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— Que tipo de pergunta? — indagou Zergeyev, lentamente.

— Qualquer coisa que o vencedor queira saber.

O arquiduque ficou tentado, mas cheio de grandes apreensões. Era um jogo monumental, mas valia a pena. Havia muita coisa que ele queria saber do Tai-Pan da Casa Nobre.

— Feito!

— Qual o seu escolhido?

Zergeyev apontou instantaneamente para o Mestre Grum.

— Coloco nele a minha honra! — E, imediatamente, gritou para o marinheiro: —Mate-o, por Deus!

O número de rounds aumentava. Quarenta e três. Quarenta e quatro. Quarenta e cinco. Quarenta e seis. Quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta e nove. E, agora, os espectadores estavam quase tão exaustos como os lutadores.

Afinal, o soldado caiu. Tombou como um carvalho morto e o ruído de sua queda ressoou pela praia. O marinheiro, bêbado de dor, ainda dava socos a esmo no ar, procurando o inimigo. Então, ele também caiu, igualmente inerte. Os ajudantes carregaram os homens para seus cantos e o meio minuto expirou, e o Exército gritava para seu homem se levantar, e o general batia no chão do ringue, com o rosto vermelho, implorando a Tinker: “Levante-se, levante-se, pelo amor de Deus, rapaz!” E o almirante ficou carmesim, enquanto Grum se forçava a ficar em pé, cambaleando, em seu canto. “Toque na linha, rapaz, toque na linha!” E Struan exortava o soldado, e o arquiduque gritava frases de encorajamento, num paroxismo em russo-francês-inglês, para que o marinheiro tocasse a linha.

Cada lutador sabia que o outro estava derrotado. Ambos cambalearam até a linha e ficaram a se balançar, com os membros mortos e inúteis. Ambos levantaram os braços e tentaram tocar. Mas toda sua força havia desaparecido. Ambos caíram.

Último round.

A multidão ficou louca, pois era obviamente impossível para os dois lutadores saírem de seu canto em meio minuto e voltarem para a linha.

O gongo soou e, novamente, houve um silêncio sepulcral. Os lutadores ficaram desajeitadamente de pé, agarraram-se nas cordas e permaneceram em seus cantos, cambaleando. O marinheiro gemeu e deu o primeiro passo torturado, movendo um pé em direção à linha. Era seguida, após uma eternidade em suspense, outro. O soldado ainda estava em seu canto, tremendo e oscilando, quase a cair. Então, seu pé fez um arco para a frente, pateticamente, e houve uma gritaria furiosa — exortando, induzindo, implorando, rezando, praguejando, tudo a se misturar, num rugido final de excitação impossível, enquanto os dois homens avançavam cambaleando, polegada por polegada. De repente, o soldado deu uma reviravolta desamparada e quase escorregou, fazendo o general ficar a ponto de desmaiar. E aí o marinheiro deu uma guinada bêbada, e o almirante fechou os olhos, com o suor a lhe escorrer pelo rosto, e rezou.

Houve um pandemônio quando ambos os homens tocaram a linha, as toalhas voaram por sobre as cordas, e só quando o ringue se tornou um tumulto de homens que pulavam de um lado para outro foi que os lutadores tiveram certeza do fim do combate. E só então se permitiram mergulhar no pesadelo de dor, sem saber se eram vitoriosos ou vencidos — se estavam acordados ou mortos, sonhando ou vivos — sabendo apenas que haviam dado tudo.

— Pelas barbas de São Pedro — disse o arquiduque, com a voz rouca e dolorida e as roupas encharcadas de suor — foi a maior luta de todos os tempos.

Struan, também todo manchado de suor e exausto, puxou uma garrafa portátil e a ofereceu. Zergeyev inclinou-a e bebeu muito rum. Struan também bebeu e passou a garrafa ao almirante, que a deu ao general, e assim acabaram juntos a bebida.

—Pelo sangue de Cristo! — disse Struan, com voz roufenha. Pelo sangue de Cristo!

CAPÍTULO VINTE

O sol já mergulhara atrás das montanhas, mas o porto ainda estava imerso numa luz dourada. Ah Sam tirou o binóculo dos olhos e se afastou às pressas, ansiosamente, do orifício de espia no muro do jardim. Correu através das pilhas de pedras e de terra que logo se transformariam num verdadeiro jardim e entrou voando por uma porta da sala de estar.

