A promessa do verão soprava na brisa ligeira, mas ninguém notou isso exceto Blackthorne, e até ele estava consciente da tensão que os rodeava a todos. Também estava intensamente consciente de que apenas ele estava desarmado.
Kiri caminhou lenta e penosamente para a varanda.
- Não devia estar esperando ao frio, Sazuko-san. Vai apanhar um resfriado! Deve pensar na criança agora. Estas noites de primavera ainda estão cheias de umidade.
- Não estou com frio, Kiri-san. Está fazendo uma noite adorável.
- Está tudo em ordem?
- Oh, sim, tudo perfeito.
- Gostaria de que não estivéssemos partindo. Sim. Odeio
partir.
- Não há por que se preocupar - disse Mariko, tranquilizadora, juntando-se a elas. Usava um chapéu de aba larga semelhante, mas o seu era brilhante onde o de Kiri era escuro. - Você vai apreciar muito estar de volta a Yedo. Nosso amo seguirá dentro de poucos dias.
- Quem sabe o que o amanhã trará, Mariko-san?
- O amanhã está nas mãos de Deus.
- Amanhã será um dia adorável, se não for, não será! - disse Sazuko. - Quem se preocupa com o amanhã? O agora é bom. As senhoras são lindas e vamos todos sentir a sua falta, Kiri-san, e a sua, Mariko-san! - Ela olhou para o portão, distraída pelo grito encolerizado de Buntaro com um dos samurais, que havia deixado cair um archote. Yabu, mais velho do que Buntaro, estava nominalmente no comando do destacamento. Vira Kiri chegar e, empertigado, cruzou o portão de volta. Buntaro o seguiu.
- Oh, Senhor Yabu... Senhor Buntaro - disse Kiri, com uma mesura nervosa. - Sinto muito tê-los feito esperar. O Senhor Toranaga ia descer mas acabou resolvendo o contrário. Devem partir agora, disse ele. Por favor, aceitem minhas desculpas.
- Não há necessidade de desculpas. - Yabu queria se ver longe do castelo o mais breve possível, longe de Osaka e de volta a Izu. Ainda mal podia acreditar que estava partindo com a cabeça no lugar, com as armas, com tudo. Enviara mensagens urgentes por pombo-correio à esposa em Yedo, para se certificar de que estaria tudo preparado em Mishima, sua capital, e a Omi, na aldeia de Anjiro. - Estão prontas?
Lágrimas brilharam nos olhos de Kiri.
- Deixe-me apenas recuperar o fôlego e entrarei na liteira. Oh, como gostaria de não ter que partir! - Olhou em torno, procurando Blackthorne, e finalmente deu com os olhos nele, na escuridão. - Quem é responsável pelo Anjin-san? Até que cheguemos ao navio?
Buntaro disse com impaciência:
- Ordenei-lhe que caminhasse ao lado da liteira de minha esposa. Se ela não conseguir controlá-lo, eu o farei.
- Talvez, Senhor Yabu, o senhor devesse escoltar a Senhora Sazuko...
- Guardas!
O grito de advertência viera do adro. Buntaro e Yabu acorreram para o portão fortificado, com todos os homens atrás deles e outros precipitando-se das fortificaçôes internas.
Ishido se aproximava pela avenida entre os muros do castelo, à frente de duzentos cinzentos. Parou no adro, do lado de fora do portão, e, embora nenhum homem parecesse hostil em nenhum dos lados e nenhum tivesse a mão sobre a espada ou uma seta no arco, puseram-se todos de prontidão.
Ishido fez uma elaborada reverência.
- Uma noite excelente, Senhor Yabu.
- Sim, sim, deveras.
Ishido fez um mecânico gesto de cabeça a Buntaro, que foi igualmente gélido, retribuindo com a mínima polidez permissível. Ambos tinham sido generais favoritos do taicum. Buntaro comandara um dos regimentos na Coréia quando Ishido estivera no comando supremo. Um acusara o outro de traição. Apenas a intervenção pessoal uma ordem direta do taicum haviam impedido a carnificina e uma vendetta.
Ishido examinou os marrons. Depois seus olhos descobriram Blackthorne. Viu o homem fazer-lhe uma meia mesura. Através do portão pôde ver as três mulheres e a outra liteira. Seus olhos pousaram em Yabu novamente.
