— Juro por Deus que implorei perdão.
— Estou tão satisfeita, querido irmão. Mas não existe Deus — ela disse, com voz impessoal e cruel. — Eu lhe perdôo. Mas isto não me transforma numa virgem, não é?
— Mary, eu lhe suplico, por favor, pelo amor de Deus, por favor...
— Eu lhe perdôo tudo, querido irmão. Só não perdôo sua lamentável hipocrisia. Nós não pecamos... você pecou. Reze por sua própria alma... não pela minha.
— Rezo mais pela sua do que pela minha. Nós pecamos, que Deus nos ajude. Mas o Senhor perdoará. Ele perdoará, Mary.
— Este ano, com pagode, eu me casarei com George e esquecerei você, e esquecerei a Ásia.
— Você não tem a idade mínima para o consentimento. Você não pode ir. Sou seu tutor, de acordo com a lei. Não posso deixar você ir. Em tempo, você verá como isto é aconselhável. É o melhor para você. Proíbo você de partir. Aquele patife, não é suficientemente bom para você, está ouvindo? Você não irá!
— Quando eu decidir casar-me com Glessing — ela sibilou, com a voz a dilacerá-lo
— é melhor você dar sua maldita “aprovação” depressa porque, se não der, vou contar a todo mundo... não, contarei ao Tai-Pan primeiro, e ele irá atrás de você com um chicote. Nada tenho a perder... nada. E todas as suas malditas preces para um Deus não existente e para o doce Cristo de papai não vão ajudá-lo em nada. Porque Deus não existe, nunca existiu, nunca existirá, e Cristo era apenas um homem... um santo mas, ainda assim, um homem!
— Você não é Mary; você é — a voz dele fraquejou — você é o mal. Claro que Deus existe. Claro que temos almas. Você é uma herege. Você é um demônio! Foi você, e não eu! Ó Senhor Deus, perdoai-nos...
Mary esbofeteou-o.
— Pare, querido, irmão. Estou cansada de suas inúteis orações. Está ouvindo? Você fez minha carne ferver, durante anos. Porque eu sabia, pela luxúria em seus olhos, que você ainda desejava ir para a cama comigo. Ainda assim, entendia o que era incesto, e entendia antes mesmo de ter começado. — Ela riu, uma risada terrível. — Você é pior do que papai. Ele estava louco, com sua crença, mas você... você só finge acreditar. Espero que seu Deus exista. Porque ele vai fazer você arder no fogo do inferno para sempre. E que bons ventos o levem.
Ela se afastou. O irmão ficou a procurá-la com o olhar e depois correu, cegamente, pela noite adentro.
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
— Olá, senhor! — disse Lim Din, abrindo a porta com uma mesura.
— Olá, Lim Din — disse Struan, observando o barômetro. Bom tempo, 29.8. Excelente.
Começou a caminhar pelo corredor, mas Lim Din ficou no caminho e fez sinal, com ar importante, em direção à sala de estar.
— Senhola disse pia ir ali. Pode?
— Pode — Struan grunhiu.
Lim Din deu-lhe o conhaque, que já estava servido, e convidou-o, com outra mesura, a se sentar na cadeira de couro de encosto alto, afastando-se às pressas, em seguida. Struan colocou os pés sobre o escabelo estofado. A cadeira cheirava ligeiramente a mofo, a coisa velha e confortável, um odor que se misturava, agradavelmente, ao perfume de Shevaun, ainda parecendo rodeá-lo.
