Blackthorne detestava ser sangrado e tomar purgantes, e cada vez era pior que a precedente. Mas aquele médico não tinha escalpelos nem a tigela de sangria, nem o repugnante cheiro de substância química que normalmente os rodeava, por isso seu coração começara a bater mais devagar e ele relaxou um pouco.
Os dedos do médico tocaram-lhe as cicatrizes na coxa de modo inquisitivo. Blackthorne fez o som de um tiro, porque uma bala de mosquete lhe havia atravessado a carne muitos anos antes. O doutor disse:
- Ah so desu -, e assentiu com um gesto de cabeça. Mais apertos, profundos mas indolores, sobre os rins e o estômago. Finalmente o médico falou a Rako, que assentiu, curvou-se e agradeceu-lhe.
- Ichi ban? - perguntara Blackthorne, querendo saber se estava bem.
- Hai, Anjin-san.
- Honto ka?
Que palavra útil, honro! "É verdade?", "Sim, é verdade", pensou Blackthorne.
- Domo, doutor-san.
- Do itashimashité - disse o médico, curvando-se. Não há de quê.
Blackthorne retribuiu a mesura. As garotas o levaram embora e foi só quando se viu deitado sobre os futons, o quimono de algodão afrouxado, Sono relaxando-lhe as costas, que ele se lembrara de que estivera nu diante do médico, na frente das garotas e dos samurais, e que não notara isso nem se sentira envergonhado.
- Nan desu ka, Anjin-san? - perguntou Rako. O que é, Honorável Piloto? Por que ri? Os dentes brancos dela cintilavam. Tinha as sobrancelhas depiladas e pintadas num crescente. Usava o cabelo escuro preso no alto e um quimono rosa florido com um obi verde-cinza.
- Porque estou feliz, Rako-san. Mas como lhe dizer isso? Como lhe dizer que rio porque estou feliz e tirei o peso de cima da cabeça pela primeira vez desde que saí de casa? Porque minhas costas estão ótimas - eu me sinto inteiro ótimo. Porque tenho a consideração de Toranaga-sama e porque descarreguei três boas canhonadas contra os malditos jesuítas e mais seis contra os portugueses sifilíticos! - Depois ele se pôs de pé com um salto, amarrou o quimono, e começou desleixadamente a dançar uma hornpipe{2} entoando uma cantiga do mar para marcar o compasso.
Rako e as outras ficaram curiosas. A shoji se abriu imediatamente e os guardas samurais apareceram, de olhos arregalados. Blackthorne dançou e cantou vigorosamente até não conseguir mais se conter, então explodiu numa gargalhada e caiu. As garotas bateram palmas. Rako tentou imitá-lo e caiu, porque a cauda do quimono inibia-lhe os movimentos. As outras se levantaram e convenceram-no a mostrar-lhes como fazê-lo, e ele tentou, as três garotas em pé e alinhadas a observá-lo, segurando os quimonos levantados. Mas não conseguiram, e logo estavam todas tagarelando, dando risadinhas e se abanando.
Abruptamente os guardas ficaram solenes e fizeram uma profunda reverência. Toranaga apareceu na soleira, ladeado por Mariko, Kiri e seus sempre presentes guardas samurais. As garotas todas se ajoelharam, estenderam as mãos no chão e se curvaram, mas a risada não lhes abandonou o rosto, tampouco sentiram qualquer receio. Blackthorne curvou-se polidamente também, não tão baixo quanto as mulheres.
- Konnichi wa, Toranaga-sama - disse ele.
- Konnichi wa, Anjin-san - respondeu Toranaga. E fez uma pergunta.
- Meu amo pergunta o que está fazendo, senhor - disse Mariko.
- Era apenas uma dança, Mariko-san - disse Blackthorne, sentindo-se imbecil. - Chama-se hornpipe. É uma dança de marinheiros, que executamos, cantando cantigas simultaneamente. Eu só estava feliz... talvez tenha sido o saquê. Sinto muito, espero não ter perturbado Toranaga-sama.
Ela traduziu.
- Meu amo diz que gostaria de assistir à dança e ouvir a canção.
- Agora?
- Agora, naturalmente.
