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— Agora eu vou embora, rapazes.

Os meninos correram até onde se encontrava, e se agarraram a ele, implorando-lhe para não mandá-los embora, com as lágrimas escorrendo e esmagados pelo terror. Mas ele os empurrou e forçou a voz a ficar dura.

— Vão embora, agora. Obedeçam ao Tai-Pan, aqui. Ele vai ser como um pai para vocês.

— Não nos mande embora, papai — disse Fred, em tom de lamentação. — Eu sou um bom menino. Bert e eu somos bons meninos. Papai, não nos mande embora.

Estavam perdidos na imensidão de sua dor, com os ombros soerguidos.

Scragger pigarreou ruidosamente e cuspiu. Depois de hesitar um segundo, puxou sua

faca e pegou o rabicho de Bert. O eurasiano gritou de horror e tentou libertar-se. Mas Scragger cortou o rabicho e esbofeteou o menino, que estava histérico, com força suficiente para fazê-lo sair do seu choque, mas sem machucá-lo.

— Ah, papai — disse Fred, tremulamente, com sua vozinha esganiçada — você sabia que Bert prometeu à mãe dele conservar o cabelo direito.

— É melhor eu fazer isso, Fred, antes que outra pessoa faça — disse Scragger, com a voz cheia de dor. — Bert não precisa disso, agora. Ele vai ser um grã-fino, como você.

— Não quero ser grã-fino, quero ficar em casa.

Scragger despenteou os cabelos de Bert pela última vez. E de Fred.

— Adeus, meus filhos — disse ele.

Saiu correndo e a noite o engoliu.

CAPÍTULO DEZESSETE

— Por que ir tão cedo, Tai-Pan? — perguntou May-may, sufocando um bocejo. — Duas horas de sono, a noite passada, não são suficientes para você. Vai perder seu vigor.

— Vamos, moça! E eu já lhe disse que não precisa me servir.

Struan empurrou o prato de seu desjejum e May-may lhe despejou mais chá. Era uma linda manhã. O sol lançava seus raios através das janelas de treliça e formava delicados desenhos no chão.

May-may tentou fechar os ouvidos às batidas e ao ruído de serras das contrações ao longo de toda a praia, no Vale Feliz, mas não conseguiu. O baralho era permanente e esmagador, noite e dia, desde que haviam chegado, três dias atrás.

— Há muita coisa para ser feita, e eu quero ter certeza de que os preparativos para o baile marcham bem — disse Struan.

— Vai começar uma hora antes do anoitecer.

May-may estremeceu de delícia, ao se lembrar do seu vestido secreto e de como era bonito.

— Tomar o desjejum ao amanhecer é um costume barbarista.

— Bárbaro — ele corrigiu. — E não está amanhecendo. São nove horas.

— Parece amanhecer. — Ela ajeitou mais confortavelmente seu robe de seda amarela, sentindo os bicos dos seios duros contra o tecido. — Quanto tempo vão demorar esses barulhos horrorosos?

— Vão parar dentro de mais ou menos um mês. E não há trabalho aos domingos, é claro — disse ele, quase sem escutá-la, pensando a respeito de tudo que teria de fazer naquele dia.

— É barulho demais — disse ela. — E tem alguma coisa errada nesta casa.

— O quê? — perguntou ele, distraído, sem escutar.

— Está dando uma má impressão, uma impressão péssima. Tem certeza de que o feng-shui está correto, hein?

Feng o quê? — Ele ergueu os olhos, espantado, e prestou-lhe completa atenção. May-may estava horrorizada.

— Você não procurou um cavalheiro feng-shui?

— Quem é esse?

— Pelo sangue de Cristo, Tai-Pan! — ela disse, exasperada. — Você constrói uma casa e não consulta o feng-shui? Que loucura! Ayeee yah! Vou tratar disso hoje.

— O que faz o cavalheiro feng-shui — perguntou Struan — além de custar dinheiro?

— Verifica se o feng-shui está correto, é claro.

