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— Ora, Mary, o que é isso — disse Glessing, tocando-lhe no braço, com afeto. — Não deve chorar porque lhe fiz um elogio. Você é realmente a pessoa mais bonita aqui... e a mais bonita que eu já vi. É verdade.Ela enxugou as lágrimas, atrás do leque. E, através da névoa de terror, lembrou-se de May-may. Quem sabe May-may poderia ajudar? Talvez os chineses tenham remédios para abortar uma criança. Mas isto é assassinato. Assassinato. Não, é meu corpo, Deus não existe e se tiver o filho estarei perdida.

— Desculpe, George, querido — disse ela, mais em paz consigo mesma, agora que tomara a decisão. — Eu me senti mal, por um momento.

— Tem certeza de que está bem, agora?

— Ah, sim.

Glessing estava cheio de um amor protetor. Pobre menininha frágil, ele pensou. Precisa de alguém para tomar conta dela, e esse alguém sou eu. Só eu.

***

Struan parou no centro da pista.

— Eu estava imaginando quando teria a honra, Tai-Pan — Shevaun irradiava travessura.

— Esta dança é em sua honra, Shevaun — disse ele, com doçura.

Os primeiros acordes da música mais eletrizante da terra começaram a ser executados. Era a Kankana. Uma dança selvagem, buliçosa, barulhenta, de passos rápidos, que entrara rapidamente em voga em Paris e, na década de trinta, tomara de assalto as capitais da Europa, mas era proibida, como escandalosa, nos círculos mais seletos.

— Tai-Pan — ela disse, assombrada.

— Subornei o regente da banda — sussurrou Struan.

Ela hesitou mas, sentindo todos os olhares escandalizados fixados em si, descontraidamente pegou nos braços de Struan, com o ritmo da música a tomar conta de seu corpo.

— Bom, espero que nada vá cair — disse Struan.

— Se cair, você me protegerá, espero.

E os dois começaram a dar os passos movimentados. Shevaun se soltou dos braços de Struan, ergueu as saias e deu chutes para o alto, mostrando as calças. Houve um grito de alegria e todos os homens correram em busca de pares. Agora, todos dançavam e davam chutes, possuídos pelo ritmo contagiante e desenfreado.

A música os dominava. A todos.

Quando terminou, houve uma irrupção de aplausos e gritos contínuos de bis, e a banda voltou a tocar o mesmo número. Mary esqueceu o filho e Glessing decidiu que aquela noite ele pediria — exigiria, por Deus — que Horatio abençoasse o casamento. Os pares continuaram a girar, chutar, cheios de uma arquejante animação, até a música acabar. Os jovens se apinharam em torno de Struan e Shevaun, agradecendo a ele e parabenizando-a. Ela segurou o braço dele, possessivamente, e se abanou, muito satisfeita consigo mesma. Ele enxugou o suor da testa e ficou muito feliz porque os dois jogos dele haviam dado certo — Tess e a Kankana.

Todos voltaram para seus assentos e os criados começaram a carregar bandejas de comida para as mesas. Salmão defumado presunto defumado, peixe, ostras, mexilhões e salsichas. Frutas frescas que Chen Sheng transportara de uma lorcha recém-chegada de uma perigosa viagem de Manilha. Quartos de boi que acabara de ser abatido, comprados da Marinha, e assados em fogueiras ao ar livre. Porquinhos de leite. Pés de porco ao picles, em geléia doce.

— Juro — disse Zergeyev — jamais vi tanta comida e nem me divertia assim há anos, Sr. Struan.

— Ah, Alteza — disse Shevaun, erguendo uma sobrancelha — isto é positivamente comum para a Casa Nobre.

Struan riu, com os demais, e se sentou à cabeceira de uma mesa. Zergeyev estava à sua direita e Longstaff à esquerda, Shevaun ao lado do arquiduque e Mary Sinclair ao lado de Longstaff, Glessing atenciosamente perto. Na mesma mesa, encontravam-se Horatio, Aristotle, Manoelita e o almirante. Em seguida, Brock e Liza, e Jeff Cooper. Robb e Culum eram os anfitriões em mesas próprias.

Struan deu uma olhada em Aristotle e ficou imaginando como ele conseguira convencer Vargas a permitir que Manoelita fosse sua acompanhante, no jantar. Meu Deus, pensou, será que Manoelita é quem está posando para o quadro?

