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— Muito bem, Aristotle.

— Então, faça a comunicação, vamos saber o resultado!

Sr. Quance! — Como um trovão, as palavras rasgaram a noite.

Todos se viraram, espantados. Quance gemeu alto.

Maureen Quance estava ali em pé, com seus olhos a reduzi-lo a pó. Era uma irlandesa alta, de ossos grandes, com um rosto como um pedaço de couro, nariz enorme e pernas sólidas como carvalhos. Tinha a mesma idade de Quance, mas era forte como um touro, o cabelo grisalho preso num coque desarrumado. Quando jovem, era atraente, mas agora, com a pança provocada pelas batatas e pela cerveja, tornara-se esmagadora.

— Muito boa-noite, Sr. Quance, meu bom rapaz — disse. — Sim, sou eu mesma, que Deus seja louvado!

Ela se arrastou pela pista de danças, sem se importar com os olhares e com o silêncio embaraçado, e ficou em pé diante de seu marido.

— Andei procurando por você, meu bom rapaz.

— Ah? — disse ele, com a voz num trêmulo falsete.

— Ah, sim. — Ela virou a cabeça. — Muito boa-noite, Sr. Struan, quero agradecerlhe pela hospedagem e comida. Deus seja louvado, peguei o malvado.

— A senhora, ah... está com bom aspecto, Sra. Quance.

— Sim, na verdade me sinto maravilhosamente bem. Foi um abençoado milagre de São Patrício que enviou o navio nativo até onde eu me achava, e me guiou os passos a este recanto imortal. — Ela virou os olhos lúgubres para Aristotle, e ele tremeu. — Vamos nos despedir, meu querido!

— Mas, Sra. Quance — disse Struan, depressa, lembrando o julgamento. — O Sr. Quance tem algo que...

— Vamos dizer boa-noite — ela grunhiu. — Diga boa-noite, meu rapaz. — Boa-noite, Tai-Pan — guinchou Aristotle. Mansamente, deixou que Maureen o levasse pelo braço. Depois que haviam partido, todos morreram de rir.

— Pelo sangue de Cristo — disse Struan. — Pobre Aristotle.

— O que aconteceu com o Sr. Quance? — perguntou Zergeyev.

Struan explicou as tribulações domésticas de Aristotle.

— Talvez nós devêssemos socorrê-lo — disse Zergeyev. — Eu gostei muito dele..— Mas não podemos nos meter em briga de marido e mulher, não é?

— Acho que não. Mas quem julgará o concurso?

— Creio que vou ter de fazer isso.

Os olhos de Zergeyev semicerraram-se.

— Posso me apresentar como voluntário? Sendo um amigo?

Struan examinou-o. Depois, deu uma volta sobre os calcanhares e caminhou para o centro da pista. As bandas tocaram um alto acorde.

— Sua Excelência, Sua Alteza, senhoras e cavalheiros. Há um concurso para julgar a dama mais bem-vestida da noite. Temo que nosso imortal Quance tenha outro compromisso. Mas Sua Alteza o Arquiduque Zergeyev apresentou-se como voluntário para fazer a escolha. — Struan olhou para Zergeyev e começou a bater palmas. Seus aplausos foram acompanhados e houve um rugido de aprovação, enquanto Zergeyev avançava.

Zergeyev pegou a bolsa com os mil guinéus.

— A quem devo escolher, Tai-Pan? — perguntou, falando pelo canto da boca. — A Tillman para você, a Vargas para mim, a Sinclair porque é a mais misteriosa? Escolha quem deve ganhar.

— A escolha é sua, meu amigo — disse Struan e, com um sorriso calmo, se afastou.

Zergeyev esperou um momento, gozando o suspense da escolha. Sabia que devia escolher quem o Tai-Pan queria. Decidiu-se, atravessou a pista, curvou-se e depôs a bolsa de ouro aos pés dela.

— Acredito que isto lhe pertence, Srta. Brock.

Tess olhou para o arquiduque, atônita. Depois, corou, quando o silêncio foi rompido.

Houve um aplauso forte, e os que haviam apoiado Tess, em suas apostas, gritaram de satisfação. Shevaun aplaudiu junto com a multidão e conteve seu ressentimento. Sabia que era uma escolha sábia.

— A escolha política ideal, Tai-Pan — sussurrou, calmamente. — Você é muito esperto.

— A decisão foi do arquiduque, não minha.

— Outra razão para eu gostar de você, Tai-Pan. Você é um grande jogador e seu pagode é inacreditável.

— E você é uma mulher maravilhosa.

— Sim — ela disse, sem vaidade. — Compreendo a política muito bem. Meu pai, ou um de meus irmãos, será presidente dos Estados Unidos, um dia.

— Você devia estar na Europa — ele disse. — Aqui, você se desperdiça.

oSerá mesmo? — os olhos dela o desafiaram.

CAPÍTULO VINTE E CINCO

Struan entrou tranqüilamente em casa. O amanhecer principiava. Lim Din dormia junto da porta e acordou espantado.

— Chá, senhor? Desjejum? — perguntou, sonolento.

— Vá para a cama, Lim Din — disse Struan, gentilmente. Enquanto Struan atravessava o corredor, deu uma olhada nasala de visitas e parou. May-may, pálida e imóvel, estava sentada na cadeira de couro, observando-o.

Quando ele entrou na sala, ela levantou-se e se curvou, graciosamente. Seu cabelo estava suspenso, puxado para trás, seus olhos amendoados eram delicados e tinha as sobrancelhas arqueadas. Usava um longo e flutuante vestido chinês.

— Como vai, moça? — ele perguntou.

— Obrigada, esta escrava está bem, agora. — A palidez e o verde-claro de seu vestido de seda aumentavam a imensidão de sua dignidade. — Quer beber conhaque?

— Não, obrigado.

— Chá?

Ele abanou a cabeça, pasmado com sua majestade. — Estou satisfeito de você se sentir melhor. Devia estar na cama.

— Esta escrava pede que lhe perdoe. Esta escrava...

— Você não é escrava, e nunca foi. E não há nada a perdoar, garota, então vá para a cama. Ela esperou, pacientemente, até ele terminar.

— Esta escrava lhe implora para escutar. Ela precisa dizer, à sua maneira, o que é preciso ser dito. Por favor, sente-se. Uma lágrima deslizou pelo canto de cada olho e escorreu sobre a brancura de suas faces. Ele se sentou, quase hipnotizado por ela.

— Esta escrava implora a seu amo para vendê-la.

— Você não é escrava, e não pode ser vendida ou comprada.

— Por favor, venda. Para qualquer pessoa. Para um bordel, ou para outro escravo.

— Você não está à venda.

— Esta escrava ofendeu-o além do suportável. Por favor, venda.

— Você não me ofendeu. — Ele se levantou, e sua voz estava metálica. — Agora, vá para a cama.

Ela caiu de joelhos e tocou a testa no colchão. .— Esta escrava sente vergonha diante de seu amo e senhor. Ela não pode viver aqui. Por favor, venda!

— Levante-se! — O rosto de Struan se endureceu.

Ela se levantou. Seu rosto estava cheio de sombras, etéreo.

— Você não está à venda, porque ninguém a possui. Você vai ficar aqui. Você não me ofendeu. Você me surpreendeu, só isso. Roupas européias não ficam bem em você. Das roupas que você usa, eu gosto. E gosto de você como você é. Mas, se não quer ficar, você é livre para ir embora.

Struan estava quase explodindo. Controle-se, disse a si mesmo, desesperado. Se perder a cabeça, agora, você a perderá para sempre.

— Vá para a cama.

— Deve vender esta escrava. Venda esta escrava ou lhe ordene para ir embora.

Struan percebeu que era inútil argumentar ou discutir com May-may. Você não pode tratá-la como européia, disse a si mesmo. Trate-a como se você fosse chinês. Mas como vou fazer isso? Não sei. Trate-a como uma mulher, ele ordenou a si mesmo, decidindo-se por uma tática.

Então explodiu, com raiva fingida.

— Você é uma miserável escrava, por Deus! E estou pensando em vender você na Rua das Lanternas — gritou, citando a pior das ruas com bordéis para marinheiros de Macau — muito embora eu não saiba quem vai querer comprar uma escrava sem préstimo feito você. Você só dá problema e estou pensando em entregar você aos leprosos. Sim, por Deus! Paguei oito mil taéis de boa prata por você, e como ousa me aborrecer? Fui enganado, por Deus! Você não vale nada! Escrava suja... não sei como suportei você todos esses anos! — Sacudiu o punho junto ao seu rosto, e ela se encolheu. — Não sou bom para você? Hein? Generoso? Hein? Hein? — Ele rugiu e ficou satisfeito, ao descobrir medo nos olhos dela — Diga lá!