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— A Mãe Rússia se estende de um mar a outro. Governada por Deus, Tai-Pan — disse Zergeyev, com simplicidade. — Devia ver a terra da Mãe Rússia, para entender o que eu quero dizer. É negra e rica, cheia de vida. Entretanto, devastamos cento e cinqüenta milhas de nosso território, para conter Bonaparte e a Grande Armêe. O senhor pertence ao mar. Mas eu pertenço à terra. Eu lhe concedo o mar, Tai-Pan. — Os olhos de Zergeyev pareceram empanar-se. — Foi uma grande luta, a desta tarde. E um desafio interessante. Muito interessante.As rugas do rosto de Struan se aprofundaram, com seu sorriso.

— Pena que fosse empate. Agora jamais saberemos... não é, Alteza?... quem era o melhor homem.

— Gosto do senhor, Sr. Struan. Gostaria de ser seu amigo. Poderíamos prestar grandes serviços um ao outro.

— Será uma honra para mim ajudá-lo, de qualquer maneira.

Zergeyev riu, com os dentes reluzindo, muito brancos.

— Há tempo bastante. Uma vantagem que a Ásia tem sobre a Europa é sua avaliação de tempo. Minha família vem de Karaganda. Fica deste lado dos Urais, de modo que, talvez, em parte, eu seja asiático. Somos Kazaki. Algumas pessoas nos chamam “cossacos”.

— Não entendo. Os Urais?

— Uma cadeia de montanhas que corre do Ártico até o Mar Cáspio. Divide a Rússia em duas partes... leste e oeste.

— Sei muito pouco a respeito da Rússia.. . ou da Europa, diga-se de passagem — falou Struan.

— Deveria ir à Rússia. Dê-me seis meses de seu tempo e me deixe ser seu anfitrião. Há muita coisa para ver... cidades e mares de grama. Poderia ser uma experiência muito proveitosa. Grandes mercados para o chá e sedas e todo o tipo de mercadoria. — Seus olhos cintilaram. — E as mulheres são lindas.

— Estou um pouco ocupado esta semana, mas quem sabe na próxima?

— Ora, não vamos brincar, mas falar um pouco a sério. Por favor, examine o assunto. No próximo ano, no subseqüente. Acho que é muito importante. Para o senhor, para seu país e para o futuro. A Rússia e a Inglaterra jamais guerrearam uma com a outra. Durante séculos, fomos aliados, e temos diferenças com a França, nosso inimiga hereditária. A Rússia possui grandes recursos terrestres e milhões de pessoas, pessoas fortes. Vocês têm pouca terra, então precisam de seu Império, e nós somos a favor. Vocês governam os mares, e somos a favor. Vocês têm seu espantoso poderio industrial e a riqueza que ele traz. Estamos muito satisfeitos. Vocês têm mercadorias comerciais e os meios de entregá-las, e nós temos mercados. Mas também temos mercadorias que vocês podem usar; matéria-prima de que precisam para alimentar suas incríveis máquinas, e dar comida ao seu surpreendente povo. Juntos, somos imbatíveis. Juntos, podemos dominar a França. E o Sacro Império Romano, a Prússia e a infiel Turquia. Juntos, podemos manter a paz. E crescer e prosperar, para o benefício de todos.

— Sim — disse Struan, com a mesma seriedade. — Sou a favor disso. Mas você está falando em nível nacional. De um ponto de vista histórico. Isto não é prático. E eu não creio que possa culpar os franceses pela ambição de seus reis. Ou justificar a transformação dos turcos em cristãos com o uso da espada. Eu já dei minha opinião, durante o almoço. Em nível internacional, sem alguma forma de controle sobre os reis e rainhas, sempre teremos guerras. Sua Excelência disse muito bem. Os reis, e qualquer tipo de líderes, derramam o sangue dos outros. Para ser prático, há pouca coisa que eu possa fazer. Não opero em nível nacional e não tenho nenhum poder real no Parlamento, como sabe muito bem...

— Mas, a respeito da Ásia, sua opinião é cuidadosamente ouvida. E eu tenho grande poder em São Petersburgo. Struan deu uma longa tragada em seu charuto e, depois, soprou a fumaça.

— O que quer na Ásia?

— O que quer na China?

— Comerciar — disse Struan, imediatamente, mas muito em guarda, e com cuidado para não revelar seu verdadeiro objetivo. Existe uma diferença diabólica, disse ele a si próprio, entre a Ásia e a China.