— E o que, pelo amor de Deus, é feng-shui?

— Se o feng-shui está ruim, os espíritos do mal entram na casa e a pessoa tem um mau pagode terrível e doenças terríveis. Se o feng-shui for bom, então não entram maus espíritos. Todos sabem a respeito do feng-shui.

— Você é uma boa cristã e não acredita em espíritos do mal e nem em bruxaria.

— Concordo plenamente, Tai-Pan, mas o feng-shui é tremendamente importante para as casas. Não se esqueça de que estamos na China, e na China...

— Muito bem, May-may — ele disse, com resignação. — Consiga um cavalheiro feng-shui para fazer bruxaria, se você precisa disso.

— Ele não faz bruxaria — ela disse, em tom de importância. — Verifica se a casa está em boa posição, diante das correntes do Céu-Terra-Ar. E de que não é construída num poço de dragão.

— Ah?

— Ah, meu bom Deus, como diz você, às vezes! Isso seria horrível, porque então o dragão que dorme na terra não poderia mais dormir em paz. Pelo sangue de Cristo, espero que não estejamos em seu pescoço! Ou na cabeça! Você poderia dormir com uma casa em seu pescoço, ou na cabeça? Claro que não! Se o sono do dragão for perturbado, claro que coisas muito terríveis acontecerão. Teríamos de nos mudar imediatamente.

— Ridículo!

— Muito ridículo, mas nós nos mudaríamos, de qualquer jeito. Eu, ah, eu protejo nós dois. Ah, sim. É muito importante a gente proteger nosso homem, e nossa família. Se a casa estiver construída em cima de um dragão, nós nos mudaremos.

— Então é melhor você dizer ao cavalheiro feng-shui para ter o cuidado de não encontrar nenhum dragão por aqui, por Deus. Ela fez um gesto de amuo com o queixo.

— O cavalheiro do feng-shui não vai ensinar você a pilotar um navio... por que você quer ensinar a ele alguma coisa a respeito de dragões, hein? Não é fácil ser um cavalheiro do feng-shui.

Struan ficou satisfeito de ver que May-may começava de novo a ser ela mesma. Notara que, desde a volta a Cantão, de Macau, e durante a viagem para Hong Kong, ela parecia ressentida e distraída. Particularmente nos últimos dias. E ela tinha razão, o barulho era muito desagradável.

— Bom, eu estou saindo.

— Seria correto eu convidar Marr-rry Sin-clcãr hoje?

— Sim. Mas não sei onde ela está... e nem se já voltou.

Ela está na nau capitania. Chegou ontem, com sua ama, Ah Tat, e seu vestido de baile. É preto e muito bonito. Vai custar a você duzentos dólares. Ayeee yah, se você me deixasse ajeitar o vestido, eu economizaria sessenta ou setenta dólares para você, pode ter certeza. A cabina dela é vizinha à do irmão.

— Como você sabe de tudo isso?

— Sua ama é a quarta filha da irmã da mãe de Ah Sam. De que adiantaria uma escrava insinuante como Ah Sam, se ela não mantivesse a mãe informada e nem tivesse contatos?

— Como a mãe de Ah Sam lhe contou?

— Ah, Tai-Pan, você é tão engraçado — exclamou May-may. — Não é a mãe de Ah Sam, sou eu. Todas as escravas chinesas chamam sua patroa de “Mãe”. Exatamente como ela chama você de “Pai”.

— É mesmo?

— Todas as escravas chamam o dono da casa de “Pai”. É um costume antigo e muito cortês. Então Ah Tat, escrava de Marry, contou a Ah Sam. Ah Sam, que é uma bobalhona preguiçosa e inútil, bem precisada de umas boas surras, então contou à sua “mãe”. A mim. É realmente muito simples. E, se você falasse um idioma chinês, chamaria Ah Sam de “Filha”.

— Para que você quer ver Mary?

— Ficar sem conversar dá muita solidão. Só falo cantonês, não se preocupe. Ela sabe que eu estou aqui.