Alvito sentiu o laço apertar-se em torno do pescoço.
- Estamos aqui apenas para difundir a palavra de Deus. Não para interferir na sua política, senhor.
- O seu líder anterior ofereceu os serviços dos daimios cristãos de Kyushu ao taicum antes que tivéssemos dominado aquela parte do império.
- Ele errou fazendo isso. Não tinha autorização da Igreja nem dos próprios daimios.
- Ofereceu navios ao taicum, navios portugueses para transportar nossas tropas para Kyushu, ofereceu soldados portugueses com armas para nos ajudar. Mesmo contra a Coréia e contra a China.
- Novamente, senhor, ele o fez incorretamente, sem a autorização de ninguém.
- Logo todos terão que tomar posição, Tsukku-san. Sim. Muito em breve.
Alvito sentiu a ameaça fisicamente.
- Estou sempre pronto para servi-lo.
- Se eu perder, você morrerá comigo? Cometerá jenshi... seguir-me-á, ou virá comigo para a morte, como um partidário leal?
- Minha vida está nas mãos de Deus. Assim como a minha morte.
- Ah, sim. O seu Deus cristão! - Toranaga moveu as espadas ligeiramente. Depois inclinou-se para a frente. - Onoshi e Kiyama comprometidos comigo, dentro de quarenta dias, e o conselho de regentes revoga os editos do taicum.
Até onde me atrevo a ir? perguntou-se Alvito, desamparado. Até onde?
- Não podemos influenciá-los do modo como o senhor crê.
- Talvez o seu líder devesse ordenar-lhes. Ordenar-lhes! Ishido trairá a vocês e a eles. Conheço-o pelo que é. O mesmo fará a Senhora Ochiba. Ela já não está influenciando o herdeiro contra vocês?
Sim, queria gritar Alvito. Mas Onoshi e Kiyama já obtiveram secretamente o juramento de Ishido, por escrito, de deixá-los designar os preceptores do herdeiro, um dos quais será cristão. E Onoshi e Kiyama fizeram um juramento sagrado de que estão convencidos de que você trairá a Igreja, assim que tiver eliminado Ishido.
- O padre-lnspetor não pode lhes dar ordens, senhor. Seria uma interferência imperdoável na sua política.
- Onoshi e Kiyama em quarenta dias, os editos do taicum revogados, e nada de padres imundos mais. Os regentes os proibirão de vir ao Japão.
- O quê?
- Vocês e os seus padres, apenas. Nenhum dos outros, os Roupas Pretas fedorentos, pedintes, os peludos descalços! Aqueles que berram ameaças estúpidas e não fazem senão criar problemas. Eles. Vocês podem ter a cabeça de todos se quiserem. .. dos que estão aqui.
Todo o ser de Alvito gritava por cautela. Toranaga nunca fora tão aberto. Um escorregão e você o ofenderá e o fará inimigo da Igreja para sempre.
Pense no que Toranaga está oferecendo! Exclusividade no império todo!
A única coisa que garantiria a pureza da Igreja e sua segurança enquanto crescesse forte. A única coisa de preço inestimável. A única coisa que ninguém pode oferecer - nem o papa! Ninguém - exceto Toranaga. Com Kiyama e Onoshi a apoiá-lo abertamente, Toranaga poderia esmagar Ishido e dominar o conselho.
O Padre Alvito nunca teria acreditado que Toranaga seria tão abrupto. Ou oferecesse tanto. Onoshi e Kiyama poderiam ser convencidos a voltar atrás? Aqueles dois se odiavam mutuamente. Por razões que apenas eles conheciam, haviam-se unido para se opor a Toranaga. Por quê? O que os faria trair Ishido?
- Não sou qualificado para responder-lhe, senhor, ou para falar sobre um assunto assim, neh? Só posso dizer-lhe que nosso único objetivo é salvar almas.
- Ouvi dizer que meu filho Naga está interessado na sua fé cristã.
Toranaga está ameaçando ou oferecendo? perguntou-se Alvito. Está oferecendo a permissão para Naga aceitar a fé - que cartada gigantesca não seria! - ou está dizendo: "A menos que vocês cooperem, eu lhe ordenarei que pare"? - O senhor seu filho é um dos muitos nobres que têm a mente aberta sobre religião, senhor.
