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Clive Monsey era o vice-capitão-superintendente de comércio de Longstaff, funcionário público por profissão e, como Longstaff, designado pelo Ministério de Relações Exteriores. Normalmente as funções de Monsey prendiam-no em Macau, onde Longstaff mantinha seu quartel-general permanente.

— Há também alguns despachos interessantes — disse Longstaff.

O interesse de Struan aumentou. Sabia que nenhum deles continha a aprovação formal do Tratado de Chuenpi e a indicação de Longstaff como primeiro governador da Colônia de Hong Kong, porque a notícia do fim da guerra e da vitória mal estaria chegando à Inglaterra. Struan aceitou o xerez.

— Sobre o Oriente Médio? — perguntou, e prendeu a respiração.

— Sim. A crise acabou, graças a Deus! A França aceitou o acordo do Ministro de Relações Exteriores e não há mais temores de uma guerra generalizada. O sultão turco está tão grato pelo nosso apoio que assinou um tratado comercial conosco, cancelando todos os monopólios comerciais turcos, abrindo todo Império Otomano ao comércio britânico.

Struan deu um grito.

— Por tudo que há de mais sagrado! É a melhor notícia que ouço há muito tempo!

— Achei que você iria gostar — disse Longstaff.

A longa crise se relacionava com o Dardanelos, estreito que era controlado pelo Império Turco Otomano. Era a chave para a Europa mediterrânea e Um casus belli perpétuo entre as Grandes Potências — Inglaterra, França, Rússia, Áustria-Hungria e Prússia — porque o Dardanelos era um atalho para os navios de guerra russos penetrarem no vital Mediterrâneo, e também para belonaves de outras nações entrarem no Mar Negro e ameaçarem o fraco baixo-ventre da Rússia. Há oito anos, a Rússia compelira a Turquia a assinar um tratado que dava aos russos suzerania conjunta sobre o Dardanelos, e a tensão internacional tornara-se aguda, desde então. Mas, há três anos, Mehemet Ali, o arrivista soldado-paxá do Egito, apoiado pelos franceses, iniciara um ataque a Constantinopla, proclamando a si próprio Califa do Império Otomano. A França, aberta e delicadamente, apoiou-o contra o sultão. Mas um aliado francês no caminho de Dardanelos colocaria em risco os interesses das Grandes Potências restantes, e toda Europa prometia envolver-se imediatamente em conflito aberto outra vez.

O Ministro de Relações Exteriores britânico, Lord Cunnington, persuadira as Grandes Potências — além da França, e sem consultá-la — a usar sua influência ao lado do sultão contra Mehemet Ali. A França ficou furiosa e ameaçou fazer guerra. O acordo proposto era no sentido de que Mehemet Ali se retirasse para o Egito; recebesse suzerania sobre a Síria enquanto vivesse; fosse confirmado como governante independente do Egito; pagasse apenas um tributo anual nominal ao sultão turco; e, o que era o mais importante, o antigo domínio do Estreito de Dardanelos fosse garantido por todas as potências, em caráter definitivo — enquanto a Turquia estivesse em paz. o estreito permaneceria fechado a todos os navios de guerra, de todas as nações.

O fato de a França ter aceitado o proposto acordo e a retirada de seu aliado egípcio significava riquezas para a Casa Nobre.Agora, os complexos acordos financeiros nos quais Robb e Struan haviam apostado tanto, por dois anos, seriam solidificados. Sua potência comercial iria estender-se, através de tentáculos financeiros, até o coração das Grandes Potências, dando-lhes a segurança suficiente para enfrentar a contínua crise internacional e abrir enormes mercados novos para o chá e a seda. Além disso, se o interesse britânico agora dominava o Império Otomano, talvez sua produção de ópio fosse impedida. Sem o ópio turco para equilibrar seu extravasamento de barras de prata, as companhias americanas teriam de aumentar o comércio com a Inglaterra, e os laços mais íntimos que Struan desejava com a América se transformariam em realidade. Sim, disse Struan a si mesmo, feliz, este é um ótimo dia. Estava aturdido com o fato de Longstaff ter recebido as notícias oficiais antes dele; os informantes de Struan no Parlamento habitualmente o aconselhavam sobre importantes revelações como essa com grande antecipação.

