- Ótimo. Claro que a reunião pode ser novamente adiada.
O Senhor Kiyama piorou, aliás.
- Foi adiada? Ou não?
- Simplesmente mencionei que poderia ser. Esperamos ter o prazer da presença do Senhor Toranaga por um longo tempo ainda, neh? Ele caçará comigo amanhã?
- Solicitei-lhe que cancelasse todas as caçadas até a reunião. Não considero seguro. Já não considero nenhum setor desta área seguro. Se assassinos imundos podem passar pelas suas sentinelas com tanta facilidade, a traição fora dos muros não seria muito mais fácil?
Ishido deixou passar o insulto. Sabia que isso e as afrontas inflamariam seus homens ainda mais, mas ainda não lhe convinha acender o estopim. Ficara contente por Hiromatsu ter intercedido, pois quase perdera o controle. O pensamento da cabeça de Buntaro no pó, com os dentes batendo, o invadira voraz.
- Todos os comandantes daquela noite já foram mandados para o Grande Vazio, como o senhor bem sabe. Os Amida serão destruídos dentro de muito breve. Os regentes serão solicitados a tratar deles de uma vez por todas. Agora talvez eu possa prestar minhas homenagens a Kiritsubo-san.
Ishido avançou. Sua guarda pessoal de cinzentos o seguiu. Mas todos estacaram com um estremecimento. Buntaro tinha uma seta no arco e, embora a seta estivesse apontada para o chão, o arco já estava vergado ao máximo.
- Os cinzentos estão proibidos de atravessar este portão. Isso foi combinado pelo protocolo.
- Sou o governador do Castelo de Osaka e comandante da guarda do herdeiro! Tenho o direito de ir a qualquer lugar!
Mais uma vez Hiromatsu tomou o controle da situação.
- Realmente, o senhor é o comandante da guarda do herdeiro e tem o direito de ir a qualquer lugar. Mas apenas cinco homens podem acompanhá-lo através deste portão. Não foi isso o combinado entre o senhor e meu amo enquanto ele estiver aqui?
- Cinco ou cinqüenta, não faz diferença! Esse insulto é int...
- Insulto? Meu filho não teve a intenção de ofender. Está obedecendo a ordens combinadas pelo senhor e pelo suserano dele. Cinco homens. Cinco! - A palavra era uma ordem. Hiromatsu voltou as costas a Ishido e olhou para o filho. - O Senhor Ishido nos honra querendo prestar suas homenagens à Senhora Kiritsubo.
A espada do velho estava duas polegadas fora da bainha e ninguém tinha certeza se era para saltar sobre Ishido se a luta começasse ou decepar a cabeça do filho dele, se este apontasse a seta. Todos sabiam que não havia afeição entre pai e filho, apenas um respeito mútuo pela violência do outro.
- Bem, meu filho, o que diz ao comandante da guarda do herdeiro?
O suor escorria pelo rosto de Buntaro. Após um momento, afastou-se para o lado e diminuiu a tensão do arco. Mas conservou a seta assestada. Ishido vira muitas vezes Buntaro em listas de competição de tiro ao alvo a duzentos passos, seis setas disparadas antes que a primeira atingisse o alvo, todas igualmente precisas. Teria com toda a satisfação ordenado o ataque agora e esmagado aqueles dois, o pai e o filho, e todo o resto. Mas sabia que seria gesto de um tolo começar com eles e não com Toranaga, e, em todo caso, talvez quando começasse a verdadeira guerra, Hiromatsu se sentisse tentado a abandonar Toranaga e a lutar com ele. A Senhora Ochiba dissera que abordaria o velho Punho de Aço quando chegasse o momento. Ela jurara que ele nunca desertaria o herdeiro, que uniria Punho de Aço a ela, afastando-o de Toranaga, talvez até conseguindo que ele assassinasse o amo e assim evitasse qualquer conflito. Que poder, que segredo, que conhecimento tem ela sobre ele? perguntou-se Ishido mais uma vez.
Ele ordenara que a Senhora Ochiba, se possível, saísse em segredo de Yedo, antes da reunião dos regentes. A vida dela não valeria um grão de arroz após o impedimento de Toranaga - com que todos os outros regentes haviam concordado. Impedimento e seppuku imediato, forçado se necessário. Se ela escapar, ótimo. Se não escapar, pouco importa. O herdeiro reinará dentro de oito anos.
Atravessou o portão a passos largos, rumo ao jardim. Hiromatsu e Yabu acompanharam-no. Cinco guardas o seguiram. Curvou-se polidamente e desejou boa viagem a Kiritsubo. Depois, satisfeito por tudo estar como devia, voltou-se e partiu com todos os seus homens.
Hiromatsu respirou de alívio e coçou a barba.
