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— Desculpe. É só que... bom, sim, eu gostaria que fôssemos amigos. Nunca esperei que... bom, que você tivesse uma mente aberta.

— Está vendo? É exatamente isso que quero dizer, por Deus. Nós nunca dissemos um ao outro mais do que quatro palavrinhas em toda nossa vida e você já está pensando que eu o detesto. Ridículo.

— Sim.

— Não é fácil, o que nós vamos tentar. Não esqueça, nós viemos de vidas diferentes. Minha escola foi um navio. Eu já estava junto ao mastro com dez anos. Então, você tem de desculpar minhas maneiras e meu jeito de falar. Mesmo assim, sei mais a respeito do comércio na China do que a maioria das pessoas, e sou o melhor marinheiro nessas águas. Com exceção de meu pai... e daquele filho da mãe, Orlov.

— Orlov é tão bom assim?

— Sim. Aquele maldito foi gerado por um tubarão e parido por uma sereia. — Gorth pegou um pouco de sal derramado e, supersticiosamente, atirou-o por sobre o ombro. — Aquele patife me causa arrepios.

— A mim também — concordou Culum.

Gorth ficou silencioso por um momento e depois disse:

— Nossos pais não vão gostar nem um pouco de nós sermos amigos.

— Sim. Eu sei.

— Vou ser sincero com você, Struan. Foi Tess quem disse que esta noite era uma boa oportunidade para falar em particular com você. A idéia não foi inicialmente minha. De falar abertamente nesta noite. Mas fiquei satisfeito por isto ter sido dito. O que você acha? Vamos tentar, hein? Aqui está minha mão.

Culum apertou alegremente a mão oferecida.

***

Glessing estava bebendo conhaque, cheio de irritação, na pista, esperando com impaciência. Ele estivera à beira de interromper Horatio e Culum, quando Mauss o chamou. Por que você está assim tão diabolicamente nervoso? — perguntou a si mesmo. Não estou. Só ansioso para dizer logo isso. Por Júpiter, Mary está maravilhosa.

— Com licença, Capitão Glessing — disse o Major Turnbull, com firmeza, aproximando-se dele. Era um homem de olhos cinzentos, meticulosamente limpo, que levava seu cargo de primeiro magistrado de Hong Kong muito a sério. — Boa festa, não?

— Sim.

— Acho que agora é a oportunidade. Sua Excelência está livre. É melhor falarmos com ele, aproveitando a oportunidade.

— Está bem. — Glessing, automaticamente, ajeitou sua espada à cinta e seguiu Turnbull por entre as mesas, até interceptarem Longstaff.

— Pode nos dar um momento de atenção, Excelência? — disse Turnbull.

— Certamente.

— Desculpe trazer questões oficiais para um encontro social, mas é algo importante. Uma de nossas fragatas em patrulha capturou um bando de velhacos piratas.

— Excelente. Um caso evidente?

— Sim, Excelência. A Marinha apanhou os patifes ao sul, ao largo de Aberdeen. Estavam atacando um junco. Assassinaram a tripulação.

— Porcos malditos — disse Longstaff. — Já os julgou?

— Este é o problema — disse Turnbull. — O Capitão Glessing acha que deveria ser um Supremo Tribunal da Marinha... e eu acho que é um julgamento civil. Mas minha autoridade não abrange senão crimes menores e, certamente, não crimes capitais, de nenhum tipo. Este caso deverá ter juiz e júri próprios, e requer um inquérito judicial.

— É verdade. Mas não podemos ter um juiz, até sermos oficialmente uma colônia. E isto ainda vai demorar meses. Não podemos deixar ninguém acusado de qualquer crime na cadeia, sem um julgamento rápido e justo... isto é ilegal. — Longstaff pensou Por um momento. — Eu diria que é uma questão civil. Se o júri condenar, enviem-me os papéis e eu confirmarei a sentença. É melhor erigir o patíbulo em frente à cadeia.

— Não posso fazer isso, Excelência. Não seria legal. A lei é muito clara... só um juiz adequado poderia julgar um caso assim.