O relógio sobre o consolo da lareira marcava vinte minutos para as doze.Struan começou a trautear uma canção naval. Ouviu uma porta se abrir e um roçagar de seda que se aproximava. Esperando que May-may aparecesse à porta, ele outra vez a comparou com Shevaun. Estivera comparando as duas a noite inteira, tentando avaliá-las de maneira desapaixonada. Shevaun era um belo brinquedo, dinâmica, certamente, e cheia de vitalidade. Uma mulher que ele gostaria de domesticar, sim. E, como esposa, Shevaun seria uma soberba anfitriã — segura de si, inteligente e com a capacidade de abrir muitas portas. May-may constituía um jogo arriscado na Inglaterra — como esposa. Como amante, não. Sim, ele disse a si próprio. Ainda assim, vou casar com ela. Com o poder da Casa Nobre atrás de mim e uma autorização russa exclusiva em meu bolso, posso me arriscar a ignorar uma convenção e romper uma barreira quase intransponível entre Ocidente e Oriente. May-may provará, para além de todas as dúvidas — para sempre — entre as pessoas que realmente contam na sociedade, que o oriental é completamente digno de respeito. May-may, por si, apressará o dia da igualdade. E isto vai acontecer ainda durante minha vida.
Sim, ele exultou, de si para consigo, May-may é uma aposta maravilhosa. Juntos, poderemos fazer isso. Para sempre. Com pagode, Londres inteira cairá a seus pés.
E, então, a alegria dele se espatifou.
May-may estava em pé à porta, com um sorriso radiante no rosto, rodopiando. Seu vestido europeu era violentamente multicolorido, sobrecarregado de jóias, com a saia grande e cheia de pufes. Seu cabelo caía em cachos sobre os ombros nus e tinha um chapéu de plumas no cabelo. Estava horrorosa. Um pesadelo.
— Pelo sangue de Cristo!
Houve um silêncio horrível, enquanto eles olhavam um para o outro.
— É muito... bonito — ele disse, com voz pouco convincente, esmagado pela dor que apareceu nos olhos de May-may.
May-may estava fantasmagoricamente pálida, agora, a não ser pelas duas manchas escarlates que tinha no alto das faces. Sabia que perdera prestígio terrivelmente, diante de Struan. Cambaleou, quase desmaiando. Depois, gemeu e fugiu.
Struan saiu correndo atrás dela, pelo corredor. Invadiu os aposentos particulares de May-may. Mas o quarto de dormir estava trancado, para ele não entrar.
— May-may, garota, abra a porta!
Não houve resposta. Ficou furioso consigo mesmo, por não ter conseguido mascarar seus sentimentos, e por ter sido tão estúpido e despreparado. Claro que May-may desejaria ir ao baile, é lógico que todas as suas perguntas deveriam tê-lo advertido disto, naturalmente ela mandaria fazer um vestido de baile e — ah, Jesus Cristo!
— Abra a porta!
Outra vez, não houve resposta. Ele bateu os pés na porta, com toda força. Esta se abriu e ficou precariamente pendurada nas dobradiças quebradas. May-may estava em pé ao lado da cama, olhando para o chão.
— Você não devia ter trancado a porta, garota. Bom... bom, você... o vestido e você simplesmente me espantaram, por um momento. — Sabia que tinha de lhe devolver seu prestígio, senão ela morreria. Morreria de infelicidade, ou então se mataria. — Vamos — ele disse. — Nós vamos para o baile.
Quando ela caiu de joelhos, para se prosternar diante dele e lhe implorar perdão, o vestido atrapalhou-a e a fez tropeçar. May-may abriu a boca para falar, mas não saiu nenhum som. O chapéu de penas escorregou.
Struan correu para ela e começou a erguê-la. — Vamos, May-may, garota, você não deve fazer isso. Mas ela não queria ser ajudada a se levantar. Enterrou o rosto mais fundo no tapete e tentou enfiar as unhas no tecido.
Ele a levantou, desajeitadamente, e segurou-a. Ela não o olhava. Ele lhe segurou a mão, com firmeza.
— Vamos.
— O quê? — ela disse, estupidamente.
— Vamos para o baile.
Ele sabia que isto seria um desastre, para ele e para ela. Sabia que seria socialmente destruído e ela ridicularizada. Mas sabia também que deveria levá-la, senão o seu espírito morreria.
— Vamos — ele repetiu, com um toque de dor na voz. Mas ela continuou a olhar para o chão, tremendo.
Puxou-a, suavemente, mas ela quase caiu. Então ele, sombriamente, a levantou, e ela ficou em seus braços, um peso morto. Começou a carregá-la.