Imediatamente Toranaga sentou-se de pernas cruzadas e sua pequena corte se espalhou pela sala, olhando todos para Blackthorne, expectantes.
Aí está, seu imbecil, disse Blackthorne a si mesmo. É nisso que dá não se vigiar melhor. Agora tem que dançar e você sabe que sua voz é desafinada e dança de modo desajeitado.
Ainda assim, ele amarrou o quimono bem apertado e se atirou à dança com prazer, rodopiando, chutando, girando; pulando, sua voz rugindo vigorosamente.
Mais silêncio.
- Meu amo diz que nunca viu nada parecido em toda a sua vida.
- Arigato goziemashita! - disse Blackthorne, suando em parte pelo esforço, em parte pelo constrangimento. Então Toranaga pôs as espadas de lado, arregaçou o quimono até a cintura, e se postou ao lado dele.
- O Senhor Toranaga dançará a sua dança - disse Mariko.
- Hem?
- Por favor, ensine-lhe, diz ele.
Blackthorne começou. Demonstrou o passo básico, depois repetiu-o várias vezes. Toranaga aprendeu depressa. Blackthorne não ficou nem um pouco impressionado com a agilidade do velho barrigudo e senhor de um amplo traseiro.
Blackthorne começou a cantar e a dançar, e Toranaga imitou-o, tentativamente no começo, para alegria dos assistentes. Depois Toranaga atirou longe o quimono, cruzou os braços e começou a dançar com entusiasmo ao lado de Blackthorne, que também se livrou do quimono e cantou mais alto, marcando o tempo, quase dominado pelo grotesco do que estavam fazendo, mas contagiado agora pelo humor da situação. Finalmente Blackthorne deu uma espécie de salto, girou, pulou e estacou. Bateu palmas e curvou-se para Toranaga. Todos aplaudiram o amo, que estava muito contente.
Toranaga sentou-se no centro da sala, respirando com facilidade. Imediatamente Rako avançou para abaná-lo e as outras correram a buscar-lhe o quimono. Mas Toranaga empurrou o seu quimono na direção de Blackthorne e pegou o quimono simples do outro.
- Meu amo diz que teria muito prazer em que o senhor aceitasse isso como presente - disse Mariko. - Aqui se considera uma grande honra receber um quimono muito velho de um suserano.
- Arigato goziemashita, Toranaga-sama. - Blackthorne curvou-se profundamente, depois disse a Mariko: - Sim, compreendo a honra que ele me faz, Mariko-san. Por favor, agradeça ao Senhor Toranaga com as palavras formais corretas, que eu infelizmente ainda não sei, e diga-lhe que vou guardá-lo como um tesouro, e mais ainda à honra que ele me fez dançando a minha dança comigo.
Toranaga demonstrou uma satisfação ainda maior.
Reverentemente, Kiri e as criadas ajudaram Blackthorne a vestir o quimono do amo e mostraram-lhe como amarrar o sash. O quimono era de seda marrom, com cinco elmos escarlates, e o sash, de seda branca.
- O Senhor Toranaga diz que apreciou a dança. Um dia talvez lhe mostre algumas das nossas. Ele gostaria que o senhor aprendesse a falar.japonês tão rápido quanto possível.
- Eu também gostaria. - Mas gostaria ainda mais, pensou Blackthorne, de estar dentro das minhas próprias roupas, comendo minha comida, na minha cabina, no meu navio, com meus canhões armados, pistolas na cintura e o tombadilho coberto por uma infinidade de velas. - Quer perguntar ao Senhor Toranaga quando é que posso ter meu navio de volta?
- Senhor?
- Meu navio, senhora. Por favor, pergunte-lhe quando posso reaver meu navio. Minha tripulação, também. Toda a carga foi removida - havia vinte mil moedas na caixa-forte. Estou certo de que ele compreenderá que somos mercadores, e embora apreciemos sua hospitalidade, gostaríamos de comerciar - com as mercadorias que trouxemos conosco - e partir para casa. Precisaremos de quase dezoito meses para voltar para casa.
- Meu amo diz que o senhor não precisa se preocupar. Tudo será feito tão logo seja possível. Primeiro deve ficar forte e saudável. O senhor partirá ao crepúsculo.