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Aconteça o que acontecer, estou nas mãos de Deus. Oh, minha Nossa Senhora, dê-me a sua paz e ajude esta pobre pecadora a vencer os inimigos.

- Peço desculpas pela minha rudeza - disse ela. - O senhor tem razão em estar zangado. Sou apenas uma tola mulher. Por favor, seja paciente e perdoe-me minha estupidez, Anjin-san.

Imediatamente a raiva de Blackthorne começou a desvanecer-se. Como é que um homem pode ficar zangado muito tempo com uma mulher, se ela abertamente admite estar errada e ele certo?

- Também peço desculpas, Mariko-san - disse ele, um pouco abrandado -, mas conosco, sugerir que um homem é pederasta, sodomita, é o pior tipo de insulto.

Então vocês são todos infantis e imbecis, assim como infames, grosseiros e sem educação, mas o que se pode esperar de um bárbaro? disse ela a si mesma. Depois, aparentemente arrependida, disse em voz alta:

- Claro que o senhor tem razão. Não tive más intenções, Anjin-san, por favor aceite as minhas desculpas. Oh, sim - ela suspirou, sua voz tão delicadamente adocicada que mesmo o marido, num dos seus humores mais borrascosos, teria sido apaziguado -, oh, sim, o erro foi inteiramente meu. Sinto muito.

O sol já tocara o horizonte e o Padre Alvito ainda esperava na sala de audiências, os portulanos pesando-lhe nas mãos.

Maldito Blackthorne, pensou ele.

Era a primeira vez que Toranaga o fazia esperar, a primeira vez em anos que ele esperava por qualquer daimio, inclusive o taicum. Durante os últimos oito anos do governo do taicum, fora-lhe concedido o privilégio inacreditável de acesso imediato, exatamente como com Toranaga.

Mas com o taicum o privilégio fora merecido devido à sua fluência em japonês e à sua sagacidade nos negócios. Seu conhecimento das engrenagens do comércio internacional ajudara ativamente a aumentar a incrível fortuna do taicum. Embora quase inculto, o taicum tinha um vasto domínio da língua e seu conhecimento político era imenso. De modo que Alvito se sentara prazerosamente aos pés do déspota para ensinar e aprender e, se fosse a vontade de Deus, para converter. Era essa a função específica para a qual fora meticulosamente treinado por Dell'Aqua, que providenciara os melhores professores práticos entre todos os jesuítas e entre os mercadores na Asia. Alvito tornara-se o confidente do taicum, uma das quatro pessoas - e o único estrangeiro - a jamais ter visto todas as salas do tesouro pessoal do taicum.

A poucas centenas de passos estava o torreão do castelo.

Erguia-se sobranceiro a sete andares, protegido pela infinidade de muros e portas e fortificações. No quarto andar havia sete salas com portas de ferro. Cada uma estava abarrotada com lingotes de ouro e arcas com moedas douradas. No andar de cima ficavam as salas de prata, explodindo de lingotes e arcas de moedas. E no superior a esse ficavam as sedas e porcelanas raras, espadas e armaduras - o tesouro do império.

Pela nossa avaliação atual, pensou Alvito, o valor deve ser de no mínimo cinqüenta milhões de ducados, mais do que o valor da renda de um ano de todo o império espanhol, todo o império português e a Europa, juntos! A maior fortuna particular em dinheiro do globo.

Não é esse o grande prêmio? raciocinou ele. Quem quer que controle o Castelo de Osaka não controla também essa riqueza inacreditável? E essa riqueza, por conseguinte, não lhe dá poder sobre a terra? Osaka não foi feita inexpugnável apenas para proteger a riqueza? A terra não foi sangrada para construir o Castelo de Osaka, para torná-lo inviolável para proteger o ouro, a fim de mantê-lo em segurança até que Yaemon atinja a maioridade?

Com um centésimo dessa riqueza poderíamos construir uma catedral em cada capital, uma igreja em cada cidade, uma missão em cada aldeia pelo país inteiro. Se ao menos isso fosse possível, para usar o dinheiro pela glória de Deus!

