A luz das velas adejou-lhe pelo rosto. Era uma das mais belas mulheres do país. Involuntariamente ele fez o sinal-da-cruz.
A risada que ouviu era de aço.
- Vá embora, padre, e não volte nunca. Seus dias estão contados!
- Não mais do que os seus. Estou nas mãos de Deus, senhora. É melhor que de ouvidos a ele, a salvação eterna pode ser sua se acreditar.
- Hem? Você está nas mãos de Deus? O Deus cristão, neh? Talvez esteja. Talvez não. O que vai fazer, padre, se, quando morrer, descobrir que não há Deus algum, que não há inferno e que a sua salvação eterna é apenas um sonho dentro de outro sonho?
- Eu acredito! Eu acredito em Deus, na ressurreição e no Espírito Santo! - dissera ele. - As promessas cristãs são verdadeiras. São verdadeiras... eu acredito!
- Nan ja, Tsukku-san?
Por um instante só ouviu o japonês e não tinha significado algum para ele.
Toranaga estava em pé na soleira da porta, rodeado por seus guardas. O Padre Alvito curvou-se, recobrando-se, com suor nas costas e no rosto.
- Sinto muito por ter vindo sem ser convidado. Eu... eu estava apenas sonhando acordado. Lembrava-me de que tive a boa fortuna de testemunhar tantas coisas aqui no Japão. arece que vivi toda a minha vida aqui e em nenhum outro lugar.
- Quem lucrou com isso fomos nós, Tsukku-san.
Toranaga caminhou cansadamente para o estrado e sentou-se sobre a almofada simples. Em silêncio, os guardas se dispuseram numa tela protetora.
- O senhor chegou aqui no terceiro ano do Tensho, não foi?
- Não, senhor, foi no quarto. O ano do Rato – respondeu ele, usando o calendário deles, que levara meses para compreender. Todos os anos eram contados a partir de um ano em particular, escolhido pelo imperador reinante. Uma catástrofe ou uma dádiva divina podiam encerrar uma era ou dar início a outra, conforme o capricho do imperador. Os sábios recebiam a ordem de selecionar um nome de presságio particularmente bom nos antigos livros da China para a nova era que podia durar um ou cinqüenta anos. "Tensho" significava "justiça celeste". O ano anterior fora o do Grande Macaréu, quando duzentas mil pessoas morreram. E cada ano recebia um número, assim como um nome - seguindo a mesma sucessão de nomes das horas do dia: Lebre, Dragão, Cobra, Cavalo, Bode, Macaco, Galo, Cão, Javali, Rato, Raposa e Tigre. O primeiro ano do Tensho caíra no ano do Galo, de onde se seguia que 1576 era o ano do Rato no quarto ano do Tensho.
- Muita coisa aconteceu nestes vinte e quatro anos, neh, amigo velho?
- Sim, senhor.
- Sim. A ascensão de Goroda e a sua morte. A ascensão do taicum e a sua morte. E agora? - As palavras ricocheteavam nas paredes.
- Isso está nas mãos do Infinito. - Alvito usou uma palavra que podia significar Deus, mas também podia significar Buda.
- Nem o Senhor Goroda nem o senhor taicum acreditavam em quaisquer deuses, ou em qualquer Infinito.
- O Senhor Buda não disse que há muitos caminhos para o nirvana, senhor?
- Ah, Tsukku-san, você é um homem sábio. Como pode alguém tão jovem ser tão sábio?
- Sinceramente gostaria de sê-lo, senhor. Então poderia ser de mais valia. O senhor queria me ver?
- Sim. Julguei importante o bastante para vir ser sem convidado.
Alvito pegou os portulanos de Blackthorne e colocou-os no chão, diante do outro, dando a explicação que Dell'Aqua sugerira. Viu o rosto de Toranaga se endurecer e ficou contente com isso.
- Prova da pirataria dele?
- Sim, senhor. Os portulanos contêm até as palavras exatas das ordens que receberam, que incluem: "se necessário, desembarcar à força e reivindicar qualquer território atingido ou descoberto". Se o senhor quiser, posso fazer uma tradução exata de todas as passagens pertinentes.
