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- Eu diria que sabe com certeza, Eminência. Mas corre o boato de que Toranaga e Yabu são amigos agora.

- Eu não confiaria nesse filho de Satã.

- Tenho certeza de que Toranaga não confia. Assim como Yabu não deve ter assumido nenhum compromisso verdadeiro com ele.

De repente foram distraídos por uma altercação do lado de fora. A porta se abriu e um monge encapuzado entrou descalço na sala, empurrando o Padre Soldi.

- Que as bênçãos de Jesus Cristo recaiam sobre os senhores - disse ele, a voz rascante de hostilidade. - Possa ele perdoar os seus pecados.

- Frei Pérez... o que está fazendo aqui? - explodiu Dell'Aqua.

- Voltei a esta cloaca de país para divulgar a palavra de Deus para os pagãos novamente.

- Mas está sob o edito de nunca regressar, sob pena de morte imediata, por haver incitado tumultos. Escapou ao martírio de Nagasaki por milagre e recebeu ordem de...

- Foi a vontade de Deus, e um imundo edito pagão de um maníaco louco não tem nada a ver comigo - disse o monge. Era um espanhol baixo, magro, com uma longa barba desgrenhada. - Estou aqui para continuar a obra de Deus. Como vai o comércio, padre?

- Felizmente para a Espanha, muito bem - retrucou Alvito, gelidamente.

- Não gasto meu tempo com a contabilidade, padre. Gasto-o com o meu rebanho.

- Isso é louvável - disse Dell'Aqua de modo cortante. - Mas gaste-o onde o papa ordenou: fora do Japão. Esta é nossa província exclusiva. E também é território português, não espanhol. Preciso lembrar-lhe que três papas determinaram que todas as ordens religiosas ficassem fora do Japão, com exceção de nós? O Rei Filipe ordenou o mesmo.

- Poupe o fôlego, Eminência. A obra de Deus ultrapassa ordens terrenas. Estou de volta, vou escancarar as portas das igrejas e rogar às multidões que se ergam contra os ímpios.

- Quantas vezes tem que ser advertido? Não pode tratar o Japão como um protetorado inca, povoado de selvagens sem história nem cultura. Proíbo-o de pregar e insisto em que obedeça às ordens de Sua Santidade.

- Converteremos os pagãos. Ouça, Eminência, há uma centena dos meus irmãos em Manila esperando para embarcar, todos bons espanhóis, e vários dos nossos gloriosos conquistadores para nos proteger, se isso for necessário. Pregaremos abertamente e usaremos nossos hábitos abertamente, não disfarçados por aí em idólatras saias de seda como os jesuítas!

- Não agite as autoridades ou reduzirá a Madre Igreja a cinzas!

- Digo-lhe na cara que estamos retornando ao Japão e ficaremos no Japão. Pregaremos a Palavra apesar do senhor - apesar de qualquer prelado, bispo, rei ou até papa, pela glória de Deus! - O monge bateu a porta atrás de si.

Vermelho de cólera, Dell'Aqua serviu-se de um copo de madeira. Um pouco do vinho derramou-se sobre a superfície polida da sua escrivaninha.

- Esses espanhóis nos destruirão a todos. - Dell'Aqua bebeu lentamente, tentando se acalmar. Finalmente disse: - Martini, mande alguns dos nossos para vigiá-lo. E é melhor avisar Kiyama e Onoshi imediatamente. Não há como prever o que acontecerá se esse imbecil se pavonear em público.

- Sim, Eminência. - A porta, Alvito hesitou: - Primeiro Blackthorne, agora Pérez. E coincidência demais. Talvez os espanhóis em Manila soubessem sobre Blackthorne e o tenham deixado vir aqui só para nos atormentar.

- Talvez, mas provavelmente não. - Dell'Aqua terminou o copo e pousou-o cuidadosamente. - Em todo caso, com a ajuda de Deus e o zelo devido, nenhum dos dois conseguirá prejudicar a Santa Madre Igreja, custe o que custar.

CAPÍTULO 20

- Serei um maldito espanhol, se isto não é vida!

Blackthorne estava seraficamente deitado de bruços sobre espessos f utons, parcialmente envolto num quimono de algodão, a cabeça apoiada nos braços. A garota corria-lhe as mãos pelas costas, tateando-lhe os músculos ocasionalmente, amaciando-lhe a pele e o espírito, fazendo-o quase querer ronronar de prazer. Outra garota servia saquê num minúsculo cálice de porcelana. Uma terceira esperava de reserva, segurando uma bandeja de laca com um cesto de bambu cheio de peixe frito à moda portuguesa, outro frasco de saquê, e alguns pauzinhos.