O taicum amara o poder. E amara o ouro pelo poder que conferia sobre os homens. O tesouro era o fruto de dezesseis anos de poder incontestado, resultado dos presentes imensos, obrigatórios, que se esperava que todos os daimios, por costume, oferecessem anualmente, e proveniente dos seus próprios feudos. Por direito de conquista, o taicum pessoalmente possuía um quarto do país inteiro. Sua renda particular anual excedia cinco milhões de kokus. E como era senhor de todo o Japão, com o mandato do imperador, em teoria possuía a renda de todos os feudos. Não cobrava impostos de nenhum. Mas todos os daimios, todos os samurais, todos os camponeses, todos os artesãos, todos os mercadores, todos os assaltantes, todos os párias, todos os bárbaros, até os etas, contribuíam voluntariamente, e em larga medida. Pela própria segurança.

Enquanto a fortuna estiver intacta, Osaka estiver intacta e Yaemon for o curador de fato, disse Alvito a si mesmo, o herdeiro governará quando atingir a idade, apesar de Toranaga, de Ishido ou de qualquer outro.

Uma pena que o taicum tenha morrido. Com todas as suas falhas, conhecíamos o demônio com quem tínhamos que lidar. Pena, na realidade, que Goroda tenha sido assassinado, pois era um verdadeiro amigo nosso. Mas está morto, assim como o taicum, e agora temos novos idólatras para dobrar - Toranaga e Ishido.

Alvito lembrou-se da noite em que o taicum morrera. Fora convidado pelo próprio para a vigília - ele, junto com Yodokosama, a esposa do taicum, e a Senhora Ochiba, a consorte e mãe do herdeiro. Haviam observado e esperado muito tempo naquela noite de verão, perfumada mas interminável.

Então a agonia começara, e findara.

- Seu espírito partiu. Ele está nas mãos de Deus agora - dissera ele suavemente ao ter certeza. Fizera o sinal-da-cruz e abençoara o corpo.

- Que Buda leve meu senhor consigo e o faça renascer rapidamente, para que possa mais uma vez retomar o império nas mãos - dissera Yodoko em lágrimas silenciosas. Era uma mulher agradável, uma samurai patrícia que fora esposa e conselheira fiel por quarenta e quatro dos seus cinqüenta e nove anos de vida. Ela fechara os olhos e exaltara o cadáver, o que era privilégio seu. Tristemente fizera uma reverência três vezes e depois o deixara, e à Senhora Ochiba. A agonia fora fácil. Durante meses o taicum estivera doente e esperava-se o pior para aquela noite. Poucas horas antes ele abrira os olhos, sorrira para Ochiba e para Yodoko, e sussurrara, num fio de voz: - Ouçam, este é o meu poema de morte:

Como orvalho nasci

Como orvalho desapareço

O Castelo de Osaka e tudo o que jamais fiz

Não são mais que um sonho

Dentro de um sonho.

Um último sorriso, terno, do déspota para elas e para ele.

- Protejam meu filho, vocês todos. - E os olhos se tornaram opacos para sempre.

O Padre Alvito lembrou-se de como se emocionara com o último poema, tão típico do taicum. Como fora convidado, esperara que o senhor do Japão, no limiar da morte, se arrependesse e aceitasse a fé e o sacramento com que brincara tantas vezes. Mas isso não aconteceu.

- Você perdeu o reino de Deus para sempre, pobre homem - murmurara ele tristemente, pois admirara o taicum como um gênio militar e político.

- E se o seu reino de Deus estiver numa passagem de volta? - disse a Senhora Ochiba.

- O quê? - Ele não tinha certeza de ter ouvido corretamente, indignado com a inesperada malevolência sibilante dela.

Conhecia a Senhora Ochiba há quase doze anos, desde os quinze anos dela, quando o taicum a tomara por consorte, e ela sempre fora dócil, subserviente, mal e mal dizia uma palavra, sempre sorrindo docemente e feliz. Mas agora...

- Eu disse: "E se o seu reino de Deus estiver numa passagem de volta?"

- Que Deus a perdoe! Seu amo morreu apenas há alguns segundos...

- O senhor meu amo morreu, portanto a sua influência sobre ele morreu. Neh? Ele o quis aqui, muito bem, era um direito dele. Mas agora ele se encontra no Grande Vazio e não comanda mais. Agora comando eu. Padre, você cheira mal, sempre cheirou, e a sua sujeira polui o ar. Agora suma do meu castelo e deixe-nos com a nossa dor!