— Faz muito bom sentido. É a vontade de Deus.
— Maldita seja uma resposta assim!
Culum se levantou.
— Eu lhe agradeceria se não blasfemasse.
— E eu lhe agradeceria se lembrasse que, não faz tanto tempo assim, os homens foram queimados na fogueira só por dizerem que a terra girava em torno do sol! Não é a vontade de Deus!
— Pense o que pensar, Deus tem uma interferência vital e contínua em nossas vidas. O fato de que a febre está no lugar onde escolhemos viver na Ásia é, eu acho, a vontade de Deus. Você não pode negar isso, porque não pode provar algo diferente, da mesma maneira como eu também não posso provar que isto é verdade. Mas acredito que é... a maioria acredita, e acho que devíamos abandonar o Vale Feliz.
— Se fizermos isso, abandonaremos Hong Kong.
— Podemos construir no terreno próximo ao Cabo Glessing.
— Você sabe quanto dinheiro nós, e todos os comerciantes, investimos no Vale Feliz?
— Sabe quanto dinheiro se pode gastar, quando se está a seis pés de profundidade no chão?
Struan observou friamente seu filho. Já fazia semanas que fora percebendo ser a hostilidade de Culum cada vez mais verdadeira. Mas não se incomodou com isso. Sabia que, quanto mais Culum aprendesse, mais procuraria pôr suas próprias idéias em prática e mais lutaria pelo poder. É justo, pensou, e ficou muito satisfeito com o desenvolvimento de Culum. Ao mesmo tempo sentiu-se preocupado com a segurança de Culum. Culum passava tempo demais em companhia de Gorth, com a mente perigosamente aberta.
Há dez dias, houvera uma briga cruel, que não levara a conclusão alguma. Culum declamara algumas teorias a respeito de navegação — obviamente opiniões de Gorth — e Struan discordara. Então, Culum falara na disputa entre Brock e Struan, e dissera que a geração mais jovem não cometeria os erros da mais velha. Que Gorth sabia não ser necessário para a geração mais jovem ficar aprisionada pela mais velha. Que Gorth e ele haviam concordado em esquecer toda inimizade, e ambos tentariam fazer as pazes entre seus pais. E, quando Struan começou a argumentar, Culum recusou-se a ouvir e saiu, furioso.
Além disso, havia o problema de Tess Brock.
Culum jamais falara dela a Struan. E nem ele com o filho. Mas sabia que Culum estava desesperado de saudade por ela e isto lhe obscurecia a mente. Struan lembrou-se de sua própria juventude e de como ansiara por Ronalda. Tudo parecia tão nítido, tão importante e tão limpo, naquela idade.
— Ah, Culum, rapaz, não se canse — ele disse, sem querer discutir com Culum. — O dia está quente e todos os ânimos exaltados. Sente-se e procure se acalmar. A pequena Karen está doente, e muitos de nossos amigos. Ouvi dizer que Tillman está com a febre, quem sabe quantos mais?
— E a Srta. Tillman?
— Acho que não.
— Gorth disse que vão fechar a feitoria deles amanhã. Ele vai passar o verão em Macau. Todos os Brocks vão.
— Nós vamos para Hong Kong. A feitoria aqui fica aberta.
— Gorth disse que seria melhor passar o verão em Macau. Ele tem uma casa lá.
Ainda temos propriedade lá, não? Struan remexeu-se em sua cadeira.
— Sim. Passe uma semana ou duas, se quiser. Passe em Macau. Mas quero você na Cidade da Rainha. E lhe direi outra vez, cuidado com as costas. Gorth não é seu amigo.
— E eu devo lhe dizer outra vez, acho que é.
— Ele está tentando enfraquecer você para, um dia, reduzi-lo a pó.
— Você está enganado. Eu o entendo. Eu gosto dele. Nós nos damos muito bem. Descobri que posso conversar com ele e aprecio sua companhia. Ambos sabemos que é difícil para você, e para o pai dele, compreender isso, mas... bom, é difícil de explicar.
— Eu compreendo Gorth muito bem, por Deus!
— Não vamos discutir isso — disse Culum.
— Acho que deveríamos discutir. Você está sob o fascínio de Gorth. Isto é fatal para um Struan.
— Você vê Gorth com outros olhos. Ele é meu amigo.
Struan abriu uma caixa, escolheu um charuto Havana e decidiu que chegara a hora.
— Acha que Brock aprovará que você se case com Tess?
Culum corou e disse, impulsivamente:
— Não vejo por que não. Gorth é a favor.
— Você discutiu o assunto com Gorth?
— Não discuti com você. E nem com ninguém. Então, por que deveria falar a respeito com Gorth?
— Então, como sabe que ele aprova?
— Não sei. Simplesmente, ele diz sempre como eu e a Srta. Brock parecemos nos dar bem, como ela gosta de minha companhia, encorajando-me a escrever para ela, esse tipo de coisa.
— Você acha que eu não tenho direito algum de perguntar suas intenções para com Tess Brock?
— Tem o direito, certamente. Só que... bom, sim, pensei em casar com ela. Mas nunca disse isto a Gorth.
Culum parou, desajeitadamente, e esfregou a sobrancelha. Ficara abalado com a rapidez com que o Tai-Pan tocara no que era mais importante em sua mente, e, embora quisesse falar a respeito, não queria ver o seu amor maculado. Diabo, eu deveria estar preparado, pensou, e ouviu a si mesmo prosseguir, apressadamente, incapaz de parar.
— Mas não creio que meu... meu afeto pela Srta. Brock seja do interesse de ninguém, no momento. Nada foi dito, e não há nada... bom, o que sinto pela Srta. Brock é assunto meu.
— Sei que sua opinião é essa — disse Struan — mas isto não significa que você tenha razão. Já considerou que pode estar sendo usado?
— Pela Srta. Brock?
— Por Gorth. E por Brock.
— Você já considerou que seu ódio por eles contamina todos os seus julgamentos?
— Culum estava furioso.
— Sim. Já considerei isso. Mas e você, Culum? Já pensou que podem estar usando você?
— Vamos dizer que você tenha razão. Vamos dizer que eu me case com a Srta. Brock. Não será vantajoso, comercialmente, para você? Struan estava satisfeito por ver o problema abordado abertamente.
— Não. Porque Gorth o devorará, quando você for Tai-Pan. Ele tomará tudo que temos e destruirá você... para ficar com a Casa Nobre.
— Por que iria ele destruir o marido de sua irmã? Por que não juntaríamos as duas companhias... Brock e Struan? Eu dirijo os negócios, ele dirige os navios.
— E quem será o Tai-Pan?
— Podemos dividir isso, Gorth e eu.
— Só pode haver um Tai-Pan. Este é o próprio significado da palavra. É a lei.
— Mas sua lei não é, necessariamente, a minha lei. E nem a de Gorth. Podemos aprender com os erros dos outros. Fundir nossas companhias nos daria imensas vantagens.
— É o que Gorth tem em mente?
Struan ficou imaginando se cometera um erro, com relação a Culum. A fascinação de seu filho por Tess e sua confiança em Gorth seriam a chave para destruir a Casa Nobre e dar a Brock e Gorth tudo que eles queriam. Só faltam três meses para eu partir para a Inglaterra. Meu Deus!
— Ah, é? — ele perguntou.
— Nunca discutimos isso. Conversamos a respeito de comércio, navegação e companhias, esse tipo de coisa. E como fazer as pazes entre vocês dois. Mas uma fusão seria vantajosa, não?
— Com aqueles dois, não. Você não está na mesma classe. Ainda.
— Mas, um dia, estarei?
— Talvez. — Struan acendeu o charuto. — Você realmente acha que poderia controlar Gorth?
— Talvez eu não precisasse controlá-lo. Como ele não precisaria me controlar. Vamos dizer que eu, realmente, me case com a Srta. Brock. Gorth tem a sua companhia, nós temos a nossa. Separadas. Podemos ainda competir. Mas amistosamente. Sem ódio.
— O tom de voz de Culum se endureceu. — Vamos pensar, por um momento, em termos de um Tai-Pan. Brock tem uma filha adorada. Eu ganho as suas boas graças e também as de Gorth. Casando-me com ela, só estarei amaciando a animosidade de Brock com relação a mim, enquanto ganho experiência. Sempre acenando com a isca da fusão das companhias. Depois, posso espezinhá-los, quando eu estiver preparado. Uma manobra segura e bem armada. A moça que se dane. Apenas usá-la... para maior glória da Casa Nobre.