- Poder-se-la pensar que estão todos indo para uma batalha, Yabu-san, ao invés de se tratar apenas de uma escolta cerimonial para a Senhora Kiritsubo.
- Hiromatsu-san expediu ordens, por causa dos assassinos Amida...
Yabu parou quando Buntaro avançou belicosamente e plantou suas pernas imensas no meio da soleira.
- Estamos sempre prontos para a batalha. Com ou sem armadura. Cada um dos nossos homens enfrenta dez, e cinqüenta dos comedores de alho. Nunca damos as costas e corremos como covardes remelentos, abandonando nossos companheiros para serem esmagados!
O sorriso de Ishido veio cheio de desprezo, a voz uma ferroada.
- Oh? Talvez o senhor tenha uma oportunidade dentro em breve... de erguer-se entre homens autênticos, não entre comedores de alho!
- "Dentro em breve" é quanto tempo? Por que não aqui?
Yabu colocou-se cuidadosamente entre eles. Também estivera na Coréia e sabia que havia verdade em ambos os lados e que nenhum dos dois merecia confiança, Buntaro menos que Ishido.
- Não esta noite porque estamos entre amigos, Buntaro-san - disse apaziguador, desejando desesperadamente evitar um conflito que os encerraria para sempre dentro do castelo. - Estamos entre amigos, Buntaro-san.
- Que amigos? Conheço os amigos... e conheço os inimigos! - Buntaro voltou-se para Ishido num repelão. - Onde está esse homem autentico. .. esse homem autêntico de que o senhor falou, Ishido-san? Hem? Ou homens? Deixe-o... deixe-os todos rastejar para fora de suas tocas e erguer-se na minha frente, eu, Toda Buntaro, senhor de Sakura, se algum deles tem sangue!
Todos se prepararam.
Ishido encarava-o malevolamente.
- Não é o momento, Buntaro-san - disse Yabu. - Amigos ou inim...
- Amigos? Onde? Nesse monte de esterco? - Buntaro cuspiu no pó.
A mão de um dos cinzentos voou para o punho da espada, dez marrons o imitaram, cinqüenta cinzentos uma fração de segundo depois, todos à espera de que Ishido desse voz de ataque.
Então Hiromatsu surgiu das sombras do jardim e atravessou o portão para o adro, a espada mortífera frouxa nas mãos e meio para fora da bainha.
- As vezes podem-se encontrar amigos no esterco, meu filho - disse calmamente. As mãos se relaxaram sobre o punho das espadas. Samurais nas ameias opostas - cinzentos e marrons - afrouxaram a tensão dos arcos armados de setas. - Temos amigos por todo o castelo. Por toda Osaka. Sim. Nosso Senhor Toranaga está sempre nos dizendo isso. - Erguia-se como uma rocha diante de seu único filho vivo, vendo o sangue luzir-lhe nos olhos. No momento em que Ishido fora visto se aproximando, Hiromatsu tomara posição de combate no desvão interno do portão. Depois, quando o primeiro perigo passara, movera-se com silêncio felino para as sombras. Cravou o olhar nos olhos de Buntaro. - Não é assim, meu filho?
Com um esforço enorme, Buntaro assentiu e recuou um passo. Mas continuou bloqueando o caminho para o jardim.
Hiromatsu voltou a atenção para Ishido:
- Não o esperávamos esta noite, Ishido-san.
- Vim prestar minhas homenagens à Senhora Kiritsubo. Só fui informado há poucos momentos de que alguém ia partir.
- Será que meu filho tem razão? Deveríamos nos preocupar por não estarmos entre amigos? Somos reféns que devem implorar favores?
- Não. Mas o Senhor Toranaga e eu combinamos quanto ao protocolo durante a sua visita. A notícia da chegada ou partida de altas personalidades devia ser dada com um dia de antecedência, para que eu pudesse apresentar meus respeitos de modo adequado.
- Foi uma decisão repentina do Senhor Toranaga. Não considerou a questão de mandar uma de suas damas de volta a Yedo importante o bastante para perturbá-lo - disse Hiromatsu. - Sim, o Senhor Toranaga está meramente se preparando para a sua própria partida.
- Isso já foi decidido?
- Sim. Partirá no dia em que se encerrar a reunião dos regentes. O senhor será informado no momento correto, conforme o protocolo.