- É melhor partir agora, Yabu-san. Aquele verme de arroz não lhe causará mais problemas.
- Sim. Imediatamente.
Kiri passou o lenço sobre o suor da testa.
- Ele é um maukami! Tenho medo pelo nosso amo. - As lágrimas começaram a fluir. - Não quero partir!
- Não se fará nenhum dano ao Senhor Toranaga, prometo-lhe, senhora - disse Hiromatsu. - A senhora deve partir, agora!
Kiri tentou sufocar os soluços e desatou o espesso véu que pendia da aba do seu vasto chapéu.
- Oh, Yabu-sama, o senhor escoltaria a Senhora Sazuko para dentro? Por favor?
- E claro.
A Senhora Sazuko curvou-se e saiu às carreiras, seguida de Yabu. A garota subiu correndo os degraus. Ao se aproximar do topo da escada, escorregou e caiu.
- O bebê! - guinchou Kiri. - Ela se machucou?
Todos os olhos faiscaram na direção da garota prostrada. Mariko correu até ela mas Yabu alcançou-a primeiro. Ergueu-a do chão. Sazuko estava mais assustada do que ferida.
- Estou bem - disse, um pouco ofegante. - Não se preocupem. Estou perfeitamente bem. Foi tolice minha.
Quando se certificou de que ela dizia a verdade, Yabu voltou ao adro, preparando a partida imediata.
Mariko retornou ao portão, enormemente aliviada. Blackthorne olhava boquiaberto para o jardim.
- O que é? - perguntou ela.
- Nada - disse ele após uma pausa. - O que foi que a Senhora Kiritsubo gritou?
- "O bebê! Ela se machucou?" A Senhora Sazuko está grávida explicou Mariko. - Ficamos todos com medo de que a queda pudesse tê-la ferido.
- Grávida de Toranaga-sama?
- Sim - disse Mariko, olhando para a liteira atrás.
Kiri estava por trás das cortinas opacas agora, o véu solto sobre o rosto. Pobre mulher, pensou Mariko, sabendo que ela estava apenas tentando esconder as lágrimas. Eu, se fosse ela, estaria igualmente aterrorizada por deixar o meu senhor.
Seus olhos dirigiram-se para Sazuko, que acenou mais uma vez do alto da escada, depois entrou. A porta de ferro fechou-se clangorosa atrás dela. Soou como um dobre de morte, pensou Mariko. Será que os veremos de novo algum dia?
- O que Ishido queria? - perguntou Blackthorne.
- Estava... não sei a palavra correta... estava investigando... fazendo uma ronda de inspeção sem prevenir.
- Por quê?
- Ele é o comandante do castelo - disse ela, não querendo dizer a verdadeira razão.
Yabu gritou algumas ordens à frente da coluna e se pôs em marcha. Mariko entrou na sua liteira deixando as cortinas parcialmente abertas. Buntaro fez sinal a Blackthorne que se movesse ao lado dela.
Ele obedeceu.
Esperaram que a liteira de Kiri passasse. Blackthorne olhou fixamente para a figura indistinta, toda velada, ouvindo soluços abafados. As duas atemorizadas criadas, Asa e Sono, caminhavam ao lado da liteira. Então ele olhou para trás uma última vez. Hiromatsu estava em pé junto da pequena cabana, sozinho, apoiado na espada. Logo em seguida o jardim sumiu da sua vista quando os samurais fecharam a imensa porta fortificada. A grande trave de madeira foi colocada no lugar. Não havia guardas no adro agora. Estavam todos nas ameias.
- O que está acontecendo? - perguntou Blackthorne.
- Por favor, Anjin-san?
- É como se eles estivessem sob cerco. Os marrons contra os cinzentos. Estão esperando problemas? Mais problemas?
- Oh, sinto muito. É normal fechar as portas à noite - disse Mariko.
Ele começou a caminhar ao lado dela quando a liteira se pôs em movimento, Buntaro e o remanescente da retaguarda tomando posição atrás dele. Blackthorne observava a liteira à frente, o passo oscilante dos carregadores e o vulto nebuloso por trás das cortinas. Estava muito inquieto embora tentasse ocultá-lo. Quando Kiritsubo de repente gritara, ele olhara para ela imediatamente. Todos os demais olharam para a garota caída na escada. O impulso dele foi olhar para lá igualmente, mas viu Kiritsubo de repente correr com surpreendente velocidade para dentro da pequena cabana. Por um instante pensou que seus olhos lhe estivessem pregando uma peça, porque na noite o manto e o quimono escuros dela, o chapéu escuro e o véu escuro tornavam-na quase invisível. Viu quando a figura desapareceu um momento, depois reapareceu, arremessou-se para dentro da liteira e cerrou as cortinas com um puxão. Por um instante os olhos dos dois se cruzaram. Era Toranaga.