- Faça uma tradução de tudo. Rapidamente - disse Toranaga.
- Há mais uma coisa que o padre-lnspetor achou que o senhor devia saber. - Alvito contou a Toranaga tudo sobre os mapas e relatórios e o Navio Negro conforme fora combinado, e ficou encantado ao ver a reação de satisfação.
- Excelente - disse Toranaga. - Tem certeza de que o Navio Negro chegará mais cedo? Absoluta certeza?
- Sim - respondeu Alvito com firmeza. Ó Deus, deixe que aconteça conforme esperamos!
- Bom. Diga ao seu suserano que estou ansioso por ler os relatórios dele. Imagino que ele levará alguns meses obtendo os fatos corretos?
- Ele disse que prepararia os relatórios o mais depressa possível. Vamos lhe enviar os mapas como o senhor deseja. Seria possível que o capitão-mor tivesse suas autorizações logo? Isso ajudaria enormemente, se é para o Navio Negro chegar mais cedo, Senhor Toranaga.
- O senhor garante que o navio chegará antes?
- Nenhum homem pode garantir o vento, a tempestade e o mar. Mas o navio partirá de Macau mais cedo do que o previsto.
- O senhor as terá antes do pôr-do-sol. Há mais alguma coisa? Não estarei disponível por três dias, até depois da conclusão da reunião dos regentes.
- Não, senhor. Obrigado. Rezo para que o Infinito o conserve em segurança, como sempre. - Alvito curvou-se e esperou ser dispensado, mas em vez disso foram os guardas que Toranaga dispensou.
Era a primeira vez que Alvito via um daimio desacompanhado.
- Venha sentar-se aqui, Tsukku-san - Toranaga apontou para o seu lado, sobre o estrado.
Alvito nunca fora convidado para o estrado antes. Isto é um voto de confiança - ou uma sentença?
- A guerra se aproxima - disse Toranaga.
- Sim - respondeu ele, e pensou: esta guerra não vai terminar nunca.
- Os senhores cristãos, Onoshi e Kiyama, estranhamente se opõem aos meus desejos.
- Não posso responder por nenhum daimio, senhor.
- Há maus rumores, neh? Sobre eles e sobre outros daimios cristãos.
- Homens sábios terão sempre os interesses do império no coração.
- Sim. Mas enquanto isso, contra a minha vontade, o império está se dividindo em dois campos. O meu e o de Ishido. Portanto todos os interesses do império se encontram num lado ou noutro. Não há posição intermediária. Onde se situam os interesses dos cristãos?
- Do lado da paz. O cristianismo é uma religião, senhor, não uma ideologia política.
- O seu Padre Gigante é o cabeça da sua Igreja aqui. Ouvi dizer que vocês... que vocês podem falar em nome do papa.
- Estamos proibidos de nos envolver na sua política, senhor.
- Acha que Ishido vai favorecê-los? - A voz de Toranaga tornou-se mais dura. - Ele é totalmente contra a sua religião. Eu sempre lhes demonstrei o meu favor. Ishido quer pôr em execução os editos de expulsão do taicum imediatamente e fechar totalmente o país a todos os bárbaros. Eu quero um comércio em expansão.
- Nós não controlamos nenhum dos daimios cristãos.
- Como os influencio, então?
- Não sei o suficiente para tentar aconselhá-lo.
- Sabe o bastante, amigo velho, para compreender que se Kiyama e Onoshi se erguem contra mim, ao lado de Ishido e o resto da canalha, todos os outros daimios cristãos logo os seguirão, e então serão vinte homens a se erguer contra cada um dos meus.
- Se a guerra vier, rezarei para que o senhor vença.
- Precisarei de mais do que de orações se vinte homens se opuserem a cada um dos meus.
- Não há um meio de evitar a guerra? Uma vez começada, ela nunca terminará.
- Também acredito nisso. Então todos perderão - nós, os bárbaros, e a Igreja cristã. Mas se todos os daimios cristãos se pusessem do meu lado agora - abertamente -, não haveria guerra. As ambições de Ishido estariam permanentemente refreadas. Ainda que erguesse sua bandeira e se revoltasse, os regentes poderiam aniquilá-lo como um verme de arroz.