— Ouvi dizer que a crise do Oriente Médio foi resolvida — disse Zergeyev.
— Sim — respondeu Longstaff. — A notícia chegou pelo paquete.
— Que ótimo. A França foi muito sábia, desistindo de sua posição militante.
— A importância de Dardanelos para a Inglaterra é óbvia — disse Longstaff. — É vantajoso para todos nós manter a paz.
— É uma pena que a França e a Prússia, pelo que parece, tenham posições contrárias. E os Habsburgos. A Inglaterra e a Rússia são aliadas tradicionais e seus interesses se assemelham, É um pensamento feliz, o de que estaremos trabalhando mais próximos, no futuro.
— Sim — disse Longstaff, com brandura. — Claro que Paris está muito próxima de Londres.
— Não é uma pena que aquela gloriosa cidade sempre encontre, pelo que parece, os líderes mais estranhos? — disse Zergeyev. — Um belo povo, belo. Entretanto, seus líderes estão sempre inchados de vaidade e decididos a semear no mundo a discórdia.
— O grande problema do mundo, Alteza. A Europa, e como conter a vaidade dos príncipes. Claro, na Inglaterra temos a sorte de possuir um Parlamento, e o poder da GrãBretanha não é mais posto a serviço da guerra pelo capricho de um só homem.
— Sim. É uma grande e gloriosa experiência, adequada para os esplêndidos atributos de seu país, senhor. Mas não é adequada para todas as nações. Não foram os antigos gregos que concluíram ser a mais perfeita forma de governo uma ditadura benévola? O governo de um só homem?
— Benévola, sim. Mas eleita. Não um governante por direito divino.
— Quem pode dizer, com absoluta certeza, que o direito divino não existe?
— Ah, Alteza — disse Longstaff — ninguém questiona a existência de Deus. Só o direito de um rei fazer o que quer, quando quer, sem consultar o povo. Tivemos uma longa dinastia de reis ingleses “divinos”, que descobrimos serem falíveis. A falibilidade num líder é muito penosa. Não é? Eles derramam tanto sangue dos outros.
Zergeyev deu uma risadinha.
— Amo o humor dos ingleses. — Ele deu uma olhada em Struan. — É escocês, Sr. Struan?
— Sim. Britânico. Não há diferença entre os escoceses e os ingleses atualmente. — Ele bebeu seu vinho. — Estamos cansados de roubar o gado deles. Achamos que seria melhor roubar o país inteiro e então saímos da Escócia e marchamos para o sul.
Todos riram e beberam mais vinho. Longstaff divertiu-se ao ver que Monsey ficara silencioso durante toda a refeição, perturbado com a rudeza de Struan.
— O que acha, Sr. Struan? — disse Zergeyev. — Poderia dirigir a Casa Nobre discutindo com um “Parlamento”?
— Não, Alteza. Mas só coloco uma companhia em conflito... em competição, com outros negociantes. Arrisco apenas a mim e à minha companhia. Não a vida de outrem.
— Entretanto, há uma guerra, agora, com a China. Porque os pagãos tiveram a temeridade de interferir em seu comércio. Não é certo?
— Em parte. Claro, a decisão de entrar em guerra não chegou a ser minha.
— Claro. Meu ponto de vista era de que só o senhor tem o direito de operar uma vasta sociedade comercial, e esta é a maneira de agir mais eficiente. Governo de um só homem. Certo para uma companhia, uma frota, uma nação.
— Sim. Desde que seja bem-sucedido — disse Struan, brincando. Depois, acrescentou, com seriedade: — Talvez, no presente, o sistema parlamentar não seja adequado para a Rússia... e para alguns outros países, mas estou convencido de que jamais haverá paz neste mundo, até todas as nações terem o sistema parlamentar inglês e todos os povos o direito de votar, e nenhum homem sozinho volte outra vez a controlar os destinos de qualquer nação, seja por direito divino ou por direito obtido através dos votos estúpidos, de um eleitorado estúpido.
— Concordo — disse Zergeyev. — Sua hipótese é correta. Mas tem uma grande falha. O senhor supõe uma população mundial esclarecida, toda igualmente educada, toda próspera, o que é, naturalmente, impossível, não é? Deveria viajar pela Rússia, para ver como isto é impossível. E o senhor não faz concessões ao nacionalismo e às diferenças de fé. Se acrescentasse “até todas as nações serem cristãs”, então talvez estivesse certo. Mas, como pode imaginar que os católicos franceses fossem concordar com os protestantes ingleses? Ou a Igreja Ortodoxa Russa com os jesuítas espanhóis? Ou todos os que estão com as massas dos infiéis maometanos, e os que apóiam os miseráveis judeus, ou os idolatras e pagãos?