— Isto é excelente — disse.

— Haverá paz por um longo tempo, agora. Desde que a França não tente mais nenhum truque.

— Ou a Áustria-Hungria. Ou a Prússia. Ou a Rússia.

— Sim. O que nos leva a Zergeyev. Por que um russo muito importante viria à Ásia nesta ocasião? E por que não tivemos nenhum aviso oficial e nem extra-oficial, hein? Quando controlamos todas as vias marítimas a leste da África?

— Talvez ele só esteja fazendo uma visita oficial ao Alasca russo, e veio via Cabo da Boa Esperança.

— Aposto cem guinéus que ele diz isso — observou Longstaff. Instalou-se confortavelmente numa cadeira e pôs os pés sobre a mesa. — Zergeyev é um nome importante em São Petersburgo. Vivi ali por cinco anos, quando era menino... meu pai foi diplomata na corte dos tzares. Tiranos, todos eles. O atual, Nicolau I, é típico.

— Zergeyev é importante em que sentido? — perguntou Struan, surpreso com o fato de Longstaff jamais ter mencionado São Petersburgo, em todos os anos durante os quais o conhecera.

— Grandes proprietários de terras. Aparentados com o tzar. Eles “possuem” dezenas de milhares de servos e centenas de vilas, pelo que me lembro. Eu me recordo de ter ouvido meu pai dizer que o Príncipe Zergeyev, deve ser da mesma família, era íntimo dos elementos da corte que cercavam o tzar e um dos homens mais poderosos da Rússia. É curioso encontrar um deles aqui, entre todos os lugares do mundo, não é?

— Acha que a Rússia vai tentar interferir na Ásia?— Eu diria que esse homem é conveniente demais para sua vinda ser uma simples coincidência. Agora que o status quo foi restaurado no Oriente Médio e o caso de Dardanelos resolvido, estoura um arquiduque!

— Acha que existe uma ligação? Longstaff riu, baixinho.

— Bom, o acordo referente ao Oriente Médio claramente detém os avanços da Rússia para oeste, mas o país ainda pode permitir-se sentar e esperar. A França está doida por uma briga, e a Prússia também. Aquele demônio da Áustria-Hungria, Metternich, enfrenta dificuldades para dominar as possessões italianas da nação, e está furioso com a França, e com a Inglaterra, por ajudarem os belgas a formarem seu próprio país, às expensas dos holandeses. Vai haver um grande problema entre a Inglaterra e a França, com relação à sucessão espanhola... a rainha espanhola está com doze anos e logo vai ser dada em casamento. Louis Philippe quer que seu indicado seja o marido dela, não podemos permitir uma união dos tronos da França e da Espanha. A Prússia quer estender seu domínio na Europa que, historicamente a França sempre considerou como seu direito exclusivo e divino. Ah, sim — ele acrescentou, com um sorriso — a Rússia pode permitir-se esperar. Quando o Império Otomano se dividir, ela calmamente tomará toda área dos Bálcãs. Romênia, Bulgária, Bessarábia, Sérvia. e também tudo que puder engolir do Império Austro-Húngaro. Claro que não podemos deixá-la fazer isso, então haverá uma guerra generalizada, a menos que os russos aceitem um acordo razoável. Então, do ponto de vista da Rússia, a Europa não representa atualmente nenhum perigo. A Rússia foi bloqueada efetivamente, mas isto não importa. Sua política histórica foi sempre conquistar pela esperteza... subornar os líderes do país e os líderes da oposição, se esta existir. Para estender o território através da “esfera de influência” e não com a guerra e, depois, obliterar os líderes e engolir o povo. Quando não houver ameaça do Ocidente, eu acho que os olhos dos russos irão voltar-se para leste. Porque eles acreditam ainda, que seu país tem uma posição divina na terra, e também, como a França e a Prússia, tem a missão, destinada por Deus, de dominar o mundo. Para leste, nenhuma Grande Potência fica entre ela e o Pacífico.