Da Grã-Bretanha chegavam navios trazendo abastecimentos, parentes e amigos, e muitos estrangeiros. E cada maré trazia mais gente de Macau — portugueses, chineses, eurasianos, europeus -. mestres de velas, tecelões, alfaiates, funcionários, criados, negociantes, compradores e vendedores, cules, gente à procura de emprego ou cujos empregos os haviam forçado a ir para Hong Kong — todos os que serviam ao comércio da China, todos os que dele viviam ou tiravam seu sustento, artífices, jogadores e contrabandistas, punguistas e seqüestradores, ladrões, mendigos, piratas -. a escória de todas as nações. Eles também procuravam casa, ou começavam a construir casas e lojas. Botequins, bordéis, locais para fumar ópio começaram a infestar a Cidade da Rainha e a macular a Estrada da Rainha. O crime aumentou violentamente e a força policial, sendo
o que era, foi engolfada. A quarta-feira se tornou o dia dos açoites. Para divertimento dos justos, os criminosos presos eram publicamente açoitados, em frente à cadeia, como advertência para os maus.
A justiça britânica, embora rápida e dura, não parecia cruel aos chineses. Torturar publicamente, espancar até à morte, comprimir os polegares, mutilar, causar a perda de um ou dois olhos, uma ou duas mãos, um ou dois pés, marcar a ferro em brasa, cortar pedaços de carne, garrotear, cegar, arrancar a língua, esmagar os órgãos genitais — tudo isso eram punições chinesas convencionais. Os chineses não tinham julgamento por júri. Como Hong Kong estava além dos limites da justiça chinesa, todos os criminosos do continente que podiam escapar fugiam para a segurança do Tai Ping Shan e zombavam da moleza da lei bárbara.
E, enquanto a civilização florescia na ilha, o lixo começou a se juntar. E, com o lixo, vieram as moscas.
A água começou a se estagnar em barris atirados fora, em vasos e panelas quebrados. Ela se acumulava nos andaimes de bambu, nos jardins inacabados e no pântano raso na bacia do vale. Essas pequenas águas pútridas começaram a fervilhar de vida: larvas, que se tornavam mosquitos. Eram pequenos, frágeis e muito especiais — tão delicados que só voavam quando o sol se punha: o Anofeles.
E a população do Vale Feliz começou a morrer.
CAPÍTULO VINTE E SEIS
— Pelo amor de Deus, Culum, nada sei além do que você sabe. Há uma febre mortífera na Cidade da Rainha. Ninguém sabe o que a provoca e, agora, a pequena Karen contraiu a doença. Struan estava muito infeliz. Há uma semana não tinha notícias de May-may. Partira de Hong Kong há quase dois meses e só voltara numa rápida visita de dois dias, fazia algumas semanas, quando sua necessidade de ver May-may dominou-o. Ela florescia, sua gravidez não tinha nenhum enjôo e eles estavam mais satisfeitos um com o outro do que nunca.
— Graças a Deus nosso último navio foi embora e vamos deixar a Colônia amanhã!
— Tio Robb diz que é malária — disse Culum, exasperado, brandindo a carta de Robb que acabara de chegar.
Estava frenético de preocupação por causa de Tess. Ainda na véspera, recebera uma carta sua, dizendo que ela e sua irmã, bem como a mãe, se haviam mudado do navio para a feitoria de Brock, parcialmente pronta. Mas não fora feita nenhuma menção à malária.
— Qual a cura da malária?
— Que eu saiba, nenhuma. Não sou médico. E Robb diz que apenas poucos médicos acham que é malária. — Struan sacudiu o espanta-moscas com irritação. — “Malária” é a palavra latina que significa “mau ar”. É tudo que eu sei... ou qualquer pessoa sabe. Mãe de Deus, se o ar do Vale Feliz for ruim, estamos arruinados!
— Eu lhe disse para não construir ali — disse Culum enfurecido. — Detestei aquele vale desde a primeira vez em que o vi!
— Pelo sangue de Cristo, você está dizendo que já sabia antecipadamente da ruindade do ar?
— Não. Não quis dizer isso. Quis dizer... bom, detestei o lugar, é tudo.
Struan fechou violentamente a janela, para se proteger contra o mau cheiro que vinha da praça da Colônia e afastou mais moscas, com o abano. Rezou para que a febre não fosse malária. Se fosse, a epidemia poderia atingir a todos que dormissem no Vale Feliz. Todos sabiam que a terra, em alguns lugares do mundo, era envenenada pela malária e, por razão desconhecida, emitia à noite gases letais.
Segundo Robb, a febre começara misteriosamente há quatro semanas. Primeiro, atingira os trabalhadores chineses. Depois, acometera outras pessoas — um negociante europeu ali, uma criança acolá. Mas só no Vale Feliz. Em nenhum outro lugar de Hong Kong. Agora, quatrocentos ou quinhentos chineses estavam contaminados, e vinte ou trinta europeus. Os chineses se sentiam supersticiosamente assustados, certos de que os deuses os puniam por trabalharem em Hong Kong contra o decreto do imperador Só um aumento de salário os persuadira a voltar.
E, agora, a pequena Karen fora atingida. Robb terminava a carta assim: “Sarah e eu estamos desesperados. O curso da doença é insidiosa. Primeiro, uma febre horrível, durante meio-dia, depois uma recuperação, em seguida, uma recaída mais séria da febre, dentro de dois ou três dias. O ciclo é repetido inúmeras vezes sendo cada ataque pior do que o anterior. Os médicos deram a Karen o purgante calomelano mais forte que ousaram. E sangraram a pobre criança, mas não esperamos grandes resultados. Os cules morreram depois do terceiro ou quarto ataque. E Karen está tão fraca, depois do purgativo e da sangria, tão fraquinha. Que Deus nos ajude, mas acho que Karen está perdida.”
Struan caminhou em direção à porta. Meu Deus, primeiro o bebê, agora Karen! Sarah dera à luz um filho, Lochlin Ross, no dia seguinte ao baile, mas a criança nascera doente, com o braço esquerdo aleijado. O parto fora muito difícil e ela quase morrera. Mas escapara à temida enfermidade do pós-parto e, embora seu leite tivesse azedado e seu cabelo se tornasse grisalho, sua força aos poucos voltara. Quando Struan voltou para ver May-May, visitou Sarah. As rugas de angústia e amargura lhe marcavam profundamente o rosto e ela parecia uma velha. Struan ficou mais triste quando viu o bebê: com o braço esquerdo inutilizado, ele era doentio, chorava deploravelmente, e não havia expectativa de sobrevida. Fico imaginando se o bebê está morto, pensou Struan, ao abrir violentamente a porta; Robb não fala nele:
— Vargas!
— Sim, senhor?
— Já houve malária aqui em Macau?
— Não, senhor. — Vargas empalideceu. Seu filho e seu sobrinho trabalhavam para a Casa Nobre e agora viviam em Hong Kong. — Tem certeza de que é malária?
— Não. Apenas alguns dos médicos pensam assim. Nem todos. Vá procurar Mauss. Diga-lhe que quero ver Jin-qua, imediatamente. Com ele.
— Sim, senhor. Sua Excelência quer que jante com ele e com o arquiduque esta noite, às nove horas.
— Aceite, em meu nome.
— Sim, senhor.Struan fechou a porta e se sentou, sombriamente Usava uma camisa leve, sem gravata, bem como calças é botas leves. Os outros europeus achavam que ele estava louco por se arriscar a pegar os diabólicos resinados que, todos achavam, eram trazidos pelos ventos de verão.
— Não pode ser malária — disse ele. — Não é malária. Alguma outra coisa.
— A ilha é amaldiçoada.
— Agora, você está pensando como uma mulher — disse Struan.
— A febre não estava lá, antes dos cules chegarem. Livre-se dos cules e se livrará da epidemia. Eles a estão levando consigo. São os culpados.
— Como sabe disso, Culum? Admito que começou entre os cules. E concordo que vivem nas regiões baixas. E concordo que, como sabemos, só se pode pegar malária, respirando o ar noturno envenenado. Mas, por que só há febre no vale? Só o Vale Feliz tem ar ruim? Ar é ar, pelo amor de Cristo, e há uma ótima brisa soprando ali, a maior parte do dia e da noite. Não faz sentido.