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Seguiu Struan pela praia, consumido por um desgosto consigo mesmo.

— Bom-dia, cavalheiros — disse Struan, ao encontrar alguns dos negociantes, perto do mastro. — Bela manhã, por Deus.

— Está frio, Dirk — disse Brock. — E seria mais gentil de sua parte ser mais apressado.

— Cheguei cedo demais. Sua Excelência ainda não desembarcou e não foi dado o tiro como sinal.

— Sim, está com uma hora e meia de atraso, e aposto que foi tudo combinado entre você e aquele lacaio cagão.

— Eu lhe agradeceria, Sr. Brock, se não se referisse a Sua Excelência nesses termos — exclamou o Capitão Glessing.

— E eu lhe agradeceria se guardasse suas opiniões para si mesmo. Não estou na Marinha e nem sob seu comando. — Brock cuspiu acintosamente. — Melhor pensar a respeito da guerra que não está travando.

A mão de Glessing apertou sua espada.

— Jamais pensei que um dia a Marinha Real fosse chamada para proteger contrabandistas e piratas. É o que vocês são. — Olhou para Struan. — Todos vocês. Fez-se um silêncio repentino e Struan riu.

— Sua Excelência não concorda com você.

— Temos decretos parlamentares, por Deus, os Decretos de Navegação. E um deles diz “Qualquer navio armado sem autorização pode ser tomado como prêmio pela marinha de qualquer nação”. A frota de vocês tem autorização?

— Há muitos piratas nessas águas, Capfitão Glessing. Como sabe — disse Struan, descontraidamente. — Temos armas para nos proteger. Apenas isso.

— O ópio é contra a lei. Quantos milhares de fardos vocês contrabandearam para a China, pela costa, violando as leis da China e da humanidade? Três mil? Vinte mil?

— O que fazemos aqui é bem conhecido em todos os tribunais da Inglaterra.

— O “comércio” de vocês desonra a bandeira.

— É melhor agradecer a Deus por esse comércio, porque sem ele a Inglaterra não teria chá algum e nem seda, e sim uma pobreza generalizada, que a arruinaria.

— Tem razão, Dirk — disse Brock. Depois, virou-se de novo para Glessing. — É melhor meter logo em sua cabeça que sem negociantes não haverá Império Britânico e nem impostos para comprar navios de guerra e pólvora. — Olhou para o uniforme imaculado de Glessing e suas joelheiras e meias brancas, sapatos afivelados e chapéu de três bicos. — E dinheiro nenhum para pagar muito aos capitães!

Os fuzileiros piscaram os olhos e alguns dos marinheiros riram, mas muito cautelosamente.

— É melhor que agradeça a Deus a existência da Marinha Real, por Deus. Sem ela, não haveria negociantes por aqui.

Estrondeou um tiro de canhão da nau capitania, era o sinal. Abruptamente, Glessing marchou para o mastro.

— Apresentar armas!

Pegou a proclamação e a multidão silenciou. Então, com a raiva algo abrandada, começou a ler:

— “Por ordem de Sua Excelência, o Venerável William Longstaff, CapitãoSuperintendente do Comércio na China de Sua Majestade Britânica, a Rainha Vitória. De acordo com o documento conhecido como o Tratado de Chuenpi, assinado em 20 de janeiro deste ano de Nosso Senhor, por Sua Excelência, em nome do Governo de Sua Majestade e por Sua Excelência Tin-sen, Plenipotenciário de Sua Majestade Tao Kuang, Imperador da China, eu, Capitão Glessing, RN, tomo, por meio deste, posse desta Ilha de Hong Kong, em nome de Sua Majestade Britânica, de seus herdeiros e cessionários, em caráter perpétuo, sem estorvo ou impedimento, neste dia 26 de janeiro, ano da Graça de 1841. O solo desta ilha é agora solo inglês. Deus Salve a Rainha!”

O pavilhão do Reino Unido irrompeu, desfraldado, no topo do mastro, e a guarda de honra dos fuzileiros disparou uma salva. Depois, os canhões rugiram em toda frota e o vento ficou espesso com o cheiro penetrante de pólvora. Os que se encontravam na praia deram vivas à rainha.

