— Como?
— Ah Sam contou a Ah Tat — ele disse, como se estivesse dando explicações a uma criança. — Naturalmente, uma notícia tão interessante, Ah Tat tinha de contar à sua mãe — ela contou a Marrry. Aquela puta velha da Ah Tat é uma mina de jade de segredos.
— Ah Tat é uma prostituta?
— Pelo sangue de Cristo, Tai-Pan, só estou falando em linguagem figurada. Você realmente devia voltar para a cama. Está muito tolo hoje de manhã. Ele terminou seu chá e empurrou o prato.
— Não é de admirar, ouvindo tantos disparates. Vou almoçar com Longstaff, então darei o recado a Mary. Que; hora eu devo marcar?
— Obrigada, Tai-Pan, não se incomode. Ah Sam será melhor. Assim ninguém saberá, a não ser as criadas e elas sabem tudo, de qualquer jeito, pode ter certeza.
Lim Din abriu a porta. Era o criado pessoal de Struan, além de cozinheiro, um homenzinho atarracado, na casa dos cinqüenta, muito limpo, com suas calças negras e túnica branca. Tinha um rosto redondo e feliz, e olhos penetrantes, astutos.
— Senhor, a senhorita e o senhor vieram visitar. Pode?
— Senhor o quê? — Struan estava espantado de alguém ser tão descortês a ponto de aparecer sem ser convidado. Lim Din encolheu os ombros.
— Senhor e senhorita. Quer ver que senhor, que senhorita?
— Ah, não se incomode — disse Struan, e se levantou da mesa.
— Está esperando convidados? — perguntou May-may.
— Não.
Struan saiu da sala e entrou na pequena ante-sala. Abriu a porta mais afastada e fechou-a atrás de si. Passou ao corredor que conduzia ao saguão e aos aposentos separados, na frente da casa. E, no momento em que chegou ao corredor, soube que um dos visitantes era Shevaun. Seu perfume, uma fragrância turca especial que só ela usava, havia mudado delicadamente a qualidade do ar.
Seu coração bateu mais rápido e sua raiva diminuiu, enquanto caminhava pelo corredor, com suas macias botas curtas de couro estalando contra o chão de pedra, e se encaminhava à sala de estar.
— Olá. Tai-Pan — disse Shevaun.
Shevaun tinha vinte anos e era graciosa como uma gazela. Usava o cabelo ruivo escuro, mais escuro do que o de Struan, em longos cachos. Seu busto volumoso, sob o vestido de veludo verde discretamente decotado, erguia-se sobre uma cintura muito delgada. Seus tornozelos e pés delicados apareciam sob uma dúzia de anáguas. Seu gorro era verde, e a sombrinha de um laranja forte.
Sim, pensou Struan, cada dia ela está mais bonita.
— Bom-dia, Shevaun, Wilf.
— Bom-dia. Desculpe aparecer sem ser convidado. — Wilf Tillman estava muito constrangido.
— Ah, vamos, tio — disse Shevaun, alegremente — é um bom e velho costume americano fazer votos de felicidades para casa.
— Não estamos na América, querida.
Tillman desejava estar, hoje. E que Shevaun estivesse casada, em segurança, com Jeff Cooper, e não mais sob sua responsabilidade. Maldita Shevaun. E maldito Jeff, ele pensou. Eu queria muito que o homem fizesse seu pedido formalmente. Então eu poderia, simplesmente, anunciar o casamento, e tudo acabaria bem. Mas toda essa indecisão em torno do assunto é ridícula. “Vamos dar tempo a ela. Há muito tempo”, Jeff está sempre dizendo. Mas eu sei muito bem que há muito pouco tempo, agora que Struan está viúvo. Tenho absoluta certeza de que Shevaun está caída pelo Tai-Pan. Por que outro motivo insistiria em vir aqui, hoje de manhã? Por que não pára de fazer perguntas a respeito dele?
Todo o caminho até à casa de Struan, ele estivera ponderando sobre a possível sabedoria de uma união entre Struan e Shevaun. Naturalmente, poderia haver vantagens financeiras definidas, mas Struan era totalmente oposto ao estilo de vida deles, na América — ele, simplesmente, não entenderia.
