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Culum fez novas curvaturas para os convidados e notou, com alívio, que a fila estava escasseando. Deu uma olhada em direção à praia, onde uma fileira de lanternas guiava os convidados ao saírem de seus botes, e viu o escaler de Longstaff chegar à areia. Longstaff, o arquiduque e o almirante foram ajudados a desembarcar. Ótimo, pensou Culum. Não vai demorar muito, agora. Novamente, seus olhos vaguearam pela pista, e, desta vez, detiveram-se em Manoelita de Vargas. Ela o observava, por cima de seu leque.

Era muito bonita — pele alvíssima, olhos escuros, uma mantilha sobre o cabelo negro. Culum sorriu e fez uma leve curvatura. Os olhos de Manoelita semicerraram-se e ela agitou o leque, depois deu as costas. Culum prometeu a si mesmo que dançaria com ela pelo menos uma vez.

Ele espanou um pouco de poeira de suas lapelas, consciente de que estava vestido de acordo com a última moda inglesa, bem à frente da maioria dos homens, aquela noite. Seu casaco era azul-celeste, com lapelas de seda azul-escura, apertado na cintura e alargandose sobre os quadris. A calça azul-clara, bem apertada, estava enfiada em meias-botas negras e macias. Seu cabelo descia em cachos sobre as orelhas e sobre o colarinho alto e engomado. O alfaiate de Robb fizera um trabalho muito bom, pensou. E tão barato! Ora, com cento e cinqüenta guinéus por mês poderia comprar dezenas de soberbos ternos e botas. A vida era maravilhosa.

Curvou-se para outro grupo de convidados que passava, deixando atrás um cheiro ácido de antigo suor coberto com perfume. Estranho, pensou. Agora sentia o cheiro das outras pessoas, e elas realmente fediam. Ficou espantado de não ter notado isto antes. Decerto se sentia melhor, muito melhor, desde que começara a tomar banho todo dia e a trocar de roupa. O Tai-Pan tinha razão.

Olhou para o pai, que estava absorto numa conversa com Morley Skinner. Culum teve consciência de que as pessoas o espiavam e sua expressão era hostil. No tocante aos convidados, não havia nenhum sinal de que o antagonismo entre pai e filho se abrandara. Na verdade, ele se aprofundara numa polidez fria. Desde que o jogo começara, Culum ia achando cada vez mais fácil levar avante o engodo em público. Seja honesto, Culum, disse a si mesmo. Você não o idolatra mais. Você ainda o respeita — mas ele é um herege, adúltero, uma influência perigosa. Então, você não está fingindo — você está frio. Frio e cauteloso.

— Vamos, Culum, rapaz — Robb sussurrou, desajeitadamente.

— O que é, tio?— Ah, nada. Só que esta noite é de comemoração.

— Ah, sim, é.

Culum percebeu a expressão perturbada nos olhos de Robb, nas nada disse e lhe deu as costas para cumprimentar outros convidados e espiar Mary e, ocasionalmente, Manoelita. Decidiu que não diria a Robb o que acontecera entre o Tai-Pan e ele, no alto da montanha.

— Você ainda não conhece meu sobrinho, Culum — ouviu Robb dizer. — Culum, esta é a Srta. Tess Brock.

Culum se virou. Seu coração deu um salto e ele se apaixonou.

Tess fazia uma mesura. A saia de seu vestido era ampla e fofa, de brocado de seda

branca, sobre anáguas cascateantes que irrompiam como espuma sob a bainha. Sua cintura era incrivelmente fina, abaixo do corpete decotado e empinado. Seu cabelo louro caía em macios cachos sobre os ombros nus. Culum viu que os olhos dela eram azuis e os lábios convidativos. E ela estava olhando para ele, como ele estava olhando para ela.

— É uma honra conhecê-la — ouviu a si próprio dizer, em voz irreal. — Talvez possa dar-me a honra da primeira dança.

— Obrigada, Sr. Struan — ouviu-a dizer, com a voz como um soar de sinos, e ela foi embora.

Liza estivera observando, cuidadosamente. Vira a expressão de Culum e a reação de Tess. Ah, Senhor, deixai que aconteça, fazei que aconteça, pensou, enquanto seguia Brock pela pista.

— Eu não reconheci a pequena Tess, e você? — Struan dizia a Robb.

Ele também observara o encontro entre seu filho e a garota dos Brocks, e sua mente estava fervendo, com as vantagens e perigos inerentes a uma união Culum-Tess. Meu Deus do céu!