Struan respirou fundo.
— Estou satisfeito porque o senhor fez esta pergunta — disse ele, e se calou, deliberadamente.
— Vejo que teremos muitas discussões interessantes — disse Longstaff, descontraidamente. — Chá, Alteza? Há uma luta, dentro de uma hora. Se não estiver demasiado cansado, talvez goste de assistir a ela. Promete ser uma grande luta. A Marinha contra o Exército.
— Ficarei encantado, Excelência. Em quem aposta? Eu ficarei com a oposição.
— Um guinéu para a Marinha.
— Feito.
Depois do almoço, tomaram chá e fumaram charutos e, afinal, Monsey escoltou o arquiduque de volta para o paquete. Longstaff dispensou os camaroteiros.
— Acho que uma fragata deveria imediatamente fazer uma visita, “por acaso”, a Cingapura — disse ele a Struan.
— Pensei a mesma coisa, Will. Ele é um homem do mar, tenho certeza.
— Sim. Foi uma coisa muito inteligente, Dirk. — Longstaff brincou com a sua xícara. — E ele é um homem muito astuto. Um homem assim, provavelmente, teria o maior cuidado com documentos oficiais.
— Pensei a mesma coisa.
— Eu gostei de minha estada em São Petersburgo. Menos das longas horas na escola. Tive de aprender a ler e escrever em russo, bem como em francês, claro. Russo é uma língua muito difícil.
Struan se serviu de um pouco de chá.
— Você jamais gostou de lutas, não é, Will?
— Não. Acho que só o acompanharei até a terra e depois voltarei para bordo. A fim de tirar um cochilo. — Longstaff riu, secamente. — Preparar-me para as festividades de hoje à noite, hein?
Struan levantou-se.— Sim. E é melhor que eu pense em alguns grãos de descontentamento para eu próprio semear. Enquanto os camaroteiros tiravam a mesa, Longstaff ficou olhando distraidamente as folhas em sua xícara.
— Não — disse, impedindo que a levassem, bem como ao bule. — E providenciem para que eu não seja perturbado. Quero ser chamado dentro de uma hora.
— Sim, senhorrr.
Ele sufocou um bocejo, com a mente vagando, prazerosamente, na tranqüilidade da cabina. Puxa vida, estou encantado por Zergeyev se encontrar aqui. Agora, podemos gozar a vida, um pouquinho. Uma boa esgrima diplomática. Sondar-lhe a mente, o objetivo é este. Esquecer as incessantes irritações da Colônia, os malditos negociantes e o malfadado imperador e os filhos da mãe dos pagãos, um bando amaldiçoado de ladrões.
Abriu a porta de sua cabina particular e ficou confortavelmente deitado no beliche, com as mãos sob a cabeça. O que Dirk tinha dito? — perguntou a si mesmo. Ah, sementes do descontentamento. É uma boa maneira de colocar as coisas. Que sementes poderemos plantar? Sombrias insinuações sobre a potência da China? A imensidão de sua população? Que o Governo de Sua Majestade poderá anexar todo país, se qualquer potência se intrometer? As complicações do comércio do ópio? Chá?
Ele ouviu ruído de passos, em cima, enquanto mudava o turno e a banda de fuzileiros começava a praticar. Bocejou de novo e fechou os olhos, satisfeito. Não há nada como um cochilo depois do almoço, disse a si próprio. Graças a Deus sou um cavalheiro — não preciso plantar sementes de verdade, como um camponês fedorento, ou um lavrador sujo. Droga, imagine trabalhar com as mãos o dia inteiro! Semeando. Fazendo o cultivo. Com todo o esparramento de estéreo. Pensamento horripilante. Plantar as sementes diplomáticas é muito mais importante e uma tarefa de cavalheiro. Ora, onde estava eu? Ah, sim. Chá. A vida deve ter sido terrível, antes de termos o chá. Absolutamente terrível. Não posso entender como as pessoas existiam sem chá. É uma pena que não possa ser cultivado na Inglaterra. Isto evitaria uma série de problemas.