— Mamãe! O barco de papai está perto da praia — disse. — Opa, ele parece realmente muito zangado. May-may parou de costurar a anágua.

— Ele veio do China Cloud, ou do Resting Cloud?

— Do Resting Cloud. É melhor ir dar uma olhada.

May-may agarrou o binóculo, correu para o jardim, e ficou atrás da pequena janela de treliça, focalizando as ondas da praia. Deteve-se em Struan. Ele estava sentado no meio da chalupa, com o Leão e o Dragão drapejando à popa. Ah Sam tinha razão. Ele parecia realmente muito zangado.

Ela fechou e trancou a portinhola do orifício de espia e voltou correndo.

— Limpe isto e providencie para que tudo fique bem escondido. — E, quando Ah Sam levantou descuidadamente o vestido de baile e as anáguas, ela a beliscou na face, com força. — Não amarrote tudo, sua puta. Vale uma fortuna. Lim Din! — gritou. — Prepare o banho de papai, depressa, e providencie para que suas roupas sejam arrumadas de maneira adequada e não falte nada. Ah, sim, e se certifique de que o banho está quente. Apanhe o novo sabonete perfumado.

— Sim, mamãe.

— E tome cuidado. A raiva de papai está no rosto dele!

— Opa!

— Realmente, opa! É melhor aprontarem tudo para papai, senão ambos serão açoitados. E, se alguma coisa interferir em meu plano, todos dois passarão por torturas e eu os chicotearei até seus olhos caíram das órbitas. Vão!

Ah Sam e Lim Din saíram correndo. May-may entrou em seu quarto de dormir e se certificou de que não havia nenhum sinal do vestido de baile. Colocou perfume atrás das orelhas e se compôs. Ah, meu Deus. Não queria que ele estivesse mal-humorado, esta noite.

Struan caminhou irascivelmente em direção ao portão, no alto muro.Estendeu a mão para a maçaneta do portão, mas este foi aberto rapidamente por Lim Din, que sorria e fazia curvaturas.

— Que belo entardecer, hein, senhor?

Struan respondeu com um granindo sombrio.

Lim Din fechou o portão e saiu às pressas para a porta da frente, onde riu ainda e fez curvaturas mais profundas.

Struan, automaticamente, examinou o barômetro de navio pendurado na parede do saguão. Estava colocado numa suspensão Cardan e a fina coluna de mercúrio dentro do vidro registrava a agradável temperatura de 29.8.

Lim Din fechou a porta, suavemente, e disparou na frente de Struan pelo corredor, abrindo a porta do quarto de dormir. Struan entrou, fechou a porta com um chute e trancou-a. Os olhos de Lim Din se reviraram. Ele levou um momento para se recompor e, depois, evaporou-se na cozinha.

— Alguém vai ser chicoteado — ele sussurrou, apreensivo, para Ah Sam. — Isto é tão certo quanto a morte e os impostos.

— Não se preocupe com o demônio do nosso pai bárbaro — sussurrou Ah Sam, em resposta. — Aposto com você o salário da próxima semana que mamãe vai transformá-lo numa pombinha, dentro de um hora.

May-may apareceu à porta.

— O que vocês, seus escravos filhos da mãe, estão aí cochichando? — ela sibilou.

— Só rezando para papai não ficar zangado com a pobrezinha da nossa linda mãe — disse Ah Sam, com os olhos esbugalhados.

— Então ande depressa, sua puta de fala macia. Por cada palavra de zanga que ele me disser, você leva um beliscão!

***

Struan estava em pé, no centro do quarto de dormir, olhando para o lenço cheio de nós, volumoso e sujo, que acabara de tirar do bolso. Com mil demônios, o que faço agora?, perguntou a si mesmo.

Depois da luta, acompanhara o arquiduque até seus novos alojamentos, no Resting Cloud. E ficara aliviado quando Orlov lhe dissera, em particular, que não tivera problema algum para esquadrinhar a bagagem do arquiduque.

— Mas não há papel nenhum — dissera Orlov. — Havia uma pequena caixa-forte, mas o senhor disse para não quebrar nada, então deixei como estava. Tive tempo suficiente... os homens mantiveram os criados ocupados.