Subitamente Alvito entendeu a enormidade do dilema que Toranaga estava encarando. Ele está encurralado - tem que fazer um acordo conosco, pensou o padre exultante. Tem que tentar! Tem que nos dar o que quisermos - se nós quisermos fazer um acordo com ele. Finalmente ele admite abertamente que os daimios cristãos detêm o equilíbrio do poder! O que quisermos! O que mais poderíamos ter? Nada, em absoluto. Exceto.. .
Deliberadamente ele baixou os olhos para os portulanos que abrira diante de Toranaga. Viu a mão dele estender-se e pôr os portulanos em segurança na manga do quimono.
- Ah, sim, Tsukku-san - disse Toranaga, sua voz melancólica e exausta. - Depois há os novos bárbaros, os piratas. O inimigo do seu país. Logo estarão chegando aqui aos magotes, não? Podem ser desencorajados... ou encorajados. Como este pirata isolado. Neh?
O Padre Alvito sabia que agora tinham tudo. Devo pedir a cabeça de Blackthorne numa bandeja de prata como a cabeça de São João Batista, para selar o negócio? Devo pedir permissão para construir uma catedral em Yedo, ou uma dentro dos muros do Castelo de Osaka? Pela primeira vez na vida o padre se sentiu à deriva, desorientado, diante do limiar do poder.
Não queremos mais do que é oferecido! Gostaria de poder firmar o negócio agora! Se dependesse apenas de mim, eu arriscaria. Conheço Toranaga e arriscaria. Eu concordaria e faria um juramento sagrado. Sim, eu excomungaria Onoshi e Kiyama se eles não concordassem, para ganhar essas concessões para a Madre Igreja. Duas almas por dezenas de milhares, por centenas de milhares, por milhões. É justo! Eu diria sim, sim, sim, pela glória de Deus. Mas não posso firmar nada, como você bem sabe. Sou apenas um mensageiro, e parte da minha mensagem...
- Preciso de ajuda, Tsukku-san. Preciso e agora.
- Tudo o que puder fazer, eu farei, Toranaga-sama. O senhor tem a minha promessa.
Então Toranaga disse com determinação:
- Esperarei quarenta dias. Sim. Quarenta dias.
Alvito curvou-se. Notou que Toranaga retribuiu a reverência mais profunda e formalmente do que jamais fizera antes, quase como se estivesse se curvando para o próprio taicum. O padre levantou-se, trêmulo. Saiu da sala, seguindo pelo corredor. Seu passo acelerou-se. Começou a correr.
Toranaga observou o jesuíta pela seteira enquanto ele cruzava o jardim lá embaixo. A shoji abriu-se, mas ele expulsou os guardas com rudeza e ordenou-lhes, sob pena de morte, que o deixassem sozinho. Seus olhos seguiram Alvito atentamente, através do portão fortificado, no adro, até o padre se perder no labirinto de muros e fortificações. Então, no silêncio solitário, Toranaga começou a sorrir. Arregaçou o quimono e começou a dançar.
Uma hornpipe.
CAPÍTULO 21
Pouco depois do crepúsculo, Kiri desceu nervosamente as escadas, seguida de duas criadas. Dirigiu-se para a sua liteira com cortinas, parada ao lado da cabana no jardim. Um volumoso manto cobria-lhe o quimono de viagem e fazia-a parecer ainda mais corpulenta. Usava um vasto chapéu de aba larga amarrado sob os maxilares.
A Senhora Sazuko esperava pacientemente por ela na varanda, pesadamente grávida, com Mariko ao lado. Blackthorne estava encostado ao muro perto do portão fortificado. Usava um quimono acinturado dos marrons, meias tabi e tamancos militares. No adro, fora do portão, a escolta de sessenta samurais pesadamente armados estava disposta em fileiras, cada terceiro homem portando um archote. A frente desses soldados, Yabu conversava com Buntaro - o marido de Mariko -, um homem pequeno, atarracado, quase sem pescoço. Ambos vestiam cotas de malhas, com arcos e aljavas aos ombros, e Buntaro usava um elmo de guerra, de aço, em forma de chifre. Carregadores e kagas acocoravam-se pacientes, num silêncio bem disciplinado, perto da volumosa bagagem.