— Eu poderia, talvez, garantir que a Casa Nobre tivesse uma autorização exclusiva de importar chá para o mercado de todas as Rússias. E, na viagem de volta, ficaria com todas as exportações de pele e trigo de todas as Rússias.

— Em troca de quê? — perguntou Struan, esmagado pela enormidade da oferta. Um monopólio assim significaria milhões. E uma posição de tal poder o situaria em boa colocação nos círculos políticos ingleses, dando-lhe enorme prestígio.

— Amizade — disse Zergeyev.

— Esta palavra tem uma variedade de significados, Alteza.

— Tem apenas um significado, Sr. Struan. Claro que há muitas maneiras através das quais um amigo pode ajudar o outro.

— Que ajuda específica iria especificamente, desejar, em troca de um acordo comercial específico, com a minha companhia? Zergeyev riu.

— São especificidades demais para uma noite só. Sr. Struan. Mas vale a pena pensar a respeito, e vale a pena considerar. E discutir numa oportunidade específica, hein? — Ele olhou o porto, e os navios que seguiam para o continente. — O senhor deveria ir à Rússia — repetiu.

***

— Quando quer isto traduzido. Excelência? — Horatio ergueu os olhos do papel que Longstaff lhe entregara.— A qualquer momento, querido amigo. Dentro dos próximos dias, que tal? Mas coloque os caracteres chineses sobre as palavras inglesas, hein?

— Sim, senhor. Deve ser enviado a alguém?

— Não. Simplesmente, devolva-o a mim. Claro, é um assunto particular.

Longstaff se afastou, satisfeito com a maneira como o projeto ia progredindo. A carta dizia: “Sua Excelência o Capitão Superintendente do Comércio Inglês quer comprar sementes de amora, num peso de cinqüenta libras, ou mil mudas, para serem entregues o mais rápido possível. “Tudo que ele teria de fazer, quando Horatio devolvesse o texto traduzido, era substituir “amoras” por “chá”. Ele podia fazer isto sozinho; os caracteres chineses que significavam chá estavam escritos em todas as caixas exportadas. Então, esperaria até decidir quem mereceria confiança suficiente para receber o papel.

Sozinho, Horatio leu outra vez a carta. Ora, por que Longstaff iria querer amoras? Havia dezenas de milhares de amoreiras, com seus bichos-da-seda, no sul da França, e seria simples conseguir sementes de lá. Mas não tão simples consegui-las na China. Será que Longstaff está planejando plantar um pomar com essas árvores, aqui? Mas, por que cinqüenta libras? É uma quantidade fantástica de sementes, e ele não é nenhum jardineiro. E por que dizer, bruscamente: “Claro que é um assunto particular”?

— Horatio?

— Ah, olá, George. Como vai?

— Bem, obrigado.

Horatio notou que Glessing estava suando, e pouco à vontade.

— O que há?

— Nada. É apenas que... bom... chega uma hora na vida de todo homem... quando ele deve... bom... a gente encontra alguém a quem... eu não estou explicando direito. É Mary. Quero me casar com ela, e desejo a sua bênção.

Horatio acalmou-se com esforço e disse o que decidira, antecipadamente, falar. Estava muito consciente da atenção de Glessing a Mary, aquela noite, e lembrava do olhar que tivera, naquele primeiro dia. Ele odiou Glessing por ousar complicar a sua vida e a de Mary, e ousar ter a impertinência de pensar que Mary consideraria, por um só instante, a sua proposta.

— Estou muito lisonjeado, Glessing. E Mary ficará também. Mas ela, bom, não creio que ela esteja ainda preparada para o casamento.

— Mas claro que está. E eu tenho belas perspectivas, meu avô vai deixar para mim a herdade. Ficarei em boas condições financeiras, e minhas expectativas quanto ao serviço são excelentes e...

— Calma, George. Precisamos considerar as coisas com muito cuidado. Você já discutiu o assunto com Mary?

— Meu Deus, não. Queria primeiro saber sua impressão. Claro.

— Bom, por que você não deixa o assunto comigo? Eu não tinha idéia de que suas intenções eram sérias. Acho que você vai precisar ter paciência comigo... sempre pensei em Mary como sendo mais jovem do que realmente é. Claro que ela não tem ainda a idade mínima para o consentimento — acrescentou, em tom despreocupado.