— Bom, não podemos manter homens acusados de crimes trancafiados indefinidamente, sem lhes dar um julgamento aberto e justo. O que sugere?

— Não sei, senhor.

— Que coisa aborrecida! — disse Longstaff. — Você está certo, naturalmente.

— Talvez seja o caso de entregá-los às autoridades chinesas, para que cuidem deles

— disse Glessing, ansioso para ter a questão resolvida, a fim de poder conversar com Horatio.

— Desaprovo isso — disse Turnbull, bruscamente. — O crime foi cometido em águas britânicas.

— Concordo plenamente — disse Longstaff. — Por enquanto, mantenha presos todos os acusados, enquanto envio um despacho urgente para o Ministério de Relações Exteriores, pedindo orientação.

— Sim, Excelência. — Turnbull fez uma pausa. — E eu gostaria então, de receber fundos, para aumentar a prisão. Tenho dúzias de casos de roubo com violência e um deles de arrombamento e invasão com arma mortífera.

— Está bem — disse Longstaff, preguiçosamente. — Vamos discutir isso amanhã.

— Também gostaria de ter um encontro com V. Exa. amanhã — disse Glessing. — Preciso de algum dinheiro para contratar pilotos, e necessitamos estabelecer as tarifas para o porto e acostagem. Quero também autoridade para requisitar alguns rápidos caçapiratas. Há fortes rumores de que aquele demônio, Wu Fang Choi, está com uma frota no norte. Também preciso de autoridade para estender jurisdição sobre todas as águas de Hong Kong. Há necessidade urgente de padronizar as licenças do porto e questões similares.

— Muito bem, Capitão — disse Longstaff. — Ao meio-dia.

— E, em seguida, para Turnbulclass="underline" — Às nove horas?

— Obrigado, Excelência.

Para lástima de Glessing, Longstaff se virou e caminhou em direção a Horatio. Meu Deus, pensou ele, nunca o encontrarei sozinho, esta noite.

***

Struan estava observando os navios ancorados e examinando o céu. Bom tempo, disse a si mesmo.

— É um belo porto, Sr. Struan — disse Zergeyev, em tom amistoso caminhando casualmente em sua direção.

— Sim. É bom termos nossas próprias águas, afinal. — Struan estava em guarda, mas suas maneiras eram descontraídas. — Hong Kong será, um dia, uma jóia perfeita na coroa da rainha.

— Vamos caminhar um pouco?

Struan começou a andar no mesmo ritmo do arquiduque, enquanto este seguia em direção ao mar.

— Pelo que soube, só obtiveram a ilha há pouco mais de dois meses. — O arquiduque fez um aceno de mão em direção ao início dos prédios em todo Vale Feliz. — Entretanto, têm quase uma cidade. Sua energia e indústria são espantosas.

— Bom, Alteza, se há algo a ser feito, não adianta esperar, não é?

— Não. Mas acho curioso, sendo a China tão fraca, que tenham tomado apenas um rochedo árido. Deve haver muitos outros prêmios importantes.

— Não estamos atrás de prêmios, na China. Apenas uma pequena base para querenar e reparar nossos navios. E eu diria que uma nação de trezentos milhões de habitantes nada tem de fraca.

— Então, com a guerra sem acabar, suponho que estão esperando reforços substanciais. Exércitos, não apenas alguns poucos milhares de homens. Frotas... e não trinta e tantos navios.

— Sua Excelência deve saber mais a respeito disso do que eu. Mas eu diria que qualquer potência que enfrenta a China terá diante de si uma longa luta. Sem os planos necessários e os homens necessários. — Struan fez um sinal em direção ao continente, do outro lado do porto. — A terra não tem limites.

— A Rússia não tem limites — disse Zergeyev. — Mas só em termos simbólicos. Na realidade, até mesmo a Rússia tem fronteiras. Com o Ártico, com o Himalaia. Com o Báltico e o Pacífico.

— Vocês tomaram terras ao norte? — Struan tentou disfarçar o pasmo em sua voz. Onde, pelo amor de Deus? Ao norte da Manchúria? A Manchúria? Ou a China, minha China?