— Talvez pudesse ter ficado mais justo no peito, hein? Liza riu.
— Vamos com isso, rapaz — disse, com menos medo, agora — acho que o alfinete de rubi em sua gravata ficaria melhor do que o de diamante.
Ele mudou o alfinete e continuou a se admirar. Depois riu, segurou-a pela cintura e trauteou uma valsa, forçando-a a dançar.
— Você é a bela do baile, amor — disse.
Liza tentou ficar alegre, naquele momento, mas Brock viu em seus olhos que alguma coisa estava errada.
— O que há?
Ela puxou um lenço, enxugou o suor da testa e se sentou.
— Bom, é Tess.
— Ela está doente?
— Não. Nós vamos levá-la para o baile!
— Você está fora de si?
— Tenho um vestido pronto para ela... ah, é lindo... mandei ajeitar-lhe o cabelo e ela está à espera de sua aprovação antes de...
— Diga então a ela para ir para a cama, por Deus! Ela não vai para baile nenhum! Você mandou fazer um vestido para ela, não é? — e ele ergueu a mão para lhe bater. — Ouça um momento — disse Liza, com sua força a lhe dominar o medo. — Primeiro escute. Nagrek... e ela. O golpe parou no meio do ar.
— O que há, quanto a Nagrek?
— Foi sorte que ele tivesse morrido, aquela noite. Tess, bom, Tess, ela... — As lágrimas jorraram. — Eu não queria preocupar você, mas ela...
— Está grávida?
— Não. Fiquei aterrorizada durante todo o mês passado, desde que você foi para Cantão. Com medo de ter-me enganado. Mas o incômodo mensal dela começou na semana passada, graças a Deus, e então o medo acabou.
— Mas ela não é virgem? — ele perguntou, horrorizado.
— Ela ainda é virgem. — As lágrimas lhe escorriam pelo rosto. :— Então, pelo amor de Deus, se ela ainda é virgem, por que diabo você se preocupa? Calma, calma, Liza — disse ele, dando-lhe palmadinhas na face.
Liza — ela sabia — jamais poderia dizer-lhe que Tess não era realmente virgem. Mas agradeceu ao Senhor por deixá-la convencer a menina de que tinha sido, principalmente, imaginação dela, e ainda era pura como deve ser uma mocinha.
— Este mês passado foi terrível — disse ela. — Terrível. Mas foi uma advertência para nós, Tyler. Fiquei preocupada com você, com o fato de você não ver que ela está crescida, e estou com medo. Você não quer ver o que está diante de seus olhos. — Ele começou a falar, mas ela interrompeu, depressa. — Por favor, Tyler. Eu lhe imploro. Basta olhar para ela e, se você concordar que cresceu, então nós a levamos. Se você pensar de outra maneira, ela não irá. Eu disse a ela que a decisão era sua.
— Onde está Tess, agora?
— Na cabina principal.
— Espere aqui.
oSim, amor.
CAPÍTULO VINTE E UM
Quando a noite se instalara firmemente sobre Hong Kong, Culum caminhou para a borda do convés, à popa do Thunder Cloud, e deu sinal. O canhão estrondeou e houve um momento de silêncio na frota. Ele olhou nervosamente em direção à costa no Vale Feliz. Sua excitação aumentou quando viu uma tremulação de luz, depois outra, e logo todo lote marinho 8 era um mar de luzes dançantes.
Os criados, na praia, corriam para acender as lanternas restantes. Centenas haviam sido colocadas em torno do grande círculo de pranchas bem aplainadas que formavam a pista de danças, e sua luminosidade era cálida e convidativa. Mesas e cadeiras estavam dispostas em grupos atraentes, com uma lâmpada e flores vindas de Macau em cada mesa. Mais lâmpadas se encontravam penduradas em cordas presas entre esguios bambus, perto das mesas de cavalete repletas de comida. Outras estavam acortinadas sobre os barris de vinhos portugueses e franceses, rum, conhaque, uísque, vinho branco seco e cerveja. Quarenta engradados de champanha se achavam no gelo, e à mão.
