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— Meu Deus do céu! — exclamou, e se sentou, teso. — Chá! Claro, chá! Esteve anos embaixo de seu nariz e você nunca viu! Você é um gênio!

Ele ficou tão excitado com sua idéia que pulou da cama e dançou uma giga. Depois, aliviou-se no urinol e foi para a cabina principal, onde se sentou à sua escrivaninha, com

o coração batendo forte. Você sabe como resolver o pesadelo da Inglaterra-China com relação ao desequilíbrio chá-barras de prata-ópio. Você sabe, ele disse a si mesmo, espantado e aterrorizado, com o brilhantismo e a simplicidade da idéia que a frase final de Struan deflagrara.

— Bom Deus, Dirk — disse, alto — se você soubesse. Você cortou sua própria garganta, e a de todos os negociantes na China, junto com você. Para a glória da. GrãBretanha e a minha imortalidade! Sim, é claro. Então é melhor você manter a boca fechada, advertiu a si mesmo. As paredes têm ouvidos.

A idéia era tão simples — destruir o monopólio de chá da China. Comprar, pedir ou roubar — com grande segredo — uma tonelada das sementes da planta do chá. Transportar as sementes, sub-repticiamente, para a Índia. Deve haver dúzias de áreas nas quais o chá floresceria. Dúzias. E, ainda no período da minha vida, as plantações poderão estar florescendo — e estaremos cultivando nosso próprio chá, em nosso próprio solo. Com chá nosso, não precisaremos mais de barras de prata e nem de ópio para pagar pelo chá da China. Os lucros sobre as vendas de chá indiano logo se igualarão, serão o dobro ou o triplo da venda do ópio, então isso não é problema. Cultivaremos o chá para o mundo e o venderemos para o mundo. A Coroa ganhará, com as rendas do chá fantasticamente aumentadas, pois, naturalmente, nós o cultivaremos de maneira mais barata e mais aperfeiçoada do que a China cultiva o seu chá. Ora, há os cérebros ingleses e tudo mais! E nós ganharemos em grandeza moral, por parar com o comércio do ópio. Os malditos contrabandistas de ópio serão postos para fora do negócio, pois, sem a alavanca do ópio, não terão nenhuma função útil e, então, poderemos proibir o ópio. A Índia ganhará imensamente. E a China ganhará, pois não haverá mais contrabando de ópio, e ela consome seu próprio chá, de qualquer maneira.

E você, William Longstaff — o único homem que pode executar tal plano — você ganhará um prestígio monumental. Com um pouco de sorte, um ducado oferecido por um Parlamento cheio de gratidão, pois você, e só você, solucionou o que não tinha solução.

Mas, em quem poderei confiar, para obter as sementes do chá? E como persuadir os chineses a vendê-las? Claro que eles adivinharão imediatamente as conseqüências. E em quem confiar para transportar as sementes em segurança? Não podemos usar um dos negociantes — eles me sabotariam imediatamente, se tivessem a menor suspeita! E, como colocar o Vice-Rei da Índia do meu lado, agora, para ele não roubar o crédito da idéia?

CAPÍTULO DEZENOVE

Quando os dois homens e seus auxiliares subiram no ringue construído perto da bandeira, no Cabo Glessing, fez-se um silêncio não rompido sequer por ruído de respiração, na massa de espectadores.

Ambos os lutadores eram troncudos, mal-encarados e de elevada estatura, no começo da casa dos vinte. E os dois tinham a cabeça raspada, para se proteger do puxão do outro. E, quando tiraram as camisas grossas, cada qual tinha a mesma ondulação de aço nos músculos proeminentes, e apresentava nas costas antigos sulcos de açoites.

Os lutadores formavam uma bela dupla, e todos sabiam que havia muita coisa em jogo. O almirante e o general haviam aprovado pessoalmente a escolha dos homens e os exortaram a ganhar. A honra de todo o Serviço estava sobre seus ombros, o dinheiro da poupança de seus companheiros. O futuro seria doce para o vencedor. Para o vencido, não haveria futuro.

Henry Hardy Hibbs trepou pela única corda e ficou em pé no centro do ringue, onde havia sido traçada a giz a marca do metro quadrado.

— Sua Excelência, Sua Alteza, senhoras e senhores cavalheiros — ele começou. — Uma luta decisiva entre, neste canto, Mestre Jem Grum, da Marinha Real...