— Não. Olhe para Brock. Ele está inchado de orgulho.

— Sim.

— E olhe para Mary. Eu jamais teria pensado que ela pudesse ficar tão... tão maravilhosa, também.

— Sim.

Struan observou Mary, por um momento. O vestido negro realçava a palidez luminosa e etérea de sua pele. Depois, ele examinou Manoelita. Em seguida, Tess outra vez. Ela sorria para Culum, que lhe respondia ao sorriso, com o mesmo ar abstrato. Meu Deus, pensou ele, Culum Struan e Tess Brock.

— Maldito Shakespeare — ele disse, involuntariamente.

— O que, Dirk?

— Nada. Eu diria que Mary está disputando mesmo o prêmio, com toda justiça.

— Ela não está na mesma classe, por Deus! — disse Quance, enquanto passava por perto, piscando. — Não com a Manoelita de Vargas.

— Ou Shevaun, eu aposto — disse Struan — quando se dignar a nos honrar com sua presença.

— Ah, a adorável Srta. Tillman. Ouvi dizer que está usando apenas calças e um tecido transparente. Nada mais! Grandes esferas de Júpiter, hein?

— Ah, Aristotle — disse Jeff Cooper, aproximando-se. — Posso falar rapidamente com você? É a respeito de uma encomenda de pintura.

— Que Deus abençoe a minha pobre alma! Realmente, não entendo o que deu em todo mundo — disse Quance, suspeitosamente. — O dia inteiro estou recebendo encomendas de pinturas.

— Percebemos de repente a perfeição do seu trabalho — disse Cooper, depressa.

— E já era tempo, por Deus, esta é a imortal verdade. Meu preço aumentou. Cinqüenta guinéus.

— Vamos discutir isso tomando um champanha, hein? — Cooper piscou subrepticiamente para Struan, por sobre a cabeça de Quance, e arrastou o homenzinho.

Struan deu uma risadinha. Ele espalhara a notícia de que era preciso manter Quance ocupado e longe de tagarelas — até a hora do julgamento. E conseguira prender Maureen Quance a bordo do pequeno pontão, retirando todas as chalupas.

Naquele momento, Longstaff, o arquiduque e o almirante chegaram ao círculo de luz.

Houve um rufar de tambores e todos se levantaram, enquanto as bandas tocavam Deus Salve a Rainha. Em seguida executaram, vacilantes, o hino nacional russo, e afinal, Rule Britannia. Houve uma irrupção de aplausos.

— Foi muita consideração sua, Sr. Struan — disse Zergeyev.

— É um prazer. Alteza. Queremos que se sinta em casa. Struan sabia que todos os olhares estavam fixos em ambos e tinha certeza de que escolhera bem as suas roupas. Em contraste com todos os demais, usava negro, com exceção de uma pequena fita verde que prendia, na nuca, o seu cabelo comprido.

— Talvez queira abrir a primeira dança.

— Seria uma honra. Mas temo não conhecer nenhuma das damas.

Zergeyev usava um brilhante uniforme dos cossacos, com a túnica elegantemente colgada num ombro, uma espada embainhada no cinto cravejado de jóias. Dois criados em libré estavam obsequiosamente a serviço.— Isso será remediado com facilidade — disse Struan, alegremente. — Talvez queira escolher. Eu ficaria satisfeito em fazer a apresentação formal.

— Não seria cortês de minha parte. Talvez queira decidir quem me dará essa honra.

— Para me arrancarem os olhos? Está bem.

Ele se virou e começou a cruzar a pista. Manoelita seria a melhor escolha. Isto honraria muito a sociedade portuguesa, na qual a Casa Nobre e todos os negociantes confiavam, para fornecer funcionários, guarda-livros, almoxarifes — todos aqueles que fazem as companhias funcionarem. Mary Sinclair seria uma escolha quase igualmente boa, pois estava estranhamente misteriosa aquela noite, e era a mulher mais bela do salão. Mas nada seria ganho escolhendo-a, com exceção do apoio de Glessing. Struan notara como Glessing estava próximo, a seu serviço. Desde que se tornara mestre do porto, sua posição de influência aumentara. E ele seria um aliado muito útil.

Struan viu os olhos de Manoelita se arregalarem e Mary Sinclair prender a respiração, quando ele se encaminhou na direção das duas. Mas ele parou diante de Brock.