- Senhora?
- O Senhor Toranaga disse que o senhor partirá ao pôr-do-sol. Falei erradamente?
- Não, não, em absoluto, Mariko-san. Mas há uma hora e pouco, a senhora me disse que eu partiria dentro de alguns dias.
- Sim, mas agora ele diz que o senhor partirá esta noite.
- Ela traduziu tudo isso para Toranaga, que falou mais alguma coisa.
- Meu amo diz que é melhor e mais conveniente para o senhor partir esta noite. Não há por que se preocupar, Anjin-san, o senhor está sob o cuidado pessoal dele. A Senhora Kiritsubo vai para Yedo, a fim de esperar o regresso dele. O senhor irá com ela.
- Por favor, agradeça a ele por mim. É possível... posso perguntar se seria possível libertar Frei Domingo? O homem tem um vasto conhecimento.
Ela traduziu.
- Meu amo diz que sente muito, mas o homem morreu. Mandou buscá-lo assim que o senhor pediu, ontem, mas ele já estava morto.
Blackthorne acabrunhou-se.
- Como morreu?
- Meu amo diz que morreu quando seu nome foi chamado.
- Oh! Pobre homem!
- Meu amo diz que a morte e a vida são a mesma coisa. A alma do padre esperará até o décimo quarto dia e então renascerá. Por que se entristecer? É a lei imutável da natureza. - Ela começou a dizer alguma coisa, mas mudou de idéia, limitando-se a acrescentar: - Os budistas crêem que temos muitos nascimentos ou renascimentos, Anjin-san. Até que finalmente nos tornemos perfeitos e atinjamos o nirvana, o paraíso.
Blackthorne afastou a própria tristeza e se concentrou em Toranaga e no presente.
- Posso, por favor, perguntar a ele se a minha tripulação... - Parou quando Toranaga desviou o olhar.
Um jovem samurai entrou às pressas na sala, curvou-se para Toranaga e esperou.
- Nan ja? - disse Toranaga.
Blackthorne não compreendeu nada do que foi dito. Só teve a impressão de apreender o apelido do Padre Alvito, Tsukku. Viu os olhos de Toranaga esvoaçarem na sua direção e notou o vislumbre do sorriso. Perguntou a si mesmo se Toranaga mandara buscar o padre por causa do que ele lhe dissera. Espero que sim, pensou, e espero que Alvito esteja afundado no estrume até as narinas.
Está ou não está? Blackthorne resolveu não perguntar a Toranaga, embora se sentisse enormemente tentado.
- Kare ni matsu yoni - disse Toranaga bruscamente.
- Gyoi. - O samurai inclinou-se e saiu apressado. Toranaga voltou-se para Blackthorne: - Nan ja, Anjin-san?
- O senhor estava dizendo, capitão? - disse Mariko. - Sobre a sua tripulação?
- Sim. Toranaga-sama poderia tomá-los sob a sua proteção também? Providenciar para que sejam todos bem tratados? Eles também serão enviados para Yedo?
Ela perguntou. Toranaga enfiou as espadas na cintura do quimono curto.
- Meu amo diz que naturalmente os arranjos já foram feitos. O senhor não precisa se inquietar quanto a eles. Ou quanto ao seu navio.
- Meu navio está em ordem?
- Sim. Ele diz que o navio já está em Yedo.
Toranaga levantou-se. Começaram todos a se curvar, mas Blackthorne interrompeu inesperadamente:
- Uma última coisa... - Parou e se amaldiçoou, percebendo que estava sendo descortês. Era óbvio que Toranaga encerrara a entrevista e já haviam todos começado a se curvar, mas foram detidos pelas palavras de Blackthorne e agora estavam todos embaraçados sem saber se completavam a reverência, se esperavam, ou se começavam novamente.
- Nan ja, Anjin-san? - A voz de Toranaga soou irritadiça e inamistosa, pois também ele ficara momentaneamente perturbado.
- Gomen nasai, sinto muito, Toranaga-sama. Não pretendi ser descortês. Sá queria perguntar se a Senhora Mariko teria a permissão de conversar comigo por alguns momentos antes que eu parta. Isso me ajudaria.
Ela perguntou.
Toranaga meramente grunhiu uma afirmativa imperiosa e saiu da sala, seguido de Kiri e da sua guarda pessoal.
Bastardos suscetíveis, todos vocês, disse Blackthorne a si mesmo.
Jesus, como se tem que ser cuidadoso aqui! Ele enxugou a testa com a manga e viu a aflição imediata no rosto de Mariko. Rako ofereceu-lhe às pressas um pequeno lenço que eles sempre pareciam ter pronto num sortimento aparentemente inexaurível, guardado secretamente em algum lugar nas costas do obi. Ele então percebeu que estava usando o quimono do "amo" e que não se enxuga, por distração, o suor da testa com a manga do "amo", por Deus, portanto havia cometido outro sacrilégio! Nunca aprenderei, nunca, Jesus do paraíso, nunca!
- Anjin-san? - Rako estava oferecendo saquê.
Ele aceitou, agradeceu e bebeu. Imediatamente ela tornou a encher o cálice. Ele notou um brilho de perspiração na testa de todos.
- Gomen nasai - disse ele a todos, desculpando-se. Pegou o cálice e ofereceu-o a Mariko, bem-humorado. - Não sei se é costume polido ou não, mas a senhora aceitaria um pouco de saquê? Isso é permitido? Ou devo bater a cabeça no chão?
Ela riu.
- Oh, sim, é muito polido, e não, por favor, não machuque a cabeça. Não há necessidade de se desculpar comigo, capitão. Homens não pedem desculpas a mulheres. Tudo o que fazem é correto. Pelo menos é o que nós, senhoras, achamos.
- Ela explicou às garotas o que dissera e elas assentiram de modo igualmente sério, mas tinham os olhos dançando nas órbitas. - O senhor não tinha como saber, Anjin-san - continuou Mariko, depois sorveu um minúsculo gole de saquê e devolveu-lhe o cálice. - Obrigada, mas não vou tomar mais saquê, obrigada. O saquê me vai direto para a cabeça e para os joelhos. Mas o senhor aprende rapidamente, deve lhe ser muito difícil. Não se preocupe, Anjin-san, o Senhor Toranaga disse que acha sua aptidão excepcional. Nunca lhe teria dado o quimono se não estivesse muito satisfeito.
- Ele mandou buscar Tsukku-san?
- O Padre Alvito?
- Sim.
- Deveria ter perguntado a ele, capitão. A mim não disse nada. E foi muito sábio nisso, pois as mulheres não têm sabedoria nem conhecimento em assuntos políticos.
- Ah, so desu ka? Gostaria que todas as mulheres fossem igualmente. .. sábias.
Mariko abanou-se, confortavelmente ajoelhada, as pernas dobradas sob o corpo. - Sua dança esteve excelente. As senhoras no seu país dançam do mesmo modo?
- Não. Apenas os homens. Era uma dança de homens, de marinheiros.
- Já que o senhor quer me fazer perguntas, posso lhe fazer algumas primeiro?
- Certamente.
- Como é a senhora sua esposa?
- Tem vinte e nove anos. E alta, comparada com a senhora. Pelas nossas medidas, tenho seis pés e duas polegadas de altura, e ela tem mais ou menos cinco pés e oito polegadas. A senhora tem cerca de cinco pés, portanto ela é uma cabeça mais alta e igualmente maior... igualmente proporcionada. O cabelo dela é da cor de. .. - Apontou as vigas de cedro polido e sem manchas e todos os olhos se dirigiram para lá, depois voltaram a se fixar nele. - Mais ou menos daquela cor. Loiro com um toque de vermelho. Os olhos são azuis, muito mais do que os meus, azul-esverdeados. Tem o cabelo comprido e o usa solto na maioria das vezes.
Mariko traduziu para as outras, que olharam para as vigas de cedro e para ele mais uma vez. Os guardas samurais também ouviam atentamente. Uma pergunta de Rako.
- Rako-san perguntou se ela é como nós, de corpo?
- Sim. Mas os quadris são mais largos e mais curvos, o peito é mais proporcionado e... bem, geralmente nossas mulheres são mais arredondadas e têm seios muito mais cheios.
- Todas as mulheres, e os homens, são tão mais altos do que nós?
- Geralmente sim. Mas alguns são tão baixos quanto os daqui. Acho a sua pequenez encantadora. Muito agradável.
Asa perguntou alguma coisa e o interesse de todos se avivou.
- Asa perguntou como o senhor compararia as suas mulheres com as nossas em matéria de "travesseiro".