em prática. Agora, quanto ao herege. Entregue os portulanos dele a Toranaga hoje. Volte a Toranaga imediatamente. Diga-lhe que os portulanos nos foram enviados secretamente.

- Como explico a demora em entregar-lhe?

- Você não explica. Apenas diz a verdade: foram trazidos por Rodrigues, mas nenhum de nós percebeu que o pacote lacrado continha os portulanos desaparecidos. Realmente não o abrimos por dois dias. Foram mesmo esquecidos na excitação causada pelo herege. Os portulanos provam que Blackthorne é pirata, ladrão e traidor. Suas próprias palavras darão cabo dele de uma vez por todas, o que seguramente é justiça divina. Diga a verdade a Toranaga: que Mura os deu ao Padre Sebastio, como de fato aconteceu, que os enviou a nós, certo de que saberíamos o que fazer com eles. Isso desobriga Mura, o Padre Sebastio, todo mundo. Devemos comunicar a Mura, por pombo-correio, o que foi feito. Tenho certeza de que Toranaga entenderá que no fundo demos prioridade aos seus interesses sobre os de Yabu. Ele sabe que Yabu fez um acordo com Ishido?