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— Vamos, e este é o fim da questão.

— Espere — ela resmungou — eu preciso, eu, eu, o chapéu. Ele a pôs no chão e ela voltou para o quarto de dormir, com o andar trôpego enfeado pelo vestido. Struan sabia que nada seria outra vez exatamente como antes, entre eles. Ela cometera um erro horrível. Ele deveria ter previsto, sim, mas...

Viu que ela se lançava sobre o estilete, afiado como uma navalha, que usava para bordar. Alcançou-a exatamente quando ela começava a virá-lo em direção a si mesma, e agarrou o punho da faca. A ponta resvalou pelo osso de baleia no corpete de May-may. Ele atirou a faca para um lado e tentou segurá-la mas, vociferando em chinês, ela o empurrou e meteu as unhas no vestido, rasgando-o. Struan, depressa, virou-a e abriu os colchetes de gancho. May-may rompeu a parte da frente e lutou para sair do vestido e do corpete, rasgando em seguida as calças. Quando estava livre, pisoteou o vestido, gritando.

— Pare! — ele gritou, e a agarrou, mas ela o empurrou, tomada de fúria cega. –

Pare!

Ele lhe bateu no rosto, com a mão aberta. Ela cambaleou, como se estivesse bêbada, e caiu atravessada na cama. Seus olhos se reviraram, e ela perdeu a consciência.

Struan levou um momento para se recuperar das marteladas nos ouvidos. Puxou as roupas de cama e cobriu May-may.

— Ah Sam! Lim Din!

Os dois rostos petrificados apareceram à porta quebrada.

— Chá... depressa! Não. Tragam conhaque.

Lim Din voltou com a garrafa. Struan ergueu May-may gentilmente e ajudou-a a beber. Ela ficou meio sufocada. Depois, seus olhos tremeram e se abriram. Olhou para ele, sem reconhecê-lo.

— Está bem, garota? Você está bem, May-may?

Ela não deu nenhum sinal de tê-lo escutado. Seu olhar assustado caiu sobre o vestido rasgado e ela se encolheu, deploravelmente. Um gemido lhe escapou dos lábios, e murmurou alguma coisa em chinês. Ah Sam avançou relutantemente, consumida pelo terror. Ela se ajoelhou e começou a pegar a roupa.

— O que ela disse? O que a senhora disse? — Struan mantinha os olhos em May-may, sem se desviarem.

— Para tocar fogo nas roupas endemoninhadas, senhor.

— Não toque fogo, Ah Sam. Ponha no meu quarto. Escondidas. Escondidas. Entendido?

— Entendido, senhor.

— Depois volte.

— Está bem, senhor.

Struan fez um aceno de mão, para Lim Din sair, e ele se afastou correndo.

— Vamos, garota — disse bondosamente, aterrorizado com a fixidez e a loucura do olhar dela. — Vista-se com suas roupas habituais. Você precisa ir ao baile. Eu quero que você conheça meus amigos.

Ele deu um passo em direção a ela, que recuou abruptamente, como uma cobra prestes a dar o bote. Ele parou. O rosto dela estava contorcido e seus dedos pareciam garras. Uma gota de saliva se formara num canto de sua boca. Seus olhos estavam aterrorizadores.

Sentiu medo dela. Vira o mesmo olhar em outros olhos. Nos olhos do fuzileiro, pouco antes de seu cérebro ser despedaçado, naquele primeiro dia em Hong Kong. Fez uma oração silenciosa ao Infinito e reuniu todas as suas forças.

— Eu a amo, May-may — ele disse suavemente, vezes repetidas, enquanto caminhava devagar de um lado para outro do quarto.

Cada vez mais perto. Devagar, tão devagarzinho. Ele se inclinou sobre ela, agora, e viu as garras prontas para atacarem. Ergueu as mãos e, suavemente, tocou-lhe o rosto.

— Eu a amo — repetiu. Seus olhos, perigosamente desprotegidos, sugestionavam-na com a imensidão de seu poder. — Preciso de você, garota, preciso de você.

A loucura que havia nos olhos dela transformou-se em agonia e May-may caiu soluçando em seus braços. Ele a segurou e agradeceu a Deus, fracamente.

— Sinto muito — ela gemeu.

— Não sinta, garota. Tudo bem, tudo bem.

Ele a carregou para a cama e ficou sentado com ela nos braços, embalando-a como se fosse uma criança.

— Tudo bem, tudo bem.

— Me deixe, agora. Está... tudo bem.

— Não vou fazer isso — ele disse. — Primeiro, se recomponha, depois você vai se vestir para ir ao baile. Ela abanou a cabeça, chorando.

— Não, não... posso. Eu... por favor...

Ela parou de chorar e, saindo de seus braços, ficou de pé, cambaleando. Struan pegou-a e a conduziu para a cama, ajudando-a a tirar o resto das roupas esfarrapadas. Cobriu-a bem com os lençóis. Ela ficou caída na cama, e fechou os olhos, exausta.

— Por favor. Estou bem, agora. Preciso... dormir. Vá embora.

Ele lhe acariciou a cabeça, gentilmente, afastando de seu rosto os cachos obscenos. Mais tarde, ele teve consciência de que Ah Sam estava à porta. A moça entrou no quarto, com as lágrimas a lhe escorrerem pelas faces.

— Pode ir, senhor — sussurrou. — Ah Sam vigia, não se incomode. Não tenha medo. Pode.

Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, cheio de cansaço. May-may estava profundamente adormecida. Ah Sam ajoelhou-se ao lado da cama e suavemente, com ternura, acariciou a cabeça de May-may.

—Não tenha medo, senhor. Ah Sam vigia muito bem, até o senhor voltar. Struan saiu do quarto, nas pontas dos pés.

CAPÍTULO VINTE E QUATRO

Culum foi o primeiro a cumprimentar Struan, quando ele voltou para o baile.

— Podemos começar o julgamento? — perguntou, bruscamente. Nada poderia destruir sua euforia com o amor recém-descoberto, e com o irmão dela, seu novo amigo. Mas ainda fazia o jogo.

— Você não devia ter esperado — respondeu Struan, com dureza. — Onde está Robb? Pelo sangue de Cristo, tenho de fazer tudo?

— Ele teve de ir embora. Chegou notícia de que as dores de parto de tia Sarah haviam começado. Parece que há algum problema.

— O quê?

— Não sei. Mas a Sra. Brock foi com ele, para ver se podia ajudar.

Culum se afastou. Struan mal notou que ele se fora. Sua preocupação com May-may voltou e, agora, estava sobrecarregada com a preocupação com Sarah e Robb. Mas Liz Brock era a melhor parteira da Ásia e, se fosse necessária qualquer ajuda, Sarah a teria.

Shevaun se aproximou, trazendo-lhe conhaque. Ela lhe entregou o copo sem uma só palavra e deu-lhe o braço, com delicadeza. Sabia que não havia necessidade de conversa. Numa ocasião assim, era melhor não dizer nada — pense quanto quiser, mas nada de perguntas. Pois mesmo a pessoa mais poderosa, ela sabia, precisava de um apoio silencioso, compreensivo e paciente, de vez em quando. Então, ficou à espera, deixando que sua presença o envolvesse.

Struan bebeu o conhaque, devagar. Seus olhos vaguearam pela multidão e ele viu que tudo estava bem — risos aqui e acolá, leques adejando, espadas a reluzirem. Observou Brock, em conversa particular com o arquiduque. Brock escutava e, ocasionalmente, acenava afirmativamente com a cabeça, por completo concentrado. Será que Zergeyev lhe oferecia a autorização? Mary abanava-se, ao lado de Glessing. Algo está errado ali, disse a si próprio. Tess, Culum e Gorth riam entre si. Ótimo.

E, quando Struan acabou o conhaque e se recompôs, olhou para Shevaun.

— Obrigado — disse, comparando o ridículo de May-may, em trajes e penteado europeus, com a perfeição de Shevaun. — Você é muito bonita e muito compreensiva.

Sua voz estava soturna e ela sabia que deveria ter sido algo relativo à sua amante. Não importa, pensou e segurou o braço dele, compassivamente.

— Estou bem, agora — disse ele.

— O Sr. Quance se aproxima — ela o advertiu, gentilmente. — Está na hora do julgamento. A luz verde dos olhos dele escureceu.

— Você é muito sensata, Shevaun, além de ser bonita.

Um agradecimento veio-lhe à ponta da língua, mas ela nada disse, limitando-se a mover ligeiramente o leque. Sentia que o conhaque, o silêncio e a compreensão — e, acima de tudo, o fato de não ter feito perguntas — haviam contribuído muito para levá-lo à beira de uma decisão.

— Ah, Tai-Pan, meu caro amigo — disse Quance, ao se aproximar, com os olhos cheios de alegria, um rubor alcoólico a envolvê-lo. — Está na hora do julgamento!