Houve um grande viva, partindo da multidão de marinheiros, a leste, e apupos e obscenidades entre as fileiras numerosas de soldados ingleses e indianos, a oeste. Longstaff, o arquiduque, o almirante e o general estavam sentados no lugar de honra, ao norte do ringue, com uma guarda da honra de impassíveis fuzileiros navais a cercá-los. Atrás do arquiduque, estavam seus dois guarda-costas em libré, armados e vigilantes. Struan, Brock, Cooper, Tillman, Robb, Gorth e todos os tai-pans estavam sentados do lado sul e, atrás deles, se encontravam os negociantes de menor importância e os oficiais navais e do Exército, todos se acotovelando, para ver melhor. E, na periferia, havia a multidão sempre crescente de chineses que jorrava das choupanas do Tai Ping Shan, conversando, dando risadas, à espera.

— E, neste canto, representando o Exército Real, Sargento Bill Tinker...E, outra vez, roucos vivas o interromperam. Hibbs ergueu os braços e seu piolhento casaco de marinheiro descobriu-lhe a pança, semelhante a uma bola. Quando os vivas e vaias se extinguiram, ele bradou:

— As regras de luta vigentes em Londres... cada round terminará com uma queda. Haverá trinta segundos entre os rounds e, quando a sineta tocar, serão concedidos oito segundos para o homem voltar à competição e pisar na linha. Não serão permitidos chutes, cabeçadas e golpes abaixo da cintura, e nem estrangulamento. Quem não sair do canto, ou aquele cujos auxiliares atirarem a toalha, será o perdedor.

Fez um sinal, com ar de importância, para os ajudantes, que examinaram os punhos do lutador adversário, a fim de ver se estavam untados com sumo de nozes, como era de praxe, e não tinham presa nenhuma pedra, e examinaram as botas de luta, para verificar se as solas tinham apenas os três cravos regulamentares.

— Agora, apertem-se as mãos, e que vença o melhor!

Os lutadores foram para o centro do ringue, com os músculos dos ombros tremendo de excitação reprimida, os músculos da barriga tesos, narinas frementes ao respirarem o suor úmido e ácido do outro.

Eles pisaram na linha e tocaram-se as mãos. Depois, juntaram os punhos duros como rochas e esperaram, com reflexos instantâneos.

Hibbs e os ajudantes mergulharam por sob as cordas e saíram da frente.

— Alteza? — disse Longstaff, dando a honra a Zergeyev.

O arquiduque se ergueu e caminhou para a sineta de navio que se encontrava próxima ao ringue. Ele a fez soar, com o percussor, e um selvagem frenesi tomou conta da praia.

No instante em que a campanhia soou, os lutadores arremessaram-se um sobre o outro, com as pernas plantadas como carvalhos, e tão fortes como estas árvores, e os pés firmes na linha. Os nós dos dedos de Grum bateram no rosto de Tinker e deixaram um vergão sangrento, e o punho de Tinker mergulhou violentamente na barriga de Grum. Bateram incessantemente um no outro, impelidos pelo tumulto e por sua raiva e ódio. Não havia ciência alguma em sua luta, nenhuma tentativa para evitar os golpes.

Depois de oito minutos, seus corpos estavam manchados de escarlate, os rostos sangrentos. Ambos os homens tinham os narizes quebrados e os nós de seus dedos estavam em carne viva e escorregadios, cheios de suor e sangue. Ambos arquejavam, buscando recuperar o fôlego, com os peitos arfando como poderosos foles, e os dois tinham sangue na boca. Então, no nono minuto, Tinker desferiu um hook (gancho) que atingiu Grum na garganta, derrubando-o. O Exército deu vivas e a Marinha praguejou. Grum levantou-se fora de si com a raiva e a dor, e correu para seu inimigo, esquecendo-se de que o primeiro round acabara, esquecendo-se de tudo, a não ser de que tinha de matar aquele demônio. Pegou Tinker pela garganta e ficaram investindo um contra o outro, estrangulando-se, enquanto o Exército gritava: “Infração!” Os ajudantes apinharam-se no ringue e tentaram separar os lutadores, arrastando um para cada lado, e quase houve uma briga entre os soldados e os marinheiros e seus oficiais.