Criados corriam por toda parte, todos bem uniformizados, com calças negras e túnicas brancas, os rabichos dançando. Eles estavam sob a imperiosa supervisão de Chen Sheng, compradore da Casa Nobre. Ele era um homem de imensa pança, com trajes ricos e chapéu enfeitado com jóias. Um pedaço principesco de puro jade branco formava a fivela de seu cinto, e seus pés estavam metidos em botas de seda negra com solas brancas. Ele estava sentado, como uma aranha enorme, num assento no meio da pista de dança, e brincava com os cabelos compridos que nasciam numa pequena verruga em seu queixo. Um escravo particular abanava-o, dentro da noite amena.
Quando tudo, para satisfação sua, estava pronto, ele se levantou pesadamente e ergueu a mão. Os criados correram para suas posições e ficaram em pé, como estátuas, enquanto ele fazia uma última inspeção. Outro aceno de sua mão e um criado saiu correndo do círculo de luz na escuridão da praia, com uma vela na mão.
Houve, então, um monstruoso espocar de bichas, que durou vários minutos, e todos na frota e na praia correram para ver. Em seguida, surgiram bolas de fogo, luzes coloridas, mais barulho, fumaça, trovões e novas bichas. E rodas de fogo, e vulcões de fogo colorido. O trovejar continuou durante vários minutos e houve um ruído parecido com o de uma surriada da frota e uma centena de foguetes explodiu no céu. Suas caudas se ergueram e desapareceram. Depois de um momento de silêncio, todo céu explodiu em plumas escarlates, verdes, brancas e douradas. As penas foram caindo, majestosamente, e mergulharam no mar.
O criado acendeu a última vela e saiu às pressas. Fogo vermelho e verde serpenteou no grande andaime de bambu que logo estava em chamas, mostrando o Leão e o Dragão. A bandeira ardeu durante minutos e se extinguiu, com uma grande explosão, tão repentinamente como surgira.
Durante um momento, fez-se escuridão, enquanto um forte viva ecoava pelos morros em torno. Quando os olhos se ajustaram à escuridão, as luzes convidativas da pista de danças brilharam outra vez. E uma alegria expectante tomou conta de Hong Kong.
***
Shevaun gemia de agonia.
— Chega — ela implorou.
Sua criada apertou com mais força ainda os cordões do espartilho e colocou o joelho no traseiro de Shevaun.
— Solte a respiração — ordenou. E, quando Shevaun obedeceu, ela deu um puxão final nos cordões e os amarrou. Shevaun arquejou. — Pronto, querida — disse a empregada, que usava uma touca. — Está tudo pronto.
Era uma pequena e limpa irlandesa, com punhos de aço, e seu nome era Kathleen O’Rouke. Era babá e criada de Shevaun desde que esta usava cueiros, e ela a adorava. Seu cabelo castanho-escuro emoldurava um rosto agradável, com olhos sorridentes e queixo com covinha. Tinha trinta e oito anos.
Shevaun segurou-se numa cadeira, na cabina, e gemeu, mal conseguindo respirar.
— Vou desmaiar, antes do fim da festa. Kathleen pegou a fita e mediu a cintura de Shevaun.
— Dezessete polegadas e meia, minha Virgem Maria! E, quando você desmaiar, queridinha, caia bem graciosamente, e numa hora em que todos estiverem observando.Shevaun estava vestida com calças cheias de babados, as pernas metidas em meias de seda. O espartilho com ossos de baleia apertava-lhe os quadris, afinava violentamente sua cintura e subia até o busto, aumentando-o, forçando-o para cima.
— Preciso sentar um minuto — disse ela, com voz fraca. Kathleen pegou os sais perfumados e os agitou sob o nariz de Shevaun.
— Pronto, meu amorzinho. Logo que aquelas prostitutas a virem, você não vai se sentir fraca, de maneira nenhuma. Pela Virgem Santa Mãe de Deus e por José, você vai ser a mais bela do baile.
Houve uma forte batida à porta.
— Você não está pronta ainda, Shevaun? — gritou Tillman.
— Não, titio. Não vou demorar.
— Bom, se apresse, querida. Precisamos chegar lá antes de Sua Excelência! — saiu pisando forte. Kathleen deu uma risadinha baixa.
— Que homem tolo, minha queridinha. Ele não percebe que a pessoa precisa causar boa impressão.
***