Agora, está feito, pensou Struan. Agora, estamos comprometidos. Agora, podemos começar. Afastou-se do grupo e foi até a linha da rebentação e, pela primeira vez, virou de costas para a ilha e olhou o grande porto e a terra, atrás: a China continental, a uns mil metros de distância.

A península continental era de terras baixas, com nove colinas achatadas, e projetava-se para dentro do porto que a cercava. Era chamada “Kau-lung” — “Kowloon”, como pronunciavam os mercadores — “Nove Dragões”. E ao norte ficava a ilimitada e desconhecida extensão da China.

Struan lera todos os livros já escritos pelos três europeus que tinham ido à China e voltado. Marco Polo, há quase seiscentos anos, e dois padres católicos, que haviam obtido permissão para entrar em Pequim, há duzentos anos. Os livros quase nada revelavam.

Durante duzentos anos, nenhum europeu tivera permissão para entrar na China. Uma vez — contra a lei — Struan fora até uma milha de distância da costa, para o interior, chegando perto de Swatow, isto quando vendia ópio, mas os chineses eram hostis e ele estava sozinho, apenas em companhia de seu primeiro-imediato. Não foi a hostilidade que o fez voltar. Simplesmente, a enormidade de seu número e a ilimitada extensão da terra.

Sangue de Cristo!, ele pensou. Nada sabemos a respeito da mais antiga e mais populosa nação da terra. O que existe dentro dela?

— Longstaff vai desembarcar? — Robb perguntou, quando ele se aproximou.

— Não, garoto. Sua Excelência tem coisas mais importantes para fazer.

— O quê?

— Coisas como ler e escrever despachos. E fazer acordos particulares com o almirante.

— Para quê?

— Para proibir o comércio de ópio. Robb riu.

— Não estou brincando. Era para isso que ele queria me ver... com o almirante. Queria pedir meu conselho a respeito de quando emitir a ordem. O almirante disse que a Marinha não teria nenhum problema para colocá-la em vigor.

— Deus do céu! Longstaff está louco?

— Não. É apenas um sujeito de mente simples. — Struan acendeu um charuto. — Eu lhe disse para emitir a ordem aos quatro toques do sino.

— Isto é loucura! — exclamou Robb.

— É muito sensato. A Marinha não colocará em vigor a ordem durante uma semana: “a fim de dar aos negociantes da China tempo para dispor de seus abastecimentos”.

— Mas então, o que vamos fazer? Sem ópio, estamos liquidados. O comércio na China está liquidado. Liquidado.

— Quanto dinheiro vivo nós temos, Robb?

Robb olhou em torno para se certificar de que não havia ninguém por perto, e baixou a voz.

— Existe o ouro na Escócia. Um milhão e cem mil libras esterlinas em nosso banco na Inglaterra. Cerca de cem mil em barras de prata, aqui. Devem-nos três milhões pelo ópio apreendido. Temos duzentos mil guinéus de ópio no Scarlet Cloud, de acordo com o atual preço do mercado. Existe...

— Cancele o Scarlet Cloud, garoto. Está perdido.

— Ainda há uma chance, Dirk. Vamos dar a ele mais um mês. Há cerca de cem mil guinéus em ópio no navio. Devemos nove mil em saques à vista.

— Quais são os custos de operação durante os próximos seis meses?

— Cem mil guinéus em pagamento por navios e salários e impostos.

Struan pensou um momento.

— Amanhã haverá pânico entre os negociantes. Nenhum deles, exceto Brock, talvez, pode vender seu ópio em uma semana. É melhor você embarcar todo nosso ópio para a costa esta tarde. Eu acho...

— Longstaff terá de mudar esta ordem — disse Robb, com crescente ansiedade. — Ele tem de fazer isso. Vai arruinar o erário e...

— Quer me ouvir? Quando o pânico estiver instalado, amanhã, pegue todo tael que tem, e todo tael que puder pedir emprestado, e compre ópio. Você deverá poder comprar a dez centavos de dólar.

— Não poderemos vender todo o nosso em uma semana, quanto mais uma quantidade maior. Struan sacudiu a cinza de seu charuto.