- Nam desu ka, Anjin-san? O que é isso, Honorávei Piloto? O que disse?

- Não sei dizer isso em nihon-go. - Sorriu para a garota que oferecia o saquê. Apontou para o cálice. - Como se chama isto? Namae ka?

- Sabazuki. - Ela disse a palavra três vezes, ele repetiu, depois a outra garota, Asa, ofereceu o peixe e ele balançou a cabeça. - Iyé, domo. - Não sabia como dizer "estou satisfeito agora", então tentou dizer "não fome agora".

- Ah! Iama hara hette wa oranu - explicou Asa, corrigindo-o. Ele disse a frase várias vezes e todas riram com a sua pronúncia, mas ele acabou conseguindo fazê-la soar corretamente.

Nunca aprenderei essa língua, pensou ele. Não há nada com que relacionar os sons em inglês, em latim ou em português.

- Anjin-san? - Asa oferecia a bandeja novamente.

Ele balançou a cabeça e pousou gravemente a mão sobre o estômago. Mas aceitou o saquê e o tomou. Sono, a garota que lhe massageava as costas, havia parado. Ele lhe pegou a mão, colocou-a sobre o seu pescoço e fingiu suspirar de prazer. Ela compreendeu imediatamente e continuou a massageá-lo.

Cada vez que terminava o pequeno cálice, enchiam-no de novo imediatamente. É melhor ir devagar, pensou, este é o terceiro frasco e já posso sentir o calor nos artelhos.

As três garotas - Asa, Sono e Rako - haviam chegado com o amanhecer, trazendo chá, que Frei Domingo lhe dissera que os chineses às vezes chamavam de "t'ee", e que era a bebida nacional da China e do Japão. Seu sono fora intermitente após o embate com o assassino, mas a bebida quente e picante começara a restaurá-lo. Haviam trazido pequenas toalhas quentes e enroladas, levemente perfumadas. Como ele não soubesse para que serviam, Rako, a chefe das garotas, mostrou-lhe como usá-las no rosto e nas mãos.

Depois escoltaram-no com seus quatro guardas samurais até os banhos de vapor na extremidade daquela seção do castelo e o entregaram às criadas de banho. Os quatro guardas transpiraram estoicamente enquanto ele era lavado, sua barba aparada, o cabelo ensaboado e o corpo massageado.

Após o banho ele se sentira miraculosamente revigorado. Deram-lhe outro quimono de algodão, fresco e até os joelhos, tabis limpos, e as garotas o esperaram novamente. Levaram-no a outra sala, onde se encontravam Kiri e Mariko. Mariko disse que o Senhor Toranaga decidira mandar o Anjin-san para uma de suas províncias dentro de poucos dias a fim de que se recuperasse, que o Senhor Toranaga estava muito contente com ele e que não havia necessidade de se preocupar com nada, pois estava sob os cuidados pessoais do Senhor Toranaga agora. O Anjin-san, por favor, começaria a preparar os mapas com o material que ela providenciaria? Logo haveria outros encontros com o amo, que prometera que ela em breve estaria disponível para responder a qualquer pergunta que o Anjin-san quisesse fazer. O Senhor Toranaga estava muito ansioso para que Blackthorne aprendesse japonês, assim como estava ansioso por aprender sobre o mundo exterior, e sobre navegação. Em seguida Blackthorne fora conduzido até o médico. Ao contrário dos samurais, os médicos usavam cabelo cortado rente, sem rabo.

Blackthorne odiava os médicos e temia-os. Mas aquele era diferente. Era gentil e inacreditavelmente limpo. Os médicos europeus na maioria eram tacanhos barbeiros, cobertos de piolhos e imundos como todo mundo. Aquele médico tocou-o cuidadosamente, examinou-o polidamente e segurou o pulso de Blackthorne para sentir-lhe a pulsação, olhou-lhe dentro dos olhos, da boca e dos ouvidos, e bateu-lhe suavemente nas costas, joelhos e solas dos pés. Tudo o que um médico europeu queria era olhar a sua língua e dizer: "Onde é que dói?", e fazer-lhe uma sangria para libertar a impureza do seu sangue e dar-lhe um vomitório violento para eliminar as impurezas das suas entranhas.