— Com sua permissão, Tyler, talvez Tess possa abrir a primeira dança, com o arquiduque? — Struan ficou satisfeito com a agitação provocada pelo espanto, que pôde perceber.
Brock fez um sinal afirmativo com a cabeça, corado de orgulho. Liza ficou extasiada. Tess corou e quase desmaiou. E Culum amaldiçoou e detestou seu pai e o abençoou por dar a honra a Tess. E todos os negociantes ficaram imaginando se o Tai-Pan estaria fazendo as pazes com Brock. E, se assim era, por quê?
— Eu não acredito — disse Glessing.
— Sim — concordou Cooper, preocupado, sabendo que a paz entre Brock e Struan não poderia ser benéfica para ele. — Não faz o menor sentido.
— Faz muito sentido — disse Mary. — Ela é a mais jovem e deve ter a honra.
— Há mais alguma coisa nisso, Srta. Sinclair — disse Glessing. — O Tai-Pan jamais faz nada sem pensar. Talvez ele espere que ela caia e quebre uma perna, ou algo assim. Ele odeia Brock.
— Acho que esse pensamento é muito pouco generoso, Capitão Glessing — disse Mary, abruptamente.
— Sim, é, e peço desculpas por dizer alto o que todo mundo está pensando. — Glessing lamentou sua estupidez, deveria ter percebido que uma inocência tão maravilhosa defenderia aquele demônio. — só estou irritado por que você é a mais bonita dama presente e, sem dúvida, deveria ter a honra.— É muito gentil. Mas não deve pensar que o Tai-Pan faz as coisas por maldade. Não é assim.
— Tem razão, e eu estou errado — disse Glessing. — Talvez eu possa ter a primeira dança... e levá-la para jantar. Então saberei que estou perdoado.
Há mais de um ano ela considerava George Glessing como um possível marido. Gostava dele, mas não o amava. Mas, agora estava tudo arruinado, pensou.
— Obrigada — disse ela. Baixou os olhos e agitou o leque. — Se prometer ser mais... mais gentil.
— Feito — disse Glessing, todo feliz. Struan conduzia Tess através da pista.
— Sabe valsar, garota?
Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça e tentou afastar os olhos do filho do Tai-Pan.
— Posso apresentar-lhe a Srta. Tess Brock, Alteza? Arquiduque Alexi Zergeyev.
Tess ficou paralisada, com os joelhos tremendo. Mas, lembrar Culum, e a maneira como a olhara, aumentou sua confiança e restabeleceu sua pose.
— Estou honrada, Alteza — disse, fazendo uma mesura.
O arquiduque curvou-se e, com galanteria, beijou-lhe a mão.
— A honra é minha, Srta. Brock.
— Fez uma viagem agradável? — ela perguntou, abanando-se.
— Sim, obrigado. — Ele olhou para Struan. — As jovens inglesas são todas assim tão lindas?
Mal ele acabara de falar, Shevaun irrompeu à luz, de braços dados com Tillman. Seu vestido era uma névoa de gaze verde, com a saia ampla, em forma de sino. A parte externa do traje tinha o comprimento do joelho, para destacar as fileiras formadas por uma dúzia de anáguas cascateantes, cor de esmeralda. Ela usava longas luvas verdes e havia penas de aves do paraíso em seu cabelo ruivo. Inacreditavelmente, seu corpete não tinha alças para sustentá-lo.
— Desculpe estarmos atrasados, Excelência, Sr. Struan — disse ela, fazendo uma mesura, em meio ao silêncio. — Mas quebrei uma fivela do sapato, exatamente na hora de sair.
Longstaff afastou os olhos curiosos do decote e ficou imaginando, como todo mundo, como diabo o vestido era sustentado, e se iria cair.
— A hora de sua chegada é sempre perfeita, Shevaun. — Ele se virou para Zergeyev. — Quero apresentar-lhe a Srta. Shevaun Tillman, da América. Ah, e o Sr. Tillman. Sua Alteza, Arquiduque Alexi Zergeyev.Ali em pé, esquecida, Tess observou Shevaun fazer nova mesura, e a detestou por tirar-lhe seu momento de glória. Era a primeira vez em que sentia ciúme de outra mulher. E a primeira em que pensava em si mesma como mulher, não como menina.
— Que belo vestido, Srta. Tillman — disse, com doçura. — Foi a senhorita mesma quem fez? Os olhos de Shevaun dardejaram raios, mas ela replicou, com a mesma doçura:
— Ah, não, querida, acho que não tenho o seu talento. — Sua cachorrinha safada.
— Pode me dar a honra da primeira dança, Shevaun? — perguntou Longstaff.
— É um prazer, Excelência. — Ela estava exultante com a inveja e ciúme que tinha provocado. — Tudo parece tão lindo, Tai-Pan. — Ela sorriu para Struan.
— Ah... obrigado — disse Struan. Ele se virou e fez sinal para o regente da banda da Marinha. O bastão baixou e então começaram os primeiros acordes excitantes de uma valsa vienense. Embora as valsas não fossem bem-vistas, eram as danças mais populares.
O arquiduque conduziu Tess para o centro da pista e Shevaun rezou para que Tess tropeçasse e caísse ou, melhor ainda, dançasse como uma vaca. Mas Tess flutuava como uma folha. Longstaff conduziu Shevaun. Enquanto ela girava, com maravilhosa graça, notou que Struan se dirigia para uma beldade portuguesa de olhos escuros, a quem nunca vira antes, e ficou furiosa. Mas, ao girar outra vez, viu que Struan levara Liza Brock para a pista e pensou. Ah, Tai-Pan, você é um homem esperto. Eu o amo por isto. Então seus olhos viram Tess e o arquiduque no centro da pista e ela guiou Longstaff, que dançava muito bem, para lá, sem que ele percebesse estar sendo guiado.
Culum, em pé a um canto, observava. Ele pegou uma taça de champanha e bebeu-a, sem lhe sentir o gosto, e, em seguida, curvou-se diante de Tess, convidando-a para a segunda dança.
Ele não notou que Brock franzia a testa e Liza, apressadamente, distraía-o. Nem a súbita curiosidade de Gorth.
Houve valsas, polcas, contradanças e galopes. Shevaun era cercada, no final de cada dança, e Manoelita também — mas com mais cautela. Culum dançou com Tess pela terceira vez, e quatro vezes por noite era o máximo permitido pelas convenções.
Na última dança antes da ceia, Struan abriu caminho através da multidão que cercava Shevaun.
— Senhores — disse ele com calma determinação — sinto muito, mas esta dança é prerrogativa do anfitrião.Os homens se lamentaram e deixaram que a levasse. Ele não esperou pela música e começou a conduzi-la para a pista. Jeff Cooper observava, com ciúme. A dança era sua.
— Eles combinam — disse ele a Tillman.
— Sim. Por que não faz logo seu pedido? Conhece meus pontos de vista. E os do meu irmão.
— Há tempo.
— Agora que Struan está descasado, não. Os olhos de Cooper se estreitaram.
— Você encorajaria essa união?
— Claro que não. Mas parece bastante evidente para mim que Shevaun está apaixonada pelo homem. — Depois, Tillman acrescentou, com irritação: — Já é tempo para ela se aquietar. Não tenho tido senão problemas, desde que ela chegou, e estou cansado de bancar o cão de guarda. Sei o que pensa, e então peça formalmente sua mão, vamos acabar com isso.
— Não, até eu ter certeza de que ela está pronta para me aceitar... e satisfeita com isto, por sua livre vontade. Ela não é uma escrava, para ser comprada e vendida.
— Concordo. Mas, ainda assim, é uma fêmea, uma menor, e fará o que seu pai e eu considerarmos ser do seu interesse. Devo confessar que não aprovo sua atitude, Jeff. Você está procurando problemas.
Cooper não respondeu. Olhou para Shevaun, com uma dor nos rins.
— Eles formam um casal perfeito — disse Mary, querendo desesperadamente ser Shevaun.
E, naquele momento, de repente, se sentiu impura — por causa de sua vida secreta, do filho e de Glessing. Ele fora tão terno aquela noite, terno e masculino, e muito inglês e muito puro. E ela quase chorou de dor, por causa de seu inútil amor pelo Tai-Pan.
— É verdade — disse Glessing. — Mas se houver justiça nesta terra, ganhará o prêmio, Srta. Sinclair.
Ela conseguiu sorrir e, outra vez, tentou descobrir quem seria o pai da criança — não que isto tivesse importância, porque o pai era chinês. Ter um bastardo chinês! Morrerei antes disto, disse a si própria. Daqui a dois ou três meses, vai começar a aparecer. Mas eu não estarei viva, para ver o horror e a reprovação nos rostos de todos. Seus olhos se encheram de lágrimas.