— A Kankana — dizia Longstaff — puxa vida. Um jogo diabólico e perigoso, TaiPan.

— Para muitas pessoas modernas, não, Excelência. Todos pareceram gostar muito.

— Mas, se a Srta. Tillman não tomasse a iniciativa — disse Zergeyev — duvido que qualquer um de nós tivesse a coragem.

— Que outra coisa poderia uma pessoa fazer, Alteza? — disse Shevaun. — A honra estava em jogo. — Ela se virou para Struan.

— Foi uma travessura muito grande, Tai-Pan.

— Sim — disse ele. — Com licença um momento, tenho de ver se meus convidados estão sendo bem atendidos.

Caminhou por entre as mesas, cumprimentando a todos. Quando chegou à mesa de Culum, houve um ligeiro silêncio e Culum ergueu os olhos... — Olá — disse ele.

— Está tudo bem, Culum?

— Sim, obrigado — Culum foi perfeitamente cortês, mas não havia calor. Gorth, sentado diante de Tess na mesa de Culum, riu por dentro. Struan se afastou.

***

Quando o jantar terminou, as damas se retiraram para a grande tenda que fora instalada para elas. Os homens reuniram-se às mesas e fumaram, beberam Porto, encantados por ficarem sós um momento. Relaxaram, falaram a respeito do aumento do preço das especiarias, e Robb e Struan fizeram acordos lucrativos com relação a elas e ao espaço para carga. Todos decidiram que Shevaun era a vencedora, mas Aristotle não parecia convencido.

— Se não der o prêmio a ela — disse Robb — ela o matará.

— Ah, Robb, querido inocente! — disse Aristotle. — Você está petrificado diante dos peitos dela... claro, são impecáveis... mas o concurso é para a mais bem-vestida, e não para a menos vestida!

— Mas o vestido dela é maravilhoso. De longe, o melhor.

— Pobre homem, você não tem olhos de pintor... e nem a responsabilidade de uma escolha imortal.

As apostas eram maiores em Shevaun. Mary era uma das favoritas. E Manoelita tinha seus adeptos.

— Você é a favor de quem, Culum? — perguntou Horatio.

— Da Srta. Sinclair, é claro — disse Culum, com galanteria, embora, segundo seu modo de ver, só uma dama merecesse a honra.

— Você é muito generoso — disse Horatio. Ele se virou, quando Mauss o chamou.

— Com licença, um momento.

Culum ficou sentado numa das mesas, contente de estar a sós com seus pensamentos. Tess Brock. Que belo nome! Como ela era bonita! Que bela dama. Ele viu Gorth, aproximando-se.

— Posso falar-lhe em particular, Struan? — disse Gorth.

— Claro. Por que não se senta? — Culum tentou esconder seu constrangimento.

— Obrigado. — Gorth sentou-se. Ele pôs suas mãos enormes sobre a mesa. — É melhor eu falar de maneira direta. Só sei fazer assim. É a respeito do meu pai e do seu. Eles são inimigos, isto é um fato. Não há nada que possamos fazer quanto a isso, eu e você. Mas, só porque são inimigos, não é necessário que nós também tenhamos de ser. Pelo menos, penso assim. A China é grande o suficiente para você e para mim. Pelo menos, é o que Penso. Estou cansado de ver os dois agindo de maneira estúpida. Como no caso do outeiro... por que cada qual tinha de arriscar o futuro da casa, por uma questão de prestigio? Se não tivermos cuidado, vamos ser arrastados para essa inimizade, você e eu, sem ter nenhum motivo para ódio. O que você diz? Vamos julgar por nós mesmos. O que meu pai acha, ou o que seu pai acha... bom isso é com eles. Vamos começar de maneira honesta, você e eu. Aberta. Talvez a gente possa ser amigo, quem sabe? Mas acho que não é uma coisa cristã nós nos odiarmos, só por causa de nossos pais. O que você diz?

— Concordo — disse Culum, perplexo com o oferecimento de amizade.

— Não estou dizendo que meu pai está errado, e o seu certo. Só digo que temos de tentar, como homens, viver a nossa própria vida, da melhor maneira que pudermos. — O rosto rude de Gorth se abriu num sorriso. — Você parece bastante chocado, rapaz.