Com certeza, iria virar Shevaun contra nós, pensou Tillman. Forçaria as coisas, através dela. Jeff ficaria furioso com a perda dela e, provavelmente, romperia a sociedade Cooper-Tillman. Não há nada que eu possa fazer para impedir isso. Se a companhia se desfizer, não haverá dinheiro para o irmão John oferecer recepções tão luxuosas, em Washington. A política é cara e, sem um apoio político, a vida será muito difícil para a família. Além disso, precisamos de qualquer ajuda disponível para enfrentar os malditos Estados do Norte. Não, pelo amor de Deus. Shevaun vai casar com Jeff e não com o Tai-Pan, não há dúvida.
— Desculpe vir sem ser convidado — ele repetiu.
— São ambos muito bem-vindos. — Struan fez sinal a Lim Din, em direção ao garrafão de bebida e aos copos. — Xerez?
— Ah, obrigado, mas acho que já vamos — disse Tillman. Shevaun riu e seu nariz arrebitado se enrugou graciosamente.
— Mas mal acabamos de chegar. Eu queria ser a primeira a dar as boas-vindas a você e à sua casa, Tai-Pan — disse ela.
— Está dando. Sente-se. É bom ver você.
— Compramos alguns presentes para a casa. — Ela abriu a sacola e tirou um pequeno pão, um vidrinho de sal e uma garrafa de vinho. — É um velho costume, a fim de trazer sorte para a casa. Eu queria vir sozinha, mas o tio disse que seria de péssimo gosto. Não é absolutamente culpa dele.
— Estou feliz porque você veio. — Struan pegou o pão. Era dourado, com a massa fresca e cheirosa..— Cozinhei-o a noite passada. Struan partiu um pedaço e provou-o. — Excelente!
— Na verdade, você não precisava comer. É apenas simbólico. — Ela riu outra vez, pegou sua sacola e a sombrinha. — E, agora que já cumpri meu dever, nós vamos embora.
— Meus primeiros convidados não vão fazer uma coisa dessas. Eu insisto, pelo menos um xerez.
Lim Din ofereceu os copos. Shevaun pegou um e se instalou confortavelmente, enquanto Wilf Tillman franzia a testa. Lim Din afastou-se.
— Você realmente cozinhou o pão? Sozinha? — Struan perguntou.
— É muito importante uma moça saber cozinhar — ela disse, e devolveu-lhe o olhar, com um jeito desafiador. Tillman bebeu o xerez.
— Shevaun é uma boa cozinheira.
— Vou comer um pão por dia — disse Struan. Ele se sentou na poltrona de couro e ergueu o copo. — Muitos anos de vida!
— Para você também.
— Sua casa é bonita, Tai-Pan.
— Obrigado. Quando estiver terminada, eu gostaria de lhe mostrar todos os cômodos. — Struan sabia que ela estava curiosa para descobrir se os boatos a respeito de May-may eram verdadeiros. — Aristotle disse que você não estava bem a última vez em que a viu.
— Foi apenas um resfriado — ela disse.
— Vai mandar fazer outro retrato?
— Estou pensando nisso — disse ela, tranqüilamente. — O querido Sr. Quance. Admiro tanto os quadros dele. Titio e eu estamos tentando convencê-lo a passar uma temporada, como experiência, em Washington. Acho que ele ganharia uma fortuna.
— Nesse caso, eu acho que você teria um visitante. — Struan ficou imaginando se a inocência no rosto dela era fingida ou real. Olhou para Tillman. — Como vão os negócios?
— Excelentes, obrigado. Jeff volta de Cantão hoje à tarde. As coisas estão explodindo na Colônia. Você voltará para lá?
— Dentro de poucos dias.
— Ouvi dizer que o Blue Cloud e o Gray Witch estão empatando. Um de nossos navios, vindo de Cingapura, passou por eles há dois dias, em plena velocidade. Vai depender de sorte.
Enquanto os dois homens conversavam, polidamente, sobre questões comerciais, nenhum deles realmente interessado na opinião do outro, Shevaun bebia seu xerez e examinava Struan. Ele estava vestido com um terno de lã leve, bem cortado e elegante.
Você é um homem e tanto, ela pensou; talvez não saiba, Dirk Struan, mas vou casar com você. Fico imaginando como será sua amante oriental; sinto a presença dela na casa. Amante ou não, eu sou a moça para você. E, quando eu for sua mulher, você não vai precisar se afastar, por muito tempo. Por muitíssimo tempo.
— Bom, acho que já vamos — disse Tillman, e se levantou. — Mais uma vez, desculpe por chegar sem convite.