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— Obrigado. Nenhuma palavra a respeito, agora.

— Pensa que sou louco! — dissera Orlov, com sua dignidade ofendida. — A propósito, a Sra. Quance e os cinco filhos estão instalados no pontão pequeno. E eu disse que Quance estava em Macau, e deveria chegar com a maré do meio-dia, amanhã. Tive um grande trabalho para fugir às malditas perguntas que ela fez. Ela é capaz de extrair uma resposta de um caranguejo.

Struan deixara Orlov e fora para a cabina dos meninos. Eles estavam limpos, agora, e vestiam roupas novas. Wolfgang ainda se encontrava em sua companhia, e não tinham medo dele. Struan lhes dissera que no dia seguinte iriam com ele para Cantão, onde ele os embarcaria num navio para a Inglaterra.

Excelença — dissera o menininho inglês, quando ele se virava para ir embora — será que poderia falar com o senhor, em particular?

— Sim — dissera Struan, e levara o menino para outra cabina.

— Meu papá disse p’ra dar isto ao senhor, Excelença, e não dizê a ninguém, nem Sr. Wu Pak, nem mesmo Bert.

Os dedos de Fred tremiam, quando ele desfez a trouxa de pano ainda amarrada no cajado, abrindo-a. Continha uma pequena faca, um cachorro de pano e um lenço volumoso, amarrado com nós. Ele lhe passou o lenço, nervosamente, e para pasmo de Struan, virou as costas e fechou os olhos.

— O que está fazendo, Fred?

— Meu papá dizê que eu num devia olhá, e p’ra virá as costa, Excelença. P’ra num vê — respondeu Fred, com os olhos fechados.

Struan desamarrou o lenço e olhou, embasbacado, para seu conteúdo — brincos de rubi, pingentes de diamante, anéis cravejados de diamantes, um grande broche de esmeraldas e muitas fivelas de cinto de ouro, retorcidas, cheias de diamantes e de safiras. Tudo com um valor de quarenta a cinqüenta mil libras. Espólio de pirata.

— O que ele queria que eu fizesse com isto?

— Posso abri os olhos, Excelença? Não devia vê.

Struan tornou a amarrar o lenço e colocou-o no bolso de seu casaco naval.

— Sim. Agora, o que seu papai queria que eu fizesse com isto?

— Ele disse que era minha... esqueci a palavra. Era, era uma coisa parecida com “rança”, ou “anca”. — Os olhos de Fred se encheram de lágrimas. — Sou um bom menino, Excelença, mas esqueço as coisa.

Struan se agachou e segurou-o com firmeza, mas gentilmente.

— Não precisa chorar. Vamos pensar. Será que foi “herança”?

O menino olhou para Struan como se ele fosse um mágico.

— Sim. “Rança”. Como sabia?

— Não precisa chorar. Você é um homem. Homens não choram.

— O que é “rança”?

— É um presente, em geral dinheiro, de um pai para um filho.

Fred cogitou sobre isso por um longo tempo. Depois, disse:

— Por que meu papai disse p’ra não conta ao irmãozinho Bert?

— Não sei.

— Por que, Excelença?

— Talvez ele quisesse que você recebesse isto, e não Bert.

— Uma “rança” pode ser para muitos filhos?

— Sim.

— Eu e meu irmão Bert podemos dividi uma “rança”, se a gente tem uma?

— Sim. Se você tem uma.

— Ah, bom — disse o menino, enxugando as lágrimas. — Irmãozinho Bert é meu melhor amigo.

— Onde você e seu papai viviam? — perguntou Struan.

— Numa casa. Com a mãe de Bert.

— Onde era a casa, rapaz?

— Perto do mar. Perto dos navios.

— O lugar tinha nome?

— Ah, sim, era chamado “Porto”. A gente vivia numa casa no Porto — disse o menino, com orgulho. — Meu papai disse p’ra eu falá tudo com o senhor, de verdade.

— Vamos voltar agora, hein? A não ser que haja mais alguma coisa.

— Ah, sim. — Fred, depressa, tornou a amarrar a trouxa. — Meu papai disse para amarrar como antes. Segredo. E p’ra não contá. Eu estou pronto, Excelença.

***

Struan abriu outra vez o lenço. Pela morte de Cristo, o que vou fazer com este tesouro? Jogá-lo fora? Não posso fazer isto. Procurar os proprietários? Como? Podem ser espanhóis, franceses, americanos ou ingleses. E como vou explicar como consegui as jóias?

Ele foi até a grande cama de armação e afastou-a da parede. Notou que suas novas roupas de noite estavam estendidas, meticulosamente. Ajoelhou-se ao lado da cama. Uma caixa-forte de ferro estava cimentada no chão. Destrancou a caixa e depositou a pequena trouxa junto com seus papéis particulares. A Bíblia que continha as outras três metades de moedas atraiu-lhe o olhar e ele praguejou. Tornou a trancar a caixa e moveu a cama outra vez para seu lugar, caminhando, em seguida, em direção à porta.

— Lim Din!

Lim Din apareceu imediatamente, com os olhos vidrados e todo sorridente.

— Prepare meu banho, depressa!

— O banho já está pronto, senhor! Não se preocupe!

— Chá!

Lim Din sumiu. Struan atravessou o quarto de dormir, em direção ao quarto especial que fora reservado só para o banho e a toalete. Robb rira, ao ver os projetos. Mesmo assim, Struan insistira para que a inovação fosse executada exatamente segundo os planos.

A alta banheira de cobre fora instalada numa plataforma baixa’ e dela saía um cano que atravessava a parede e ia dar num poço fundo, cheio de pedras, cavado no jardim. Acima da banheira, um balde de ferro com orifícios estava suspenso das vigas. Outro cano dava no balde, saindo do tanque de água fresca, no teto. Havia uma torneira neste cano. A privada era um escrínio fechado, com uma tampa móvel e um balde removível, para os despojos noturnos.

A banheira já estava cheia de água quente. Struan tirou as roupas suadas e entrou no banho, satisfeito. Ficou deitado de costas e se ensaboou.

A porta do quarto se abriu e May-may entrou. Ah Sam a seguia, carregando uma bandeja com chá e dim sum quentes, tendo, logo atrás, Lim Din. Todos caminharam para dentro do banheiro, e Struan fechou os olhos, com silenciosa irritação; por mais que tivesse explicado e castigado, Ah Sam não conseguia entender que não devia entrar no banheiro, quando ele estava tomando banho.

— Olá, Tai-Pan — disse May-may, com um sorriso maravilhoso. Toda a irritação dele desapareceu. — Vamos tomar chá juntos — ela acrescentou.

— Ótimo — ele disse.

Lim Din pegou as roupas sujas e desapareceu. Ah Sam depôs a bandeja alegremente, pois sabia que ganhara sua aposta. Ela disse algo a May-may em cantonês, que fez May-may rir, e Ah Sam deu uma risadinha antes de correr para fora do banheiro e fechar a porta.

— Que diabo ela disse?

— Conversa de mulher!

Ele levantou a esponja para atirá-la, e May-may disse, depressa:.. — Ela falou que você é um homem muito bem-feito. .

— Por que, pelo amor de Deus, Ah Sam não entende que o banho é para ser tomado em particular?

— Ah Sam é muito particular, não se preocupe. Por que você tem vergonha, hein? Ela tem muito orgulho de você. Você não tem nada para se envergonhar. — Ela tirou o vestido e caminhou para dentro da banheira, sentando-se na outra extremidade. Então serviu o chá e o entregou.

— Obrigado. — Ele bebeu o chá e depois estendeu o braço e comeu um dos dim sum.

— A luta foi boa? — ela perguntou. Notou as cicatrizes malcuradas que seus dentes haviam feito no antebraço dele, e escondeu um sorriso.