— Sim, senhor — ela sussurrou, mordendo os lábios.
— Você ousa arranjar roupas feitas sem eu saber, e ousa usar essas roupas sem minha aprovação, por Deus? Responda, ousa?
— Sim, senhor.
— Vou vender você amanhã. Estou pensando em expulsá-la agora, sua miserável prostituta filha da mãe! Ajoelhe-se! Vamos, ajoelhe-se, por Deus! Ela empalideceu, diante da fúria dele, e se ajoelhou, depressa.
— E fique aí ajoelhada, até eu voltar!
Ele saiu correndo da sala e foi para o jardim. Puxou a faca e escolheu um bambu fino, de um bosque recém-plantado. Cortou-o brandiu-o no ar e voltou correndo para a sala de visitas.
— Tire a roupa, escrava miserável! Vou açoitar você até meus braços ficarem doendo.
Tremendo, ela tirou a roupa. Ele tomou o vestido de suas mãos e atirou para um canto.
— Deite-se aí. — Apontou para o escabelo estofado. Ela fez como ele lhe ordenara. — Por favor, não bata em mim com força demais... estou grávida de dois meses. — Ela enterrou a cabeça no escabelo.
Struan queria tomá-la nos braços, mas sabia que isto o faria perder prestígio diante dela. E chicoteá-la era a única maneira de devolver-lhe a dignidade.
Então bateu-lhe nas nádegas com o bambu. O suficiente para doer, mas não para causar danos. Logo ela estava gritando, chorando e se contorcendo, mas ele continuou. Duas vezes, deliberadamente, errou o alvo e bateu no couro, violentamente, causando um barulho terrificante, para impressionar Lim Din e Ah Sam que, ele sabia, deviam estar à escuta.
Depois de dez pancadas, fez uma pausa e disse a ela para ficar onde estava, indo, então, pegar a garrafa de conhaque. Bebeu muito, atirou a garrafa contra a parede e recomeçou a açoitá-la. Mas, sempre com muito cuidado.
Afinal, parou e levantou-a no ar.
— Vista-se, sua escrava miserável! — Quando ela já estava vestida, ele berrou: — Lim Din! Ah Sam!
Instantaneamente, eles apareceram à porta, tremendo.
— Por que não trazem chá e nem comida, seus miseráveis escravos! Vão pegar comida! Atirou o bambu para o lado da porta e se virou outra vez para May-May.
— Ajoelhe-se, sua filha da mãe!
Aterrorizada com a imensidão da fúria dele, ela obedeceu depressa.
— Limpe-se e volte para cá. Em trinta segundos, senão eu começo tudo de novo!
Lim Din serviu o chá e, embora estivesse perfeito, Struan disse que estava frio demais e jogou o bule contra a parede. May-may, Lim Din e Ah Sam saíram correndo e trouxeram mais.
A comida veio também com incrível velocidade, e Struan permitiu que May-may o servisse. Ela gemeu de dor e ele gritou: — Cale a boca, senão vou chicoteá-la para sempre!
Depois, ele ficou agourentamente silencioso e comeu, deixando a quietude torturálos.
— Pegue o bambu! — ele gritou, quando terminou. May-may pegou o bambu e entregou-o a ele. Ele o empurrou contra seu estômago.
— Cama! — ordenou, com dureza, e Lim Din e Ah Sam fugiram, sentindo-se seguros por saber que o Tai-Pan perdoara sua Tai-tai, tendo esta ganho um prestígio ilimitado por suportar sua justa fúria.
May-may virou-se chorosa e seguiu pelo corredor, em direção aos seus aposentos, mas ele rosnou: — Minha cama, por Deus!
Ela correu para o quarto dele. Ele a seguiu, bateu a porta e trancou-a.
— Então, você está grávida. De quem é o filho?
— Seu, senhor — ela gemeu.
— Ele se sentou e estendeu um pé calçado com a bota.
— Vamos, depressa.Ela caiu de joelhos e puxou as botas, e depois ficou em pé, ao lado da cama.
— Como você ousa pensar que eu queria que você conhecesse meus amigos? Quando quiser levar você para fora da casa, eu lhe digo, por Deus!
— Sim, senhor.
— Lugar de mulher é em casa. Aqui!
— Sim, senhor.
Ele permitiu ao seu rosto abrandar-se um pouquinho.
— Assim é melhor, por Deus!
— Eu não queria ir para o baile — ela disse, num sussurro tímido. — Só queria me vestir como... Eu não queria ir para o baile. Quanto a ir para o baile... eu nunca quis. Só agradar. Desculpe. Sinto muito.
— Por que eu deveria perdoar você, hein? — Ele começou a se despir. — Hein?
— Não há razão. Nenhuma. — Agora ela estava chorando de causar dó, em silêncio. Mas ele sabia que, agora, em breve aquilo iria parar completamente.
— Talvez como você está grávida, eu possa lhe dar outra oportunidade. Mas é melhor ser filho homem, não uma menina inútil.
— Ah, sim... por favor, por favor. Por favor, perdoe. — Ela se ajoelhou e bateu a cabeça no chão.
Seu choro lhe despedaçava o coração, mas ele continuou a se despir, com ar sombrio. Depois, apagou a lanterna e se deitou. Ele a deixou em pé. Depois de um minuto ou dois, ele disse, asperamente:
— Venha para a cama. Estou com frio.
Mais tarde, quando não podia mais suportar vê-la chorando abraçou-a ternamente e a beijou.
— Você está perdoada, garota.
Ela chorou até dormir, nos braços dele.
LIVRO IV
Passaram-se semanas e a primavera se transformou em começo de verão. O sol ia ficando mais forte e a atmosfera tornava-se pesada de umidade. Os europeus, com seus trajes habituais e grossa roupa interna de lã — e vestidos cheios de pufes e espartilhos — sofriam muito. O suor secava nas axilas e nas virilhas e provocava o aparecimento de feridas inflamadas. Começaram as costumeiras doenças de verão — a diarréia de Cantão, a gripe de Macau, o mal asiático. Os que morriam eram pranteados. Os vivos, estoicamente, suportavam seus tormentos como se fossem tribulações inevitáveis, enviadas pelo bom Deus para atormentar a humanidade, e continuavam a fechar suas janelas para se proteger do ar que, todos acreditavam, carregava os gases nocivos emanados da terra no verão; e continuavam a permitir que seus médicos lhes receitassem purgantes, e lhes aplicassem sanguessugas, pois todos achavam ser aquela a única cura real para a doença; e continuavam a beber a água contaminada pelas moscas e a comer carnes infectadas; e continuavam a evitar o banho que, todos achavam, era perigoso para a saúde; e continuavam a rezar pelo frio do inverno, que outra vez purificaria a terra de seus venenos mais letais.
Por volta de junho, as epidemias tinham dizimado as fileiras do Exército. A temporada comercial quase terminara. Aquele ano, seriam ganhas grandes fortunas. Com pagode. Pois jamais a compra e a venda haviam sido tão extravagantes na Colônia de Cantão. Os negociantes, seus funcionários portugueses e compradores chineses, e os mercadores da Co-hong estavam todos exaustos com o calor, mas ainda mais devido às semanas de frenética atividade. Todos estavam prontos para relaxar, até começarem as compras de verão.
E aquele ano, afinal ao contrário de todos os anteriores, os europeus estavam ansiosos para passar o verão em seus próprios lares, em suas próprias terras em Hong Kong.
Suas famílias, em Hong Kong, já se haviam mudado das atravancadas cabinas dos navios para o Vale Feliz. A construção tivera um boom. A Cidade da Rainha já tomava forma — ruas, armazéns, prisão, docas, dois hotéis, tavernas e casas.
As tavernas que supriam os soldados ficavam perto das tendas, no Cabo Glessing. As que serviam aos marinheiros se situavam diante do ancoradouro, na Estrada da Rainha. Algumas eram mesmo tendas, estruturas toscas e provisórias. Outras, tinham caráter mais permanente.