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Todos observaram enquanto o bárbaro era servido. Viram a máscara de sarcasmo que era o seu rosto, e o modo como aceitou o saquê sem prazer e as toalhas quentes com agradecimentos frios.

- Oan-san, por que não deixar uma das mulheres ir buscar o pato? - sussurrou o velho samurai, solícito. – Simplesmente o soltamos. Se ele o quiser, estará tudo bem, senão, fingirá não tê-lo visto.

Mariko balançou a cabeça.

- Talvez não devamos correr esse risco. Parece, Oan-san, que este tipo de bárbaro tem alguma aversão a falar sobre "travesseiro", neh? É o primeiro de sua espécie a vir aqui, portanto teremos que ir às apalpadelas.

- Concordo - disse Oan. - Ele estava completamente dócil até que isso fosse mencionado. - Olhou carrancudo para Asa.

- Sinto muito, Oan-san. O senhor está absolutamente certo, a culpa foi toda minha - disse Asa imediatamente, curvando-se, a cabeça quase tocando o solo.

- Sim. Relatarei o caso a Kiritsubo-san.

- Oh!

- Realmente penso que a ama deve ser informada, a fim de tomar cuidado quanto a discutir o assunto com este homem - disse Mariko, diplomaticamente. - O senhor é muito sábio, Oan-san. Sim. Mas talvez, de certo modo, Asa tenha sido um feliz instrumento para poupar a Senhora Kiritsubo e mesmo o Senhor Toranaga de um terrível embaraço! Pense apenas no que teria acontecido se a própria Kiritsubo-san tivesse feito a pergunta diante do Senhor Toranaga ontem! Se o bárbaro tivesse agido assim na frente dele...

Oan assustou-se.

- Teria corrido sangue! A senhora tem toda a razão, Mariko-san, devemos agradecer a Asa. Explicarei a Kiritsubo-san que ela foi feliz na pergunta que fez.

Mariko ofereceu mais saquê a Blackthorne.

- Não, obrigado.

- Peço desculpas novamente pela minha estupidez. O senhor queria me fazer algumas perguntas?

Blackthorne os observava enquanto conversavam entre si, aborrecido por não ser capaz de compreender, furioso por não poder xingá-los claramente por seus insultos ou socar a cabeça dos guardas uma contra a outra.

- Sim. A senhora disse que a sodomia é normal aqui?

- Oh, perdoe-me, não poderíamos discutir outras coisas, por favor?

- Certamente, senhora. Mas primeiro, para que eu possa compreendê-los, vamos completar esse assunto. A sodomia é normal aqui, a senhora disse?

- Tudo o que se relacione com "travesseiro" é normal - disse ela, desafiante, incitada pela falta de boas maneiras e a óbvia imbecilidade dele, lembrando-se de que Toranaga lhe dissera que informasse sobre coisas não políticas, mas que lhe relatasse mais tarde todas as perguntas feitas. Além disso, ela não devia aceitar qualquer absurdo da parte dele, pois o Anjin continuava sendo um bárbaro, um provável pirata, e sob uma sentença formal de morte, temporariamente suspensa ao bel-prazer de Toranaga. - O "travesseiro" é absolutamente normal. E se um homem vai com outro, ou com um menino, o que é que isso tem a ver com mais alguém senão com eles? Que dano causa a eles, ou aos outros... a mim ou ao senhor? Nenhum! - O que sou eu, pensou ela, uma pária inculta, sem miolos? Um negociante estúpido para ser amedrontada por um mero bárbaro? Não. Sou samurai! Sim, você é, Mariko, mas também é muito tola! E uma mulher e deve tratá-lo como a qualquer homem para controlá-lo: lisonjeie-o, concorde com ele e adoce-o. Você se esqueceu das suas armas. Por que ele a faz agir como uma criança de doze anos de idade? Deliberadamente ela amaciou o tom da voz. - Mas se o senhor acha...

- A sodomia é um pecado repugnante, um mal, uma abominação amaldiçoada por Deus, e os bastardos que a praticam são a escória do mundo! - Blackthorne ainda estava furioso com o insulto de ela acreditar que ele pudesse ser um deles. Pelo sangue de Cristo, como é que ela pôde? Controle-se, disse a si mesmo. Está falando como um puritano fanático ou um calvinista! E por que tanto acirramento contra eles? Não será porque estão sempre presentes no mar, porque a maioria dos marinheiros já tentou isso? Pois de que outra maneira podem permanecer sadios tantos meses no mar? Não será porque você se sentiu tentado e odiou a si mesmo por ter se sentido tentado? Não será porque quando jovem você teve que lutar para se proteger e uma vez foi agarrado e quase violentado, mas conseguiu se soltar e matou um dos bastardos, a faca rasgando a garganta dele, você com doze anos, a primeira morte na sua longa lista de mortes? - É um pecado amaldiçoado por Deus... e absolutamente contra as leis de Deus e do homem.

- Com certeza essas são palavras cristãs que se aplicam a outras coisas? - retrucou ela acidamente malgrado seu, provocada pela completa grosseria dele. - Pecado? Onde está o pecado disso?

- A senhora devia saber. É católica, não? Foi educada por jesuítas, não foi?

- Um padre me educou e me ensinou a falar latim e português e a escrever em latim e português. Não compreendo o sentido que o senhor dá à palavra "católica", mas sou cristã, e já faz quase dez anos que sou cristã, e não, eles não conversaram conosco sobre "travesseiro". Nunca li os seus livros sobre o assunto, apenas livros religiosos. "Travesseiro" um pecado? Como poderia ser? Como é que qualquer coisa que dê prazer a um ser humano pode ser pecado?

- Pergunte ao Padre Alvito!

Antes pudesse, pensou ela perturbada. Mas tenho ordens de não discutir nada do que é dito aqui com ninguém além de Kiri e do meu Senhor Toranaga. Pedi a Deus e à Nossa Senhora que me ajudassem, mas eles não falaram comigo. Só sei que desde que você chegou aqui, não houve nada além de problemas. Eu só tive problemas...

- Se é um pecado, como o senhor diz, por que é que tantos dos nossos padres o fazem? Algumas seitas budistas até o recomendam como uma forma de veneração. O momento das nuvens e chuva não é o mais próximo do paraíso que os mortais podem obter? Os padres não são maus homens, não todos. E é sabido que alguns dos santos padres também apreciam o "travesseiro" desse modo. Eles são maus? Claro que não! Por que deveriam se privar de um prazer comum se as mulheres lhes são proibidas? É absurdo dizer que qualquer coisa relacionada a "travesseiro" é pecado e amaldiçoada por Deus!

- Sodomia é uma abominação, contra toda a lei! Pergunte ao seu confessor!

Você é que é a abominação, você, capitão-piloto, Mariko tinha vontade de gritar. Como ousa ser tão rude e como pode ser tão imbecil! Contra Deus, você disse? Que absurdo! Contra o seu mau deus, talvez. Clama ser cristão, mas é óbvio que não é, e óbvio que é um mentiroso, um trapaceiro. Talvez você realmente saiba coisas extraordinárias e tenha estado em lugares estranhos, mas não é cristão e é um sacrílego. Foi enviado por Satã? Pecado? Que grotesco!

Você arenga contra coisas normais e age como um louco. Aborrece os santos padres, aborrece o Senhor Toranaga, causa discussão entre nós, põe em dúvida as nossas crenças, e nos atormenta com insinuações sobre o que é verdade e o que não é - sabendo que podemos provar a verdade imediatamente.

Quero dizer-lhe que desprezo a você e a todos os bárbaros. Sim, os bárbaros me atormentaram a vida toda. Não odiavam meu pai porque ele não confiava neles e abertamente rogou ao ditador Goroda que os expulsasse da nossa terra? Os bárbaros não envenenaram a mente do ditador a ponto de ele começar a odiar meu,pai, seu general mais leal, o homem que o ajudara mais até do que o General Nakamura ou o Senhor Toranaga? Os bárbaros não foram a causa de o ditador insultar meu pai, tornando-o insano, forçando-o a fazer o impensável e desse modo causar todas as minhas agonias?

Sim, fizeram tudo isso e mais. Mas também trouxeram a inigualável palavra de Deus, e nas minhas horas sombrias de necessidade, quando fui trazida de volta de um exílio hediondo para uma vida ainda mais hedionda, o padre-lnspetor mostrou-me o Caminho, abriu-me os olhos e minha alma e me batizou. E o Caminho me deu forças para suportar, encheu-me o coração com uma paz sem limites, libertou-me do meu tormento perpétuo, e abençoou-